O bloqueio, juntamente com as sanções alargadas dos EUA que penalizam empresas que negoceiam com o Estado cubano, agravou a pior crise económica e energética na ilha em mais de uma geração.
O governo de Cuba afirmou esta quarta-feira que o bloqueio petrolífero imposto pelos Estados Unidos, que paralisou a ilha, está a impedir as Nações Unidas de distribuírem 170 contentores de ajuda humanitária.
O presidente norte-americano, Donald Trump, quer pôr fim a mais de seis décadas de regime comunista em Cuba.
Em janeiro, cortou o fornecimento de petróleo ao principal inimigo de Washington, vindo do seu principal fornecedor, a Venezuela, e ameaçou com sanções outros países que tentassem acudir Cuba.
Desde então, apenas um petroleiro, vindo da Rússia, conseguiu chegar ao país.
O ministro dos Negócios Estrangeiros cubano, Bruno Rodríguez, afirmou que 170 contentores de ajuda da ONU, avaliados em 6,3 milhões de dólares (5,4 milhões de euros), “não estão a chegar aos beneficiários devido à escassez de combustível”.
Numa mensagem na rede social X, sublinhou que o bloqueio “não está apenas a travar o desempenho da economia cubana”, como também a afetar o trabalho das organizações internacionais.
O bloqueio, a par da expansão das sanções norte-americanas que punem empresas que fazem negócios com o Estado cubano, agravou a pior crise económica e energética na ilha em mais de uma geração.
Bairros de Havana têm estado sem eletricidade durante períodos de até 30 horas seguidas nos últimos dias e escasseiam cada vez mais alimentos, água canalizada e medicamentos.
Trump afirma que Cuba, situada a 150 quilómetros da costa da Florida, representa uma grande ameaça para a segurança nacional dos Estados Unidos e chegou a admitir uma “tomada de controlo amigável” da ilha, com 9,6 milhões de habitantes.
Na segunda-feira, o alto-comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Volker Türk, apelou à “revogação imediata” das sanções norte-americanas.
“As crianças estão a morrer porque os médicos não têm acesso a material e medicamentos essenciais. Isto é inaceitável”, afirmou.
Pretexto para ação militar
As sanções recentes dos EUA que visam a liderança cubana e a acusação do antigo presidente Raúl Castro são um “pretexto” para a administração Trump convencer a população norte-americana a apoiar uma intervenção militar, afirmou na terça-feira a principal diplomata cubana nos Estados Unidos.
A embaixadora Lianys Torres Rivera reiterou as acusações contra a administração Trump feitas por outros responsáveis cubanos, incluindo o ministro dos Negócios Estrangeiros e o presidente, e queixou-se de que os EUA estão a atingir civis cubanos com o embargo em vigor há décadas e com o novo bloqueio aos carregamentos de energia para a ilha.
“As sanções contra os nossos líderes são, para nós, um pretexto para levar o povo norte-americano a pensar que somos uma ameaça”, afirmou na embaixada de Cuba em Washington.
“Não constituímos uma ameaça para os EUA e não queremos confronto.”
Torres Rivera, que tem o título formal de encarregada de negócios, descreveu a situação como “uma guerra sem bombas”.
Advertiu que qualquer tentativa de mudar o governo de Cuba por coerção ou pela força será enfrentada com forte resistência.
“O Raúl é sagrado”, disse, a propósito da acusação deduzida no mês passado por um grande júri federal contra Castro.
O antigo presidente, de 95 anos, está acusado de conspiração e homicídio relacionados com o abate, em 1996, de dois aviões civis desarmados operados pelo grupo de exilados com sede em Miami Brothers to the Rescue, quando exercia funções de ministro da Defesa de Cuba.
“O Raúl é um símbolo sagrado da revolução e vamos defendê-lo, tal como ao país, até ao fim”, afirmou Torres Rivera. “Se formos atacados, vamos responder e estamos preparados para isso. Mas não o queremos.”
Trump, o secretário de Estado Marco Rubio e outros membros da administração têm rejeitado repetidamente que as dificuldades económicas de Cuba sejam responsabilidade dos Estados Unidos, atribuindo-as antes às políticas socialistas do governo cubano.
Não excluem uma ação militar contra a ilha, mas afirmam estar dispostos a dar tempo às autoridades cubanas para fazerem reformas.