Reunião desta semana vai ficar marcada pela revelação de que o Departamento de Justiça abriu uma investigação criminal à Fed, pondo em causa a independência do banco central.
Após duas semanas de intenso escrutínio político e jurídico, a Reserva Federal procurará tornar a reunião sobre taxas de juro desta semana o mais discreta possível, embora o Presidente Donald Trump provavelmente não goste do resultado.
É quase certo que o comité que define as taxas de juro mantenha a sua taxa diretora de curto prazo inalterada, perto de 3,6%, após três descidas consecutivas de um quarto de ponto no ano passado.
Jerome Powell, presidente da Fed, disse após a reunião de dezembro que estavam “bem posicionados para esperar e ver como a economia evolui” antes de tomar quaisquer novas medidas.
Ao baixar a sua taxa de curto prazo, a Fed pode, ao longo do tempo, influenciar outros custos de financiamento, como hipotecas, crédito automóvel e empréstimos empresariais, embora essas taxas também sejam afetadas pelas forças de mercado.
A reunião desta semana, uma de oito que a Fed realiza por ano, será ofuscada pela revelação, no início do mês, de que o Departamento de Justiça intimou a Fed no âmbito de uma investigação criminal a um depoimento que Powell prestou em junho passado sobre a renovação de um edifício no valor de 2,5 mil milhões de dólares (2,1 mil milhões de euros). É a primeira vez que um presidente em funções da Fed é investigado e levou Powell a uma crítica pública invulgar.
Agora, Powell terá de passar do confronto com a Casa Branca a sublinhar que as decisões da Fed sobre juros são determinadas por considerações económicas, não por política. A 11 de janeiro, Powell afirmou que as intimações eram “pretextos” para punir a Fed por não cortar as taxas tão acentuadamente como Trump pretende.
Michael Gapen, economista-chefe nos EUA na Morgan Stanley e também antigo quadro da Fed, disse que, apesar do escrutínio, se espera que a Fed considere a sua política de juros como sempre.
“As reuniões têm um fluxo regular”, disse. “Há apresentações, há discussões que têm de acontecer. ... Alguns destes ataques mais abrangentes à Fed não chegam propriamente a surgir”.
Pouco depois das intimações do Departamento de Justiça, o Supremo Tribunal, na semana passada, ponderou se Trump pode demitir a governadora da Fed Lisa Cook devido a alegações de fraude hipotecária, que ela nega. Nenhum presidente demitiu um governador em toda a história de 112 anos da Fed.
Numa audiência, os juízes pareceram inclinados a permitir que se mantenha no cargo até o caso ser resolvido.
Tentativas de demitir Lisa Cook
Outros responsáveis da Fed também sinalizaram que o banco central deverá manter as taxas inalteradas na reunião de dois dias que termina na quarta-feira.
As três descidas de juros da Fed no ano passado visaram sustentar a economia depois de as contratações terem abrandado acentuadamente na sequência das tarifas de abril impostas por Trump a dezenas de países.
Ainda assim, a taxa de desemprego recuou em dezembro, após ter subido durante grande parte do ano, e há outros sinais de estabilização do mercado de trabalho. O número de pessoas a pedir subsídio de desemprego manteve-se historicamente baixo, sinal de que os despedimentos não dispararam.
Entretanto, a inflação continua elevada e até subiu no ano passado, segundo a medida preferida da Fed, o que enfraquece o argumento para um corte imediato. Os preços aumentaram 2,8% em novembro face ao ano anterior, segundo os últimos dados disponíveis. É mais do que os 2,6% de novembro do ano anterior.
Salvo se as empresas começarem a cortar postos ou a taxa de desemprego subir, a Fed dificilmente voltará a cortar juros pelo menos durante alguns meses, dizem economistas.
Se a inflação for descendo lentamente este ano, como os economistas antecipam, a Fed poderá voltar a cortar na primavera ou no verão. Investidores em Wall Street esperam apenas duas descidas de um quarto de ponto este ano, segundo os preços dos futuros.
Muitos economistas anteveem que o crescimento possa ganhar tração nos próximos meses, o que seria outra razão para prescindir de cortes. Gapen estima que os reembolsos fiscais possam ser cerca de 20% mais elevados nesta primavera do que no ano passado, à medida que entram em vigor os cortes de impostos da administração Trump.
A economia expandiu-se a uma taxa anual de 4,4% no trimestre de julho a setembro do ano passado e poderá ter crescido a um ritmo igualmente saudável nos últimos três meses do ano.
Se esse crescimento robusto continuar, responsáveis da Fed deverão esperar para ver se as contratações também aceleram, reduzindo ainda mais a necessidade de novos cortes.
Futuro de Powell
Jerome Powell preside à Fed desde 2018, inicialmente nomeado por Trump no primeiro mandato e depois reconduzido por Biden.
O mandato como presidente termina em maio, com Trump a dever indicar um sucessor nos próximos dias. Entre os nomes apontados estão Rick Rieder, da BlackRock, o diretor do Conselho Económico Nacional Kevin Hassett, o governador da Fed Christopher Waller e o antigo governador Kevin Warsh.
Apesar de Powell estar de saída da liderança, não é claro se tomará a decisão invulgar de permanecer como governador, com esse mandato a decorrer até 31 de janeiro de 2028.
O Conselho de Governadores da Fed integra sete membros com mandatos de 14 anos, embora quase todos os presidentes abandonem o conselho quando termina o mandato na liderança.
Se Powell permanecer no conselho, negará à Casa Branca a oportunidade de obter uma maioria, travando os esforços da administração Trump para aumentar o controlo sobre o banco central.
Seria o primeiro presidente em quase 50 anos a manter-se no conselho.