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Viajar para lá das fronteiras de Baku através da ficção

12.º Feira Internacional do Livro de Bacu
12.ª Feira Internacional do Livro de Baku -  Direitos de autor  Euronews Baku Bureau, October 2026
Direitos de autor Euronews Baku Bureau, October 2026
De Nargiz Mammadzada & Nadira Tudor
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O que une uma romancista iraniana, um autor infantil britânico e uma escritora azeri? Histórias que atravessam fronteiras, ligam continentes e misturam culturas através dos livros

Da poesia do Azerbaijão medieval aos romances contemporâneos que chegam a leitores em vários continentes, a relação de Baku com a palavra escrita assenta em séculos de intercâmbio cultural.

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Hoje, esse património literário ganha nova expressão, com autores, editores e leitores da Europa, da Ásia e de outros pontos do mundo a reunir-se na capital azeri pelo 12.º ano consecutivo.

Na 12.ª Feira Internacional do Livro de Baku, 32 países participaram num evento que não se limitou a dar a conhecer as novidades editoriais.

Foi uma oportunidade para explorar como a literatura liga corações e mentes, cruzando línguas, gerações e fronteiras geográficas, ao misturar e partilhar ideias e histórias.

Numa altura em que a tecnologia está a transformar a forma como as histórias são contadas, publicadas e consumidas, a feira também procurou perceber de que modo os livros continuarão a ser uma parte intrínseca e vital do nosso futuro.

12.ª Feira Internacional do Livro de Baku
12.ª Feira Internacional do Livro de Baku Euronews Baku Bureau, October 2026

Onde a história encontra a palavra moderna

As tradições literárias do Azerbaijão remontam a vários séculos e foram moldadas pela sua posição na encruzilhada entre a Europa e a Ásia.

Figura central é o poeta do século XII Nizami Ganjavi.

Nasceu no território que hoje é o Azerbaijão e tornou-se uma das figuras literárias mais influentes do mundo de língua persa, com obras que viajaram pelo globo. Continua a ser celebrado hoje em dia.

Seguiram-se, séculos depois, autores e poetas como Muhammad Fuzuli, que contribuíram para uma rica tradição literária desenvolvida em várias línguas e sob diversas influências culturais.

Este património oferece um enquadramento histórico e rico à relação moderna do país com a literatura internacional, em que a tradução, as parcerias editoriais e os festivais literários ajudam as histórias a chegar a públicos muito para lá das fronteiras locais e dos países de origem.

Para a romancista iraniana Parinoush Saniee, a literatura é uma forma de explorar as relações entre as pessoas e as sociedades em que vivem.

Parinoush Saniee a assinar o seu livro durante a 12.ª Feira Internacional do Livro de Baku
Parinoush Saniee a assinar o seu livro durante a 12.ª Feira Internacional do Livro de Baku Euronews Baku Bureau, October 2026

Romance de reconhecimento internacional, The Book of Fate acompanha a vida de uma mulher iraniana ao longo de décadas de mudança pessoal e política, abordando temas como identidade, família, educação e as expectativas colocadas sobre as mulheres.

Saniee explicou que, inicialmente, presumiu que a sua obra só iria ressoar a nível regional, mas rapidamente se surpreendeu com a reação global.

“A primeira tradução do meu livro foi para italiano”, recordou Saniee.

“Quando vi toda aquela receção e vários jornalistas vieram de diferentes lugares, perguntei-lhes o que é que achavam interessante no livro. Disseram que lhes era próximo. Também tinham tido essas experiências. Era muito fácil reverem-se nele.”

Embora enraizadas na sociedade iraniana, as questões levantadas na sua escrita ressoam muito para lá das suas fronteiras. As obras foram traduzidas em inúmeras línguas e mostram como a literatura pode oferecer aos leitores uma compreensão de vidas e experiências diferentes das suas.

Observou o mesmo fenómeno quando o romance se tornou um best-seller na Noruega, o que prova que os temas universais de sofrimento e resistência se traduzem sem esforço.

“O sofrimento humano, os estilos de vida, as questões e os problemas têm, no conjunto, um grande impacto sobre a humanidade, e todos o compreendemos”, afirmou Saniee. “Por isso, não importa de onde vem.”

Darren Simpson durante a 12.ª Feira Internacional do Livro de Baku
Darren Simpson durante a 12.ª Feira Internacional do Livro de Baku Euronews Baku Bureau, October 2026

Chegar às mentes mais jovens

Britânico, Darren Simpson, por seu lado, aborda a narrativa através da imaginação dos leitores mais jovens.

É conhecido por romances como Scavengers e The Memory Thieves, em que cria mundos e personagens invulgares que exploram amizades, pertença, identidade e os desafios de crescer.

Simpson partilhou a ideia de que a emoção humana permite que as histórias atravessem fronteiras sem esforço, sublinhando que crianças em todo o mundo procuram exatamente o mesmo numa narrativa.

“Quando vejo crianças de muitos países diferentes ligarem-se às minhas histórias da mesma forma, isso diz-me muito sobre o carácter universal de muitos sentimentos, sobre as necessidades das pessoas e o seu desejo de se ligarem”, explicou Simpson.

As suas obras refletem a importância da literatura infantil numa altura em que, possivelmente, os jovens têm uma escolha sem precedentes de entretenimento digital e os livros não são necessariamente a opção mais popular. Ainda assim, destacou que a receção local na feira foi incrivelmente inspiradora.

“No Azerbaijão, impressionou-me a paixão que existe aqui entre os jovens leitores”, acrescentou.

12.ª Feira Internacional do Livro de Baku
12.ª Feira Internacional do Livro de Baku Euronews Baku Bureau, October 2026

Dar voz aos autores locais

Paralelamente à oferta internacional, a feira celebra também os autores locais que ajudaram a moldar a identidade literária contemporânea do Azerbaijão.

Entre eles está Reyhan Yusifgizi, uma voz de destaque na ficção científica infantil azeri, que leva para a escrita uma formação académica singular em informática.

Ao falar sobre como cultivar hábitos de leitura na era digital, Yusifgizi explicou que despertar o interesse de uma criança exige uma abordagem em duas etapas.

“Em primeiro lugar, isto depende do autor”, observou Yusifgizi. “Tem de escrever bem, escrever de forma moderna. Com uma linguagem simples, tem de despertar o interesse da criança.”

Contudo, sublinhou que o segundo fator é muitas vezes o mais fundamental.

“O progenitor influencia diretamente a criança. O progenitor está entre o autor, o livro e a criança”, afirmou.

“Antes de mais, o progenitor tem de o demonstrar com a sua própria experiência, com o seu exemplo. Tem de ler.”

Escritora e publicista azeri, Elmira Akhundova refletiu sobre o profundo peso emocional que os livros físicos carregam quando comparados com as notícias digitais efémeras. Para ela, a finalidade última da literatura é promover a paz e o multiculturalismo.

“O que encontramos no fim do livro mais difícil, mais triste? Luz”, disse Akhundova.

“É um apelo à tolerância. Temos de ouvir estes apelos humanistas e incuti-los na nossa geração mais jovem”, declarou à Euronews.

Desafiou a próxima geração a procurar narrativas complexas e filosóficas, em vez de se contentar com entretenimento fácil, sublinhando que cada história deve, em última análise, conduzir o leitor à esperança.

“Um livro tem, absolutamente, de estar orientado para o humanismo”, acrescentou, defendendo que, aconteça o que acontecer, um livro ‘tem de estar sempre do lado ensolarado da rua’.

O futuro da palavra escrita

Reconhece-se que a relação entre os livros e os seus leitores está a mudar.

Edição digital, audiolivros e novas formas de contar histórias estão a transformar o panorama literário, mas, em vez de substituírem totalmente os livros físicos tradicionais, as inovações tecnológicas trazem também vantagens.

Os livros podem agora viajar à velocidade da luz. Um toque num botão pode transportar-nos para outro universo e, talvez, seja isso que torna um encontro literário internacional ainda mais relevante hoje.

Para lá dos expositores, os autores escolhem sair da frente do computador para terem essas discussões presenciais importantes, unidos pelo amor à narrativa.

E que melhor lugar para ter essas conversas do que esta porta entre o Oriente e o Ocidente?

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