De um videojogo vendido por 500 dólares na adolescência a um império que abrange foguetões, carros elétricos, IA e chips cerebrais, Elon Musk passou décadas a criar empresas que mudaram indústrias. Eis um olhar sobre as empresas por trás do homem mais rico do mundo
Apelidado pela imprensa de "Tony Stark da vida real", Elon Musk passou décadas a construir empresas destinadas a abalar indústrias estabelecidas. Mais do que uma vez, esses projetos estiveram à beira da falência antes de se tornarem algumas das empresas mais valiosas do mundo.
Carros elétricos. Implantes cerebrais. Túneis subterrâneos. Uma plataforma de redes sociais antes conhecida como Twitter. E uma fabricante de foguetões que começou a ser cotada em Wall Street esta semana.
Com o tempo, cada vez mais destes negócios ficaram reunidos sob o mesmo grupo.
Hoje, Musk, o homem mais rico do mundo e a primeira pessoa a acumular uma fortuna de um bilião de dólares, controla uma vasta rede de empresas.
Segundo a revista Forbes, Musk tornou-se, em outubro de 2025, a primeira pessoa a ultrapassar um património líquido de 500 mil milhões de dólares. O primeiro sucesso comercial rendeu-lhe 500 dólares. A primeira empresa garantiu-lhe um encaixe de 22 milhões de dólares e a segunda, de cerca de 176 milhões.
Aos 31 anos, Musk já tinha realizado quase 198 milhões de dólares com empresas que criou e vendeu.
Ainda assim, a esmagadora maioria da fortuna que viria a torná-lo o homem mais rico do mundo não resultou de encaixes em dinheiro. Foi construída mantendo grandes participações acionistas na SpaceX e na Tesla, à medida que as avaliações disparavam.
Segue-se um retrato do vasto império empresarial de Musk.
Primeiros anos
Elon Musk nasceu em Pretória, na África do Sul, em 1971.
O primeiro sucesso comercial surgiu aos 12 anos, quando vendeu o código-fonte de um videojogo chamado Blastar a uma revista de informática por cerca de 500 dólares (430 euros).
A primeira grande aventura empresarial de Musk foi a Zip2, uma empresa de publicação online e diretório de negócios que cofundou com o irmão, Kimbal Musk, em 1995. A empresa ajudava os jornais a colocar na internet listas de negócios locais e mapas, sendo o próprio Musk a escrever grande parte do software.
A Zip2 foi vendida em 1999 por mais de 300 milhões de dólares (260 milhões de euros), rendendo a Musk cerca de 22 milhões de dólares (19 milhões de euros).
Usou esse dinheiro para lançar a X.com, uma start-up de banca online fundada em 1999. A empresa viria mais tarde a integrar o PayPal, adquirido pelo eBay em 2002 por 1,5 mil milhões de dólares (1,3 mil milhões de euros). Musk terá recebido cerca de 176 milhões de dólares (152 milhões de euros) com o negócio.
A venda proporcionou o capital para os projetos que iriam definir a fase seguinte da sua carreira.
Em 2002, Musk fundou a SpaceX, investindo cerca de 100 milhões de dólares (86 milhões de euros) do próprio bolso na empresa de foguetões e assumindo os cargos de presidente executivo e engenheiro-chefe.
Em 2004, juntou-se a uma nova empresa de automóveis elétricos, a Tesla, na qual investiu aproximadamente 80 milhões de dólares (69 milhões de euros). Viria a tornar-se presidente executivo em 2008.
Em 2006, ajudou ainda a lançar a empresa de energia solar SolarCity, ao lado dos primos Lyndon e Peter Rive. A empresa acabaria mais tarde por ser comprada pela Tesla.
SpaceX, empresa avaliada em mais de 2 biliões de dólares
Quando Elon Musk fundou a SpaceX, em 2002, acreditava que a empresa tinha menos de uma hipótese em dez de ter sucesso.
Na altura, o projeto era pouco mais do que uma tentativa de entrar num setor dominado por agências governamentais e grandes empresas aeroespaciais. Musk recordaria mais tarde que avisou amigos e investidores de que o fracasso era o desfecho mais provável.
Mais de duas décadas depois, a empresa tornou-se num dos negócios mais valiosos do mundo. A estreia em bolsa, este mês, foi a maior oferta pública inicial de sempre, avaliando a empresa em cerca de 1,75 biliões de dólares (1,5 biliões de euros). Ao fim de apenas alguns dias de negociação, a capitalização bolsista ultrapassou confortavelmente os 2 biliões de dólares, atingindo 2,43 biliões de dólares (2,1 biliões de euros) na sexta-feira.
Entretanto, a principal empresa de Musk expandiu-se muito para lá dos foguetões.
Detém a fornecedora de internet por satélite Starlink, que no ano passado gerou 4,4 mil milhões de dólares (3,8 mil milhões de euros) de resultado operacional. A SpaceX está também no centro das crescentes ambições de Musk na inteligência artificial, através das ligações à xAI e à plataforma de redes sociais X.
Nem todos esses negócios são lucrativos. A xAI registou prejuízos operacionais de 6,4 mil milhões de dólares (5,5 mil milhões de euros) no ano passado, enquanto a própria SpaceX contabilizou um prejuízo operacional total de 2,6 mil milhões de dólares (2,2 mil milhões de euros).
Os defensores da empresa sustentam que a avaliação espelha a liderança em tecnologia espacial, comunicações por satélite e inteligência artificial. Os críticos, pelo contrário, afirmam que grande parte desse valor assenta em metas ambiciosas de longo prazo, incluindo planos para centros de dados em órbita e a eventual colonização de Marte.
Tesla: aposta na condução autónoma e na robótica
Musk lidera a Tesla desde 2008, tendo acompanhado a evolução de fabricante de veículos elétricos de nicho para uma das empresas mais valiosas do mundo.
Nos últimos anos, a empresa enfrentou uma concorrência crescente. Em 2024, a Tesla perdeu para a chinesa BYD o estatuto de maior fabricante de veículos elétricos do mundo em vendas. As entregas foram ainda afetadas por boicotes de consumidores ligados à atividade política de Musk, embora as vendas tenham entretanto recuperado parcialmente.
Musk tem defendido de forma consistente que o futuro de longo prazo da Tesla vai muito além da venda de automóveis. Tem concentrado a atenção na tecnologia de condução autónoma, com planos para lançar frotas de robotáxis sem condutor.
A empresa está também a expandir-se para a robótica através do programa de robôs humanoides Optimus, que Musk diz poder vir a ser utilizado em casas e locais de trabalho.
Para lá do transporte, a Tesla está presente na energia solar e no armazenamento em baterias desde a aquisição da SolarCity, em 2016. A empresa entrou em bolsa em 2010 e juntou-se mais tarde ao grupo das empresas avaliadas em biliões de dólares. A capitalização bolsista ronda atualmente 1,5 biliões de dólares (1,3 biliões de euros).
Neuralink: ligar cérebros a computadores
Musk é também presidente executivo da Neuralink, uma empresa de interfaces cérebro-computador que cofundou em 2016.
A empresa está a desenvolver tecnologia destinada a ligar diretamente o sistema nervoso humano a computadores. A Neuralink é uma de várias empresas a trabalhar nesta área emergente e já lançou ensaios clínicos com pessoas com lesões na medula espinal, esclerose lateral amiotrófica (ELA) e outras doenças neurológicas.
Nos últimos anos, a empresa anunciou uma série de implantações cerebrais bem-sucedidas. Em janeiro, a Neuralink indicou ter 21 participantes em ensaios clínicos em todo o mundo.
A tecnologia continua numa fase inicial, mas os defensores acreditam que poderá, no futuro, ajudar a recuperar a comunicação e a mobilidade de pessoas com deficiência grave.
The Boring Company: a visão de transporte subterrâneo de Musk
Fundada em 2016, a The Boring Company é a empresa de construção de túneis e transporte subterrâneo de Musk.
A empresa é sobretudo conhecida pelo Vegas Loop, uma rede de túneis sob Las Vegas que utiliza veículos Tesla para transportar passageiros entre diferentes pontos. O primeiro troço abriu junto ao Centro de Convenções de Las Vegas em 2021.
A The Boring Company afirma que a sua tecnologia de escavação de túneis pode ajudar a reduzir os congestionamentos de trânsito e a baixar o custo de projetos de transporte subterrâneo. A empresa apresentou também planos para futuros desenvolvimentos em cidades como o Dubai e Nashville.
Ainda assim, o negócio tem enfrentado críticas. Reguladores e grupos de campanha levantaram preocupações sobre questões ambientais e de segurança associadas a alguns projetos, enquanto partes da rede proposta para Las Vegas continuam em construção.