A região onde se trabalha continua a pesar no salário, nas horas de trabalho e até nas hipóteses de chegar à liderança. A conclusão é da mais recente análise da Randstad Research, divulgada no âmbito do Dia do Trabalhador.
A mais recente análise da Randstad Research, divulgada no âmbito do Dia do Trabalhador, revela que Portugal é ainda um país marcado por grandes assimetrias regionais no que diz respeito ao trabalho.
Segundo o estudo, baseado em dados oficiais do Inquérito ao Emprego (IE) e do Instituto Nacional de Estatística (INE), referentes ao ano de 2025, a qualificação da população ativa está ainda muito dispersa pelo território, sendo em Lisboa que se concentra a maior parte dos trabalhadores com ensino superior.
Por ser a região que concentra a maior parte do talento altamente qualificado, a capital consegue desenvolver setores de elevado valor acrescentado, como tecnologia da informação, engenharia, saúde/biotecnologia, consultoria e indústrias criativas.
O Alentejo e o Algarve destacam-se no ensino secundário e pós-secundário (38,3% e 37,0%, respetivamente), o que sugere um mercado de trabalho focado em funções técnicas intermédias.
Nas Regiões Autónomas prevalecem os níveis de escolaridade baixos (básico 1º, 2º e 3º ciclos) o que também ajuda a explicar depois o facto de terem os salários mais baixos, pois as funções operacionais desempenhadas são as menos remuneradas.
Esta desigualdade de níveis de escolaridade, fortemente marcada pelo território, torna-se ainda mais evidente quando se analisam os salários.
Lisboa é a única região onde o salário médio líquido ultrapassa os 1.400 euros mensais, fixando-se nos 1.469 euros, enquanto no Algarve esse valor desce para 1.177, menos 292 euros.
As remunerações declaradas mostram que trabalhar em Lisboa pode significar receber mais 525 euros por mês do que em regiões como o Baixo Alentejo, com a capital a aproximar-se dos 1.800 euros e o interior do país a manter-se abaixo dos 1.300, o que, na prática, "equivale a quase mais três salários por ano", pode ler-se no estudo da Randstad.
Os valores mais elevados dos salários podem estar associados a mais horas de trabalho, uma vez que se verificou que os trabalhadores em Lisboa são os que mais ultrapassam as 40 horas semanais, representando 21,5% do total, dados os cargos de responsabilidade que assumem.
No Norte, 59,1% dos trabalhadores cumprem entre 36 e 40 horas, o que se pode explicar pelo facto de o setor predominante ser o industrial. Já nos Açores, Madeira e Alentejo, os trabalhadores fazem jornadas entre 31 e 35 horas semanais, muitas vezes associadas ao setor público ou a funções menos intensas.
“Os dados mostram que o mercado de trabalho em Portugal continua condicionado pela geografia, não apenas em termos de salário, mas também no acesso a funções de decisão e progressão profissional", afirma Isabel Roseiro, diretora de Marketing da Randstad Portugal, citada no comunicado enviado pela empresa.
O desafio é estrutural e, para Isabel Roseiro, "exige uma visão integrada entre os diversos agentes do mercado e as estratégias empresariais, no sentido de promover a coesão territorial e oportunidades mais equitativas em todo o país.”
A norte, a indústria impera; a sul, depende-se do turismo
Uma das razões para as disparidades salariais pode também ser explicada pela divisão clara das atividades económicas no país.
No Norte e no Centro, a atividade dominante é a indústria; no Sul e nas Ilhas, verifica-se uma maior dependência da sazonalidade turística; na Área Metropolitana de Lisboa concentram-se os serviços especializados e o comércio; e, no Alentejo, o emprego depende sobretudo do setor público para se manter estável.
A análise da Randstad mostra que as indústrias transformadoras (15,9%), o comércio (14,6%), a saúde (10,1%), a educação (8%) e a construção (7,1%) compõem o "top 5" nacional.
Taxas de desemprego
O estudo da Randstad Portugal analisa também as taxas de desemprego, que registam diferenças consoante as regiões.
No total, 36,8% da população desempregada em Portugal encontra-se em situação de longa duração.
Apesar de Setúbal apresentar a maior taxa de desemprego (8%), é no Norte e no Alentejo que o desemprego de longa duração tem maior expressão (41,7% e 43,5%, respetivamente).
O Algarve e o Centro têm os mercados mais dinâmicos, segundo a análise. O Algarve, ainda que dependente de emprego sazonal, apresenta uma taxa de desemprego de longa duração baixa, enquanto a taxa de desemprego global é de 5,6%.
O Centro do país, também muito marcado pela indústria, tem uma das taxas de desemprego mais baixas (5%), sendo que a taxa de longa duração também se encontra abaixo da média nacional (30,8%).