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Espanha e Marrocos: quem diz a IA que venceria num conflito militar?

Imagem gerada por inteligência artificial para representar como seria uma IA a decidir sobre um conflito
Imagem gerada por inteligência artificial para representar como seria uma IA a decidir sobre um conflito -  Direitos de autor  'Euronews' con la ayuda de la IA Copilot de Microsoft
Direitos de autor 'Euronews' con la ayuda de la IA Copilot de Microsoft
De Cristian Caraballo
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A Euronews utilizou o mesmo comando em vários modelos de inteligência artificial para perceber, com base nos dados sobre o número de tropas, como seria um confronto hipotético entre os dois países.

Algures em dezembro do ano passado, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, numa reunião secreta com Elon Musk, no Salão Oval da Casa Branca, passou horas a fazer perguntas ao Grok, e não propriamente sobre sugestões de sobremesas rápidas e fáceis.

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Entre as perguntas feitas à IA estava a de como reagiria o povo venezuelano a uma hipotética captura do então presidente do país sul-americano, Nicolás Maduro. O agente respondeu que o dirigente era um ditador muito impopular e que muitos habitantes do país provavelmente iriam celebrar a sua queda.

E tudo indica que Trump levou essa opinião muito a sério já que, a 3 de janeiro, os Estados Unidos orquestraram uma operação para deter Maduro e a esposa e levá-los perante a justiça norte-americana. Segundo palavras citadas pela revista “Time”, o republicano ficou com a ideia de que o Grok era “engenhoso”.

Este episódio levou a “Euronews” a pensar no “Risk” e a ver o que dizem estas mesmas ferramentas quando lhes é apresentado um cenário bélico, uma hipotética guerra futura entre Espanha e Marrocos, com a tensão entre ambos a escalar desde a entrada ilegal de milhares de migrantes em Ceuta a partir do país africano e com os 88 mortos que o governo de Ceuta confirmou. Além disso, o presidente do Governo espanhol, Pedro Sánchez, admitiu que três navios da Marinha Real marroquina tinham entrado sem autorização nas águas da cidade autónoma nesses dias.

Perante este contexto, colocámos aos agentes quatro cenários de conflito, tendo em conta as forças de cada país em cada domínio: naval, terrestre, aéreo e global. Perguntámos-lhes ainda que apoios poderia ter cada lado e quem acabaria por vencer.

Cenário naval: sem discussão

Combate marítimo entre Espanha e Marrocos, segundo a IA
Combate marítimo entre Espanha e Marrocos, segundo a IA Euronews

Este é o único ponto em que todas coincidem. Espanha venceria um confronto naval devido a uma lacuna que todos os agentes de inteligência artificial assinalam: a ausência de submarinos na Marinha marroquina. O Gemini fala numa “superioridade esmagadora” por parte de Espanha e aponta para um “domínio total em poucos dias”. O Copilot, o assistente da Microsoft, atreve-se mesmo a avançar números, entre 85% e 90% de probabilidades para Espanha.

As 5 fragatas espanholas F-1XX
As 5 fragatas espanholas F-1XX Ministerio de Defensa de España

Já o ChatGPT mostra-se um pouco mais prudente (e assim se manterá ao longo do resto do artigo). Embora reconheça a vantagem “estrutural” do país europeu, alerta que as curtas distâncias no estreito de Gibraltar dificultariam transformá-la num controlo absoluto do mar. O Claude parte da vantagem espanhola atual e recorda que as incursões marroquinas deste verão nas águas de Ceuta terminaram quando a Armada espanhola destacou as suas fragatas. Chama, porém, porta-aviões ao Juan Carlos I, quando na realidade se trata de um navio anfíbio.

Cenário aéreo: vantagem espanhola com algumas reservas

Quem venceria um combate aéreo entre Espanha e Marrocos, segundo a IA
Quem venceria um combate aéreo entre Espanha e Marrocos, segundo a IA Euronews

Nenhum agente de IA tem dúvidas de que Espanha controlaria os céus, mas aqui a margem estreita-se. O Copilot, por exemplo, baixa a sua estimativa para 70%-80%, enquanto o ChatGPT recorda que Marrocos dispõe de aviões-cisterna, capazes de prolongar certas missões, e que ter mais aviões não garante o domínio do ar.

Neste ponto, o Gemini comete um erro. O agente parte do princípio de que a aviação marroquina já conta com os F-16 Block 72, que descreve como “muito capazes”, mas o primeiro dos 25 encomendados pela monarquia do Norte de África realizou o seu voo inaugural em 6 de outubro, em Greenville, na Carolina do Sul, e continua em testes antes da entrega. A mesma resposta atribui a Espanha aviões Awacs de alerta antecipada de que o país não dispõe.

O Claude sublinha o contrário: numa guerra sem aliados, Espanha perderia o apoio dos Awacs da NATO e teria poucas defesas contra drones.

O caça Eurofighter
O caça Eurofighter Ministerio de Defensa de España

Cenário terrestre: sem consenso

Resultado, segundo a IA, de um combate terrestre em África entre Espanha e Marrocos
Resultado, segundo a IA, de um combate terrestre em África entre Espanha e Marrocos Euronews

Em terra é onde não há qualquer decisão clara. O Claude, neste capítulo, é o mais categórico a favor de Marrocos, que venceria “com margem”. O argumento é geográfico: a única fronteira terrestre são os perímetros de Ceuta e Melilla e, sem navios nem aviões, Espanha não conseguiria reforçá-los. Acrescenta ainda que Melilla, mais isolada, cairia primeiro e lembra que Espanha não tem lançadores múltiplos de mísseis, face aos 185 de que Marrocos dispõe.

O Copilot também se inclina para Rabat, embora por pouco, com 55%-60% de probabilidades. O Gemini segue em sentido contrário, ao falar em “empate técnico”, com vantagem defensiva para Espanha graças aos carros de combate Leopard 2E, e atribui a Marrocos entre 300.000 e 500.000 efetivos em mobilização total. As estimativas baseadas no Instituto Internacional de Estudos Estratégicos (IISS) reduzem bastante esse número: entre 195.000 e 200.000 militares no ativo e 150.000 reservistas.

O ChatGPT, por seu lado, evita pronunciar-se. Distingue três cenários, conforme os combates decorram na península Ibérica, em Marrocos, ou apenas nas cidades autónomas de Ceuta e Melilla. A conclusão é que o abastecimento e a geografia podem pesar mais do que o número de soldados.

Fotografia de arquivo do desfile das Forças Armadas de Marrocos em Rabat.
Fotografia de arquivo do desfile das Forças Armadas de Marrocos em Rabat. AP Photo

Guerra total

Como seria um combate total entre Espanha e Marrocos, segundo a IA
Como seria um combate total entre Espanha e Marrocos, segundo a IA Euronews

Mobilizando o grosso de todas as forças, três das quatro apontam hipoteticamente Espanha como vencedora. O Gemini baseia-se num orçamento de Defesa mais de cinco vezes superior (e ainda com o esforço para cumprir a meta da NATO) e na possibilidade de “estrangular” economicamente Marrocos através de um bloqueio marítimo. O Copilot concede-lhe entre 70% e 75% de hipóteses.

O Claude introduz três fatores que os restantes não mencionam: tempo, munições e peças sobresselentes. No primeiro, Rabat tentaria cercar Ceuta e Melilla antes de Espanha impor o seu domínio no mar e no ar, enquanto nos outros dois quase todo o material marroquino de primeira linha depende dos EUA (desde os F-16 aos Himars), ao passo que Espanha recorre à produção nacional no que toca a fragatas, submarinos e blindados. O seu prognóstico, portanto, é de vitória espanhola (e diz mesmo que em poucas semanas), com Ceuta assegurada e “dúvidas sérias” sobre Melilla.

O ChatGPT é o dissidente. Continua sem apontar um vencedor e sustenta que não existe uma forma fiável de somar todas as vantagens, dividindo a análise em três objetivos: defender o próprio território, frustrar os planos do adversário e ocupar território alheio.

Que países apoiariam cada lado? O papel dos EUA

O Copilot coloca Washington, sem hesitações, entre os países que simpatizariam com Espanha, pelos laços no âmbito da NATO (sendo, além disso, um dos Estados que mais gasta com a organização).

O ChatGPT volta a mostrar-se ambíguo e inclui-o nas duas listas, tanto de apoio marroquino como de apoio espanhol. O Gemini aproxima-o de Marrocos, que Washington considera aliado principal fora da Aliança, enquanto o Claude o define como “a grande incógnita”, por considerar improvável que dispare contra um parceiro da NATO, mas plausível que continue a fornecer armas a Rabat e a travar condenações na ONU. A clássica história do agente duplo.

A atualidade não favorece a leitura do Copilot. Na cimeira da NATO de julho em Ancara, Trump chamou a Espanha “causa perdida” e disse que não queria mais comércio com o país.

Donald Trump faz uma pausa para se hidratar durante uma campanha das eleições de 2024 no Madison Square Garden, em Nova Iorque.
Donald Trump faz uma pausa para se hidratar durante uma campanha das eleições de 2024 no Madison Square Garden, em Nova Iorque. AP Photo

Argélia, França e o Golfo

A Argélia também gera leituras opostas. Para o Copilot, a sua posição seria “complicada”, porque é rival de Marrocos mas desconfia da presença militar europeia no Norte de África e o Claude vê-a como o apoio regional mais motivado de Espanha, após a reativação, em março, do Tratado de Amizade e a plena reabertura das relações diplomáticas.

França surge ao lado de Espanha na resposta do Gemini, em ambos os campos na do ChatGPT e como mediadora na do Claude. A Arábia Saudita e os Emirados figuram do lado de Rabat em todas as respostas que os mencionam, e Israel é apontado como fornecedor-chave de Marrocos no Gemini e no Claude.

Ceuta e Melilla fora do âmbito da NATO

Três das quatro lembram que o artigo 5.º do Tratado do Atlântico Norte não protege de forma automática Ceuta e Melilla, que ficam fora do seu âmbito geográfico. O Gemini formula-o falando de “conflitos coloniais ou territoriais” no Norte de África. Só o Claude menciona a cláusula de defesa mútua da União Europeia, que não faz distinções geográficas.

Sim, mas afinal... quem ganha?

A pergunta final recebe de tudo, desde a rotundidade até à abstenção. O Gemini proclama Espanha “clara vencedora a longo prazo”, ainda que à custa de uma catástrofe humanitária e económica no Mediterrâneo ocidental, aquilo que a história conhece como vitória pírrica.

O Copilot mantém-se nos seus percentuais e conclui que a superioridade espanhola no mar e no ar pesaria mais do que a vantagem marroquina em terra. O Claude, por seu lado, divide a resposta. Numa guerra apenas entre os dois países, Espanha sairia vencedora, mas com terceiros no terreno considera que o conflito seria travado em poucos dias ou semanas e que tudo dependeria de quem controlasse Ceuta e Melilla no momento de se assinar o cessar-fogo, um cenário em que, no seu entender, Marrocos teria “mais hipóteses do que sugere a tabela de material”. O ChatGPT também aqui se recusa a arriscar e insiste em que os dados não permitem prever um resultado fiável.

Também não trabalham com os mesmos números. O Exército marroquino vai dos cerca de 200.000 militares no ativo citados por três delas até aos 500.000 avançados pelo Gemini. E só uma distingue entre os F-16 que Marrocos já possui e os que ainda aguarda.

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