Empresas chinesas dominam setores europeus: de painéis solares a terras raras e robôs industriais, tornam-se fornecedor quase único, aumentando receios de novo "choque chinês".
A dependência europeia de bens chineses ficou tão enraizada em certos setores que praticamente deixaram de existir alternativas credíveis.
A pressão aumentou em 2025, quando Washington impôs tarifas abrangentes às exportações chinesas, alimentando receios de que Pequim desviasse o excedente de produção para os mercados europeus a preços muito reduzidos.
A presidente da Comissão, Ursula von der Leyen, descreveu a situação como "um novo choque da China" na cimeira do G7 no Canadá, no ano passado, alertando que Pequim estava a inundar os mercados globais com capacidade excedentária subsidiada que os seus próprios consumidores não conseguem absorver.
Na semana passada, o comissário europeu da Indústria, Stéphane Séjourné, apelou também às empresas europeias para diversificarem os seus fornecedores, numa altura em que as tensões comerciais com a China aumentam, com Pequim a multiplicar ameaças em direção à UE, enquanto Bruxelas procura reforçar a legislação para proteger os seus mercados da dependência chinesa.
Segundo o Eurostat, as importações da UE provenientes da China atingiram 559,4 mil milhões de euros em 2025, mais 89% do que em 2015, gerando um défice comercial de 359,8 mil milhões de euros. Só em 2025, as exportações da UE para a China caíram 6,5%, enquanto as importações cresceram 6,4%.
A China é, de longe, a principal origem das importações da UE e o principal fornecedor de produtos de que o bloco depende, respondendo por 47% desta categoria e por cerca de metade do valor total das importações, ou seja, aproximadamente 206 mil milhões de euros em 404 mil milhões.
Os chamados produtos de dependência são componentes e matérias-primas indispensáveis para fabricar um bem final. Por exemplo, a procura de baterias para smartphones depende do número de telemóveis acabados que uma empresa planeia produzir.
Os Estados Unidos são o segundo maior fornecedor destes produtos para a UE, mas representam menos de 10% da categoria e apenas 11% do valor total das importações, de acordo com a mais recente análise do Centre for Economic Policy Research (CEPR), divulgada este mês.
Cruzando estes dados com outros indicadores de dependência estratégica mais ampla, emergem cinco setores em que a exposição da UE a Pequim é estrutural: energia solar, matérias-primas críticas, robótica industrial, químicos e ainda têxteis e produtos de madeira.
A Euronews traçou um retrato de algumas das razões que explicam a dependência extraordinária da UE em relação à China em cada um destes setores.
China: transição verde da Europa faz-se em Pequim
Entre todas as dependências de Bruxelas face a Pequim, a que está mais profundamente entranhada na agenda verde europeia é, provavelmente, a mais determinante.
De acordo com o Eurostat, a China foi responsável por 98% de todas as importações de painéis solares da UE em 2024. O valor total dessas importações caiu de 19,7 mil milhões de euros em 2023 para 10,9 mil milhões em 2024, não porque os volumes tenham diminuído, mas porque os preços chineses desabaram.
Os números completos das importações de painéis solares no ano passado ainda não foram divulgados.
Um relatório publicado este ano pelo think tank Loom indica também que a China forneceu 88% das baterias de iões de lítio importadas pela UE para veículos elétricos em 2025, contra 75% em 2019.
A vulnerabilidade vai muito além dos produtos acabados.
O serviço de estudos do Parlamento Europeu concluiu que a UE obtém 98% dos seus ímans de terras raras na China, incluindo materiais essenciais para motores de veículos elétricos, turbinas eólicas e sistemas de defesa.
Dados da Comissão Europeia apontam ainda para uma dependência de 97% em relação a Pequim no caso do magnésio. O mineral é essencial para baterias de nova geração que surgem como alternativa às tecnologias de iões de lítio, além de ser utilizado no armazenamento de hidrogénio e em infraestruturas leves de energias renováveis.
Devido a esta dependência extrema de um único país, a Comissão Europeia incluiu o magnésio na lista de Matérias-Primas Críticas do bloco, para acelerar iniciativas de extração, processamento e reciclagem dentro da União.
Por fim, empresas chinesas controlam mais de 80% da capacidade mundial de fabrico de tecnologia solar fotovoltaica, desde a produção de polisilício até aos módulos finais, segundo um relatório da Geopolitical Intelligence Services.
Em suma, a transição verde europeia assenta em bases que a Europa não controla.
Disparo dos robôs industriais
A robótica industrial conta uma história não apenas de dependência, mas de deslocação acelerada.
Entre o início de 2025 e o início de 2026, as importações de robôs industriais chineses pela UE aumentaram 315%, enquanto os preços médios caíram 29%, segundo dados divulgados pela equipa de vigilância às importações da Comissão Europeia.
A predominância chinesa neste setor não é fruto do acaso.
A estratégia industrial "Made in China 2025", sustentada por subsídios estatais, crédito barato e incentivos fiscais, permitiu que o setor de robótica avançada do país triplicasse o número de empresas desde 2020.
O excesso de produção interna levou os fabricantes chineses a exportar de forma agressiva, a preços que os concorrentes europeus não conseguem acompanhar.
De acordo com a Federação Internacional de Robótica, a China produz hoje mais robôs industriais do que a Alemanha, a Coreia do Sul, o Japão e os Estados Unidos juntos.
Químicos, têxteis e madeira: velhas dependências, novas vulnerabilidades
No setor químico, os dados de vigilância da Comissão Europeia mostraram que determinados compostos químicos começaram a ser importados da China a um ritmo 36 vezes superior ao do ano anterior, com preços até 95% mais baixos.
Em março de 2025, a Comissão lançou uma monitorização específica de certos químicos à base de etileno e amoníaco, citando a capacidade excedentária na China e a forte subida da quota desses produtos no mercado europeu.
Os têxteis e os produtos de madeira contam uma história semelhante.
As importações de vestuário e calçado provenientes da China continuam a representar uma fatia importante da oferta não europeia da UE, mesmo com parte da produção a deslocar-se para concorrentes de baixo custo no Sudeste Asiático, como o Vietname.
Segundo o Eurostat, a China fornece cerca de 30% a 35% do valor total das importações extra-europeias de vestuário e calçado da União Europeia.
Os produtos de madeira tornaram-se um novo foco de tensão, à medida que as importações de pavimento em parquet montado provenientes da China aumentaram mais de dez vezes em apenas um ano, com os preços a caírem 77%.
A situação levou a Comissão a impor, em julho de 2025, direitos entre 21,3% e 36,1% para proteger um setor que emprega mais de 10 mil pessoas e vale 1,3 mil milhões de euros.
O papel decorativo seguiu-se em agosto de 2025, quando foram aplicados direitos entre 26,4% e 26,9% para salvaguardar mais de 2 mil postos de trabalho europeus.
Em todos os cinco setores, a resposta da Comissão tem sido sobretudo reativa, com tarifas impostas depois de o impacto já se ter materializado.
A grande questão é saber se a Europa mantém ainda a capacidade industrial, e a vontade política, para criar alternativas reais antes de a dependência se tornar irreversível e, portanto, num instrumento que Pequim possa usar livremente.