Os preços das casas dispararam muito acima dos rendimentos locais em grande parte da Europa, colocando Lisboa entre os mercados de habitação menos acessíveis do continente.
Comprar casa é relativamente mais acessível face aos rendimentos locais em Paris e em Londres do que em Lisboa.
Portugal passou anos a promover-se como uma das grandes histórias de sucesso da Europa: sol, segurança, um turismo em forte expansão e uma qualidade de vida invejável. Mas por detrás da imagem de postal esconde-se um dos mercados de habitação mais pressionados do continente.
Uma casa em Lisboa custa hoje cerca de 18,7 vezes o rendimento anual de um agregado típico, segundo os dados mais recentes da plataforma Numbeo.
Entre as grandes cidades europeias, só a cidade costeira croata de Split se lhe compara.
10 cidades com o rácio preço-rendimento mais elevado na Europa
Rácio preço-rendimento é uma das medidas mais usadas para avaliar a acessibilidade da habitação.
Compara o custo de comprar uma casa típica com o rendimento de um agregado médio, mostrando quantos anos de salário são necessários para adquirir um imóvel.
Quanto mais sobe, mais a compra de casa se afasta de quem ganha salários locais.
Como regra prática, um rácio acima de 10 já sinaliza um mercado problemático para quem compra, segundo o economista sénior de habitação do ABN AMRO, Mike Langen. O limiar baseia-se nas regras tradicionais de concessão de crédito à habitação, que limitam os encargos com a casa a cerca de 30% do rendimento do agregado e, em geral, fixam os prazos dos empréstimos em 30 anos.
Face a esse valor de referência, Lisboa e a cidade croata de Split lideram o ranking, ambas com um rácio preço-rendimento de 18,7, quase o dobro do nível considerado problemático.
Seguem-se Praga, Milão e Tirana (18,1), Viena (17,4), Belgrado (17,2), Paris (17,0), Londres (16,0) e Brno (15,8), o que evidencia que a compra de casa se tornou cada vez mais inacessível em muitas das maiores cidades europeias.
Ainda assim, a capital portuguesa é um dos exemplos mais claros de como os preços das casas se podem distanciar do poder de compra local.
A forte divergência entre preços da habitação e salários na última década ajuda a explicar porque é que Lisboa figura hoje entre os mercados de habitação menos acessíveis da Europa.
Portugal: preços das casas sobem 240%, salários crescem 59%
Na última década, os preços das casas em Portugal aumentaram quase 240%, segundo dados da Global Property Guide.
No mesmo período, o salário médio português passou de cerca de 839 euros mensais para 1 333 euros, uma subida de aproximadamente 59%.
Os preços cresceram quatro vezes mais depressa do que os rendimentos. E, em Lisboa, essa diferença poderá ser ainda maior do que a média nacional.
Um apartamento no centro de Lisboa custa cerca de 6 763 euros por metro quadrado. Um apartamento modesto de 50 metros quadrados rondará, assim, os 338 000 euros.
Comparando com um salário líquido médio de cerca de 1 416 euros por mês — cerca de 17 000 euros por ano — isso representa quase 19 anos de rendimentos, antes de se gastar um único euro noutra coisa.
Porque continuam a subir os preços da habitação em Portugal
A explicação mais frequente é simples: faltam casas.
Os alertas já não vêm apenas dos dados de mercado.
No inquérito económico de 2026, a OCDE colocou Portugal entre os países com pior acesso à habitação no mundo desenvolvido, citando barreiras regulatórias, um mercado de arrendamento pouco desenvolvido e uma oferta de casas que responde lentamente à procura.
A instituição sublinhou que os jovens são os mais afetados.
Constroem-se muito menos casas do que as necessárias. Atualmente, concluem-se em Portugal cerca de 25 000 a 30 000 habitações por ano, quando as associações do setor e estimativas públicas apontam para a necessidade de perto de 45 000 a 50 000 por ano para responder à procura.
E apenas cerca de 2% do parque habitacional português é destinado a habitação social, uma das proporções mais baixas da Europa.
Mas os estudos sugerem que a realidade é mais complexa.
No mais recente Housing Market Monitor, o ABN AMRO indicou que o crescimento dos rendimentos e a descida das taxas das hipotecas tiveram historicamente um peso muito maior na valorização das casas na Europa do que o crescimento populacional ou a escassez de construção.
Crise da habitação chega às ruas
A crise da habitação alimentou a maior vaga de protestos sobre o tema em Portugal em décadas. Desde 2023, o movimento Casa para Viver ("Homes to Live In") tem levado dezenas de milhares de pessoas às ruas em todo o país sob o lema "Já não dá" — "Já não funciona".
Os ativistas exigem limites mais rígidos às rendas, mais habitação a preços acessíveis e o aproveitamento de edifícios vazios, defendendo que o acesso à habitação é um direito constitucional.
A crise é talvez mais visível na periferia de Lisboa, onde famílias em bairros informais como o Talude, em Loures, enfrentam despejos apesar de muitos dos seus membros trabalharem a tempo inteiro e, ainda assim, não conseguirem suportar as rendas de mercado.
Para Jaime Luque, membro do Conselho Consultivo para a Habitação da Comissão Europeia, as consequências vão muito além do mercado imobiliário.
Quando professores, enfermeiros, agentes da polícia, jovens profissionais e estudantes deixam de conseguir viver numa cidade, defende, essa cidade começa a perder competitividade económica.
Bolha imobiliária em Portugal está prestes a rebentar?
Apesar da crescente pressão sobre a acessibilidade, poucos economistas antecipam uma queda abrupta dos preços das casas num futuro próximo.
Uma bolha implica que os preços se desligaram dos fundamentais da economia e estão vulneráveis a uma correção acentuada.
No Relatório de Estabilidade Financeira de maio de 2026, o Banco de Portugal alertou que a falta de oferta continua a pressionar os preços em alta, mas atribuiu também aos limites rigorosos ao crédito a contenção do endividamento de risco — habitualmente o gatilho para um colapso no mercado da habitação.
A BPI Research aumentou recentemente a previsão de subida dos preços das casas em Portugal em 2026 para 11,7%.
Portugal continua a beneficiar de uma procura estrutural, de uma oferta relativamente limitada e de um interesse internacional persistente.
Em suma, o mercado da habitação em Portugal pode ser excecionalmente caro sem estar, necessariamente, numa bolha especulativa clássica.
Ainda assim, os indicadores de acessibilidade estão a lançar sinais de alerta.
Um rácio preço-rendimento a aproximar-se de 19, combinado com uma subida dos preços das casas de cerca de 240% numa década, enquanto os salários cresceram apenas 59%, sugere que as avaliações se tornaram cada vez mais difíceis de justificar apenas com os rendimentos internos.
Isso não significa que os preços venham necessariamente a descer.
Mas indica que Lisboa se tornou um dos mercados de habitação menos acessíveis da Europa, com o fosso entre os preços das casas e os rendimentos locais mais largo do que em qualquer outro momento das últimas décadas.