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Ascensão rápida da Anthropic: a estratégia por trás da avaliação de 800 mil milhões de dólares

Páginas do site da Anthropic e os logótipos da empresa são exibidos num ecrã de computador em Nova Iorque, 26 de fevereiro de 2026
Páginas do site da Anthropic e logótipos da empresa surgem num ecrã de computador em Nova Iorque, 26 fev. 2026 Direitos de autor  AP Photo/Patrick Sison
Direitos de autor AP Photo/Patrick Sison
De Quirino Mealha
Publicado a
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A empresa de IA Anthropic impõe-se no setor tecnológico global, atrai investidores que a avaliam em cerca de 800 mil milhões de dólares, mas o que explica este sucesso?

A recente trajetória financeira da Anthropic tem surpreendido os observadores de mercado, com propostas de capital de risco a avaliarem agora a empresa em cerca de 800 mil milhões de dólares (678,3 mil milhões de euros), um valor semelhante ao do seu principal rival, a OpenAI.

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De acordo com várias informações, a avaliação da empresa no mercado privado mais do que duplicou em poucos meses, sustentada por um ritmo anual de receitas que terá subido para cerca de 30 mil milhões de dólares (25,4 mil milhões de euros).

À medida que a empresa de IA com sede em São Francisco se prepara para uma eventual oferta pública inicial (IPO), apontada para já no próximo outono, a Anthropic encontra-se no centro de um debate em toda a indústria sobre o equilíbrio entre crescimento rápido e expansão responsável.

O modelo mais recente da empresa, o Mythos, tornou-se o epicentro desta tensão, já que as suas capacidades suscitam elogios pela eficiência, mas também alertas de dirigentes de topo sobre riscos de segurança.

Numa rara convergência de supervisão financeira e segurança nacional, o secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, e o presidente da Reserva Federal, Jerome Powell, terão convocado na semana passada, em Washington, uma reunião de urgência e à porta fechada com os presidentes executivos dos principais bancos do país.

A cimeira, organizada com pouca antecedência, teve como objetivo alertar a liderança de Wall Street para os profundos riscos sistémicos associados ao novo modelo Mythos da Anthropic.

Mesmo antes do Mythos, a empresa já se encontrava numa posição delicada nas relações com o Estado, ao resistir a que o Departamento de Guerra dos EUA utilizasse os seus modelos para fins militares ofensivos.

Esta posição custou à empresa contratos lucrativos com o Pentágono, mas não impediu a Anthropic de continuar a expandir o negócio com sucesso.

Mudança da investigação para os processos empresariais

A força motriz por detrás destes 800 mil milhões de dólares é uma mudança fundamental na forma como a Anthropic aborda o mercado.

Se, nos primeiros anos, a empresa se definia por uma filosofia centrada na investigação e na segurança, o crescimento atual é impulsionado por uma adoção agressiva por parte de grandes empresas.

Grandes corporações recorrem cada vez mais aos modelos Claude da Anthropic para automatizar processos internos complexos, uma tendência que tem reforçado de forma significativa os resultados da empresa.

Ao contrário de concorrentes como a OpenAI, que procuram um alcance mais alargado junto dos consumidores, a Anthropic tem procurado tornar-se a infraestrutura de referência para fluxos de trabalho profissionais e técnicos.

Em declarações à Euronews, Ben Barringer, responsável pela análise de tecnologia na gestora Quilter Cheviot, considera que este enfoque específico explica por que o mercado aceita pagar prémios tão elevados para avaliar a Anthropic.

“A Anthropic distingue-se da OpenAI porque procura vender sobretudo a empresas e menos ao consumidor final, pelo que os modelos de negócio são muito diferentes”, sublinhou Barringer.

ARQUIVO. Dario Amodei, presidente executivo da Anthropic, no Fórum Económico Mundial em Davos, Suíça, 23 jan. 2025
ARQUIVO. Dario Amodei, presidente executivo da Anthropic, no Fórum Económico Mundial em Davos, Suíça, 23 jan. 2025 AP Photo/Markus Schreiber

De certa forma, é possível traçar um paralelo entre a Anthropic de hoje e a Microsoft do século passado, quando surgiam as primeiras empresas de software, já que ambas se concentram em aplicações para empresas.

A Anthropic quer que os seus modelos de IA sejam tão utilizados pelas empresas, e tão difíceis de substituir como a atual suite Microsoft Office é para muitas organizações. Esta estratégia parece proteger a empresa da volatilidade e da concorrência acrescida que se costuma observar em tecnologias mais voltadas para o consumidor.

Barringer enfatizou ainda à Euronews que a avaliação “se deve sobretudo ao conjunto de produtos, e não tanto aos valores que a empresa procura transmitir”, salientando que a proliferação de agentes de IA abriu um caminho claro para receitas sustentáveis.

Ao introduzir tarifas de utilização para os seus clientes empresariais mais intensivos, a empresa mostrou ter uma capacidade clara de rentabilizar a sua propriedade intelectual mais avançada.

Mythos e o paradoxo da segurança

Embora os indicadores financeiros sejam sólidos, as capacidades tecnológicas do novo modelo Mythos trouxeram novas complexidades.

O Mythos é apresentado como um avanço significativo no raciocínio autónomo, mas o seu poder levantou alarmes no setor financeiro.

Jamie Dimon, presidente executivo do JPMorgan Chase, manifestou preocupação com o potencial uso indevido de sistemas tão avançados, sugerindo que as capacidades do Mythos, em particular na identificação de vulnerabilidades de software, poderão ser usadas para desencadear ciberataques sofisticados contra a infraestrutura bancária global.

Este “paradoxo da segurança” está no centro do dilema atual da Anthropic.

Segundo relatos, o modelo é tão eficaz a detetar falhas em código que se torna uma ferramenta transformadora para a cibersegurança, mas, nas mãos erradas, essas mesmas funcionalidades podem ter efeitos catastróficos.

Isto levou a empresa a implementar controlos de acesso rigorosos, uma decisão alinhada com a sua imagem de prioridade à segurança, mas que complica a relação com vários intervenientes.

Na prática, a empresa tenta vender a sua ferramenta mais poderosa ao mesmo tempo que restringe a forma como pode ser utilizada, uma estratégia que deverá ser alvo de intenso escrutínio durante um futuro roadshow de IPO (OPA em português).

Gerir relações com o Pentágono e o mercado bolsista

A posição ética da Anthropic também levou a um impasse com o Departamento de Guerra dos EUA.

Relatos indicam que a empresa tem resistido à pressão para permitir que os seus modelos mais avançados sejam usados em operações militares ofensivas, invocando as suas linhas orientadoras de “IA Constitucional”.

Esta postura criou uma dinâmica invulgar: a empresa é, provavelmente, a startup de IA mais valiosa do mundo, mas está em rota de colisão com um dos maiores clientes potenciais do planeta, o Pentágono.

Este atrito sublinha o compromisso da empresa com os princípios que estiveram na origem da sua criação, mesmo à custa de contratos governamentais muito lucrativos.

Ainda assim, este aparente conflito não parece ter reduzido o entusiasmo dos investidores pela anunciada ida a bolsa.

O mercado atravessa atualmente uma vaga de dinamismo, com outros grandes nomes, como a SpaceX, também a ponderarem aberturas de capital.

Barringer observou que a Anthropic poderá querer “aproveitar o momento favorável” num campo já preenchido por ofertas de alto perfil.

Uma IPO (OPA em português) daria à empresa o capital necessário para cobrir os elevados custos de treino da geração atual e futura de modelos de IA.

À medida que a empresa se aproxima do último trimestre de 2026, permanece a dúvida sobre se conseguirá responder às exigências constantes de crescimento dos acionistas em bolsa e, ao mesmo tempo, manter os rigorosos limites de segurança que definem a sua identidade corporativa.

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