No discurso de inauguração, o rei Felipe VI apelou a uma posição comum, apesar das diferenças entre os 22 países participantes no encontro. Milei e Sánchez voltam a protagonizar desentendimento.
A XXX Cimeira Ibero-americana reúne, esta quinta-feira, em Madrid, os representantes dos 22 países que integram a comunidade, num encontro marcado pelas diferenças políticas e ideológicas entre os seus participantes. O rei Felipe VI inaugurou a sessão plenária com um apelo à preservação da unidade na diversidade e para que os líderes sigam "a partitura", para que a música da comunidade soe "harmoniosa", apesar da variedade dos seus instrumentos..
O monarca sublinhou os 35 anos de percurso do fórum e defendeu que a diversidade constitui uma fonte de riqueza para uma comunidade que deve ser capaz de se reconhecer numa mesma melodia. “A nossa primeira responsabilidade é para com os cidadãos ibero-americanos”, enfatizou, ao mesmo tempo que apelou a uma voz comum e ao reforço das instituições da organização.
Por seu lado, o presidente do governo espanhol, Pedro Sánchez, defendeu o diálogo, a cooperação e a paz face a quem aposta no “recolhimento e no unilateralismo”. O chefe do executivo espanhol reconheceu as diferentes realidades dos países que participam este ano na Cimeira Ibero-americana, mas insistiu em que o objectivo partilhado deve ser construir uma comunidade útil para as respetivas sociedades.
A jornada ficou ainda marcada por uma visita inesperada: a do presidente ucraniano, Volodymyr Zelenskyy, que viajou até Madrid para se encontrar com Sánchez no Palácio da Moncloa e conversar com vários dirigentes ibero-americanos. Prevê-se igualmente que se reúna, à margem da Cimeira, com o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, e com o presidente do Conselho Europeu, António Costa.
O chefe de Estado ucraniano procura reforçar a cooperação em matéria de Defesa, sobretudo para proteger a população dos ataques russos, e obter novos apoios internacionais para o seu país.
Desentendimento entre Milei e Sánchez marca a jornada
Um dos momentos de maior tensão política ocorreu com a intervenção do presidente argentino, Javier Milei, que aproveitou o seu tempo de palavra para atacar o socialismo e equipará-lo ao fascismo. Sem mencionar explicitamente o socialista Sánchez, o dirigente argentino recuperou as suas críticas habituais à social-democracia e instou os dirigentes ibero-americanos a oporem-se às agendas progressistas.
“O socialismo é fascista na política e o fascismo é socialista na economia”, afirmou Milei perante o plenário. O presidente argentino defendeu que, a seu ver, ambas as correntes partilham “o ódio pelo livre mercado” e sustentou que as pretensões do Estado fascista continuam presentes em determinadas políticas que avançam na Europa.
A sua intervenção ocorreu depois de, na quarta-feira, se ter ausentado tanto da cerimónia de abertura no Teatro Real como do jantar de gala no Palácio Real, a que assistiram o Rei e os principais representantes dos países participantes. Milei optara por se reunir com o líder do Vox, Santiago Abascal, antes de comparecer esta quinta-feira na sessão plenária.
O cumprimento entre o dirigente argentino e Sánchez, à chegada à Galeria das Coleções Reais, já tinha evidenciado a frieza entre ambos. Embora Milei tenha evitado repetir os insultos pessoais que dirigira ao presidente espanhol em visitas anteriores, o seu discurso voltou a colocar o confronto ideológico no centro da cimeira.
Seguro e Guterres defendem diálogo e cultura como elementos de união
O presidente português, António José Seguro, apelou a reforçar a presença ibero-americana no palco internacional com uma voz própria que defenda a paz e o diálogo num contexto de polarização crescente.
“Vamos reforçar a voz ibero-americana na esfera internacional para que esta voz seja, em especial, uma voz de paz e de diálogo em benefício da dignidade humana”, afirmou. Seguro também destacou a importância de iniciativas de cooperação, como a nova rede de protecção civil, destinada a melhorar a coordenação perante catástrofes naturais.
Por seu turno, o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, destacou a dimensão cultural da comunidade ibero-americana. “A Ibero-América não é uma superpotência militar nem económica, mas sim cultural”, assinalou, recordando a confluência das heranças indígenas, africanas e europeias que caracterizam os 22 países que participam estes dias na Cimeira.
Guterres defendeu uma identidade comum que não implique renunciar às diferenças. “Amar o que é nosso não exige temer o que é alheio”, afirmou, antes de resumir a sua visão da comunidade com uma expressão: “Unidade sem uniformidade”.
Cuba volta a dividir os países ibero-americanos
O bloqueio norte-americano a Cuba voltou a evidenciar as diferenças entre os participantes. Os ministros dos Negócios Estrangeiros do Brasil, Cuba, México, Uruguai e Nicarágua condenaram em Madrid as medidas de Washington contra a ilha, cujo impacto se agravou com as restrições ao fornecimento de combustível.
O ministro brasileiro, Mauro Vieira, advertiu que o seu país “não cabe no quintal traseiro de ninguém”, numa clara referência à visão expansionista defendida por Washington nos últimos meses, e defendeu que “a época dos protectorados e das esferas de influência já passou”. Também denunciou as medidas norte-americanas que, segundo disse, visam “cortar ilegalmente” o fluxo energético para Cuba, com consequências especialmente graves para os sectores mais vulneráveis da população.
O seu homólogo cubano, Bruno Rodríguez, qualificou como “limites desumanos” a situação provocada pelo endurecimento do embargo, pelo bloqueio energético e pelas sanções contra quem fornece combustível à ilha. O ministro denunciou que estas medidas constituem uma forma de “castigo colectivo”.
A questão já dificultara as negociações na cimeira anterior, realizada em 2024 em Cuenca (Equador), onde as divergências impediram a aprovação de uma declaração final. Desta vez, o texto de Madrid evitará mencionar explicitamente o bloqueio para facilitar o consenso entre os 22 países.
El Salvador e Colômbia combatem o crime organizado
A segurança ocupou também um lugar de destaque nas intervenções dos representantes latino-americanos. O vice-presidente de El Salvador, Félix Ulloa, apresentou o seu país como um modelo regional na luta contra a criminalidade e defendeu as políticas do presidente Nayib Bukele.
“Em 2015 fomos caracterizados como a capital mundial do homicídio. Agora, 10 anos mais tarde, somos o país mais seguro do hemisfério ocidental”, assegurou.
Ulloa justificou ainda a presença de militares salvadorenhos no Haiti, onde participam numa operação para localizar quatro soldados desaparecidos numa zona controlada por bandos armados. O vice-presidente rejeitou que se trate de “uma força de ocupação” e defendeu que o destacamento responde a um acordo bilateral com as autoridades haitianas.
Por parte da Colômbia, o vice-presidente José Manuel Restrepo destacou os resultados da controversa política de segurança do Governo de Abelardo de la Espriella. Segundo os números que apresentou, durante os primeiros 90 dias de mandato ocorreram mais de 32 000 detenções e 35 cabecilhas criminosos foram “capturados ou abatidos”. Garantiu também que os homicídios, sequestros, massacres e crimes terroristas diminuíram entre 40% e 80%.
Letizia apela ao fim do tráfico de seres humanos e Portugal oferece-se para acolher a próxima cimeira
À margem da sessão plenária, a rainha Letizia participou numa jornada de trabalho no Palácio de El Pardo dedicada à trata de pessoas para fins de exploração sexual e à inclusão das pessoas com deficiência através da cultura.
A Rainha advertiu que o crime “degrada” e “viola” a dignidade das pessoas e apelou a manter os esforços para erradicar este crime. “Pensamos que todas as pessoas que estão hoje aqui podem, a partir dos vossos lugares, procurar continuar a impulsionar e a melhorar tudo o que tem a ver com a erradicação definitiva desse crime”, assinalou.
A jornada concluiu com a proposta de Portugal para assumir a presidência da comunidade ibero-americana no período 2029-2030 e organizar a cimeira prevista para 2028. O primeiro-ministro, Luís Montenegro, anunciou ainda que o país duplicará a sua contribuição para a Secretaria-Geral Ibero-americana (Segib), com sede em Madrid.