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França: porque é que os mais ricos estão a sair e para onde vão?

Manifestante segura cartaz com a frase “taxemos os ricos” numa ação do movimento “Bloquear Tudo” em Estrasburgo, leste de França, quarta-feira, 10 de setembro de 2025 (AP)
Manifestante segura cartaz com a frase “taxemos os ricos” durante protesto do movimento “Bloquear Tudo” em Estrasburgo, França, a 10 de setembro de 2025. (AP) Direitos de autor  AP Photo
Direitos de autor AP Photo
De Jonathan Benton
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A França perdeu, em termos líquidos, 800 milionários em 2025. Embora representem uma fração mínima dos mais ricos, vários fatores levam-nos a sair.

Estará a França a afastar em massa os seus ricos? O mais recente relatório Henley & Partners sobre migração de riqueza conclui que o país registou, em 2025, uma perda líquida de 800 milionários.

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À primeira vista, poderia parecer que os mais ricos estão a fugir do país. Mas, para contextualizar, continuam a existir em França 2,4 milhões de pessoas com um património líquido superior a 1 milhão de euros, segundo o UBS Global Wealth Report.

Embora a França continue a ser um destino atractivo para os ricos, por razões óbvias como a qualidade de vida e a sua conhecida joie de vivre, a tendência geral, embora ainda modesta, aponta para a saída de alguns dos cidadãos mais abastados – e, mais importante, do seu capital.

No último ano, cada milionário que saiu levou consigo, em média, 5 milhões de euros em activos pessoais, o que se traduz em cerca de 4 mil milhões de euros a abandonar o país, segundo o Instituto francês de Investigação sobre Administração e Política Públicas (iFRAP).

Apesar de o número de milionários que partem representar apenas uma fracção mínima da população rica de França, economistas sublinham que a perda mesmo de um grupo relativamente reduzido de grandes fortunas pode ter um impacto económico desproporcionado, já que muitas vezes são proprietários de empresas, financiam investimentos e geram receitas fiscais significativas.

França: porque estão a sair os residentes mais ricos

Não existe uma única explicação para a saída de alguns dos residentes mais ricos de França.

Um dos factores é a persistente instabilidade política, com seis primeiros-ministros nos últimos cinco anos, sucessivas crises orçamentais e incerteza sobre a forma como os diferentes governos tencionam enfrentar o crescente peso da dívida.

A possibilidade de Marine Le Pen vencer as presidenciais de abril de 2027 acrescenta outra camada de incerteza.

Embora o seu partido, Reunião Nacional, procure tranquilizar empresas e investidores, economistas questionam se as promessas de despesa são compatíveis com finanças públicas já sob pressão e com as regras orçamentais da União Europeia.

Marine Le Pen, líder da extrema-direita, e Jordan Bardella, presidente do partido de extrema-direita Reunião Nacional, chegam para visitar um mercado em La Flèche, oeste de França, 8 de julho de 2026Marine Le Pen, líder da extrema-direita, e Jordan Bardella, presidente do partido de extrema-direita Reunião Nacional, chegam para visitar um mercado em La Flèche, oeste de França, 8 de julho de 2026

Outro factor importante é o reforço das campanhas, a nível nacional e internacional, para aumentar a tributação sobre os mais ricos.

França: o mais recente confronto sobre a tributação dos ultra-ricos

O debate mais recente em França centrou-se na proposta do economista Gabriel Zucman para aplicar um imposto anual de 2% sobre fortunas superiores a 100 milhões de euros.

A proposta incluía ainda uma “exit tax”, concebida para travar a fuga de capitais que minou o ISF. Ao abrigo desta medida, os contribuintes mais ricos que optassem por deixar França continuariam a pagar o imposto durante cinco anos após se instalarem no estrangeiro.

Os defensores sustentavam que o chamado imposto Zucman poderia gerar cerca de 20 mil milhões de euros por ano, afectando apenas cerca de 1 800 agregados familiares. Argumentavam ainda que a concentração de riqueza se acelerou nas últimas décadas e que os lares mais ricos deveriam contribuir com uma fatia maior para o financiamento dos serviços públicos.

A proposta foi aprovada pela Assembleia Nacional no ano passado, mas bloqueada pelo Senado. Acabaria depois por ser rejeitada na própria Assembleia durante o debate do Orçamento para 2026.

Acabou por ser substituída pela Lei das Finanças para 2026, que criou um imposto de 20% sobre activos de luxo, como iates, jactos privados, carros desportivos e joalharia, detidos em sociedades patrimoniais familiares passivas no valor mínimo de 5 milhões de euros, em vez de um imposto geral sobre o património.

Nem todos concordam que tributar o património leve inevitavelmente a uma vaga de partidas. O economista francês Thomas Piketty defende que os riscos de fuga de capitais são frequentemente exagerados e que uma maior cooperação internacional poderia tornar os impostos sobre a riqueza muito mais eficazes.

Piketty sustenta que o aumento das desigualdades de riqueza foi alimentado por décadas de cortes fiscais para os lares mais ricos e argumenta que impostos sobre o património cuidadosamente desenhados poderiam reduzir essas desigualdades sem prejudicar de forma significativa o investimento.

Os críticos contrapõem que França já testou muitas destas ideias. Insistem que mesmo um número relativamente reduzido de empreendedores e investidores que abandonam o país pode ter um efeito desproporcionado no crescimento económico, dado que detêm empresas, financiam novos projectos e criam emprego.

França: longa tradição de impostos sobre o património

Em 1982, o presidente François Mitterrand introduziu o Imposto de Solidariedade sobre a Fortuna (ISF), que incidia sobre o património líquido das grandes fortunas. Segundo a Comissão Europeia, ao longo da sua vigência o imposto rendeu 63,5 mil milhões de euros e, no último ano de aplicação, em 2017, arrecadou cerca de 4,1 mil milhões.

Contudo, terá também provocado uma fuga de capitais estimada em 200 mil milhões de euros e reduzido o crescimento anual do PIB em cerca de 0,2%, de acordo com o economista francês Eric Pichet.

Em 2017, o presidente Emmanuel Macron aboliu o ISF e substituiu-o pelo Imposto sobre a Fortuna Imobiliária (IFI), um imposto anual aplicado a contribuintes cujo património imobiliário líquido, não afecto a actividades empresariais, exceda 1,3 milhões de euros.

Segundo o governo francês, este imposto gera actualmente cerca de 1,1 mil milhões de euros por ano.

Houve ainda a chamada “super taxa” de François Hollande, uma taxa marginal de 75% sobre rendimentos anuais superiores a 1 milhão de euros, pensada para obrigar os mais ricos a ajudar a tirar o país da crise económica.

No entanto, o Conselho Constitucional, a mais alta instância judicial de França, derrubou a versão original no final de 2012, ao considerar injusto tributar indivíduos a uma taxa tão elevada.

O antigo presidente francês François Hollande chega a uma missa em memória de Bernadette Chirac, viúva do ex-presidente Jacques Chirac, Paris, 12 de junho de 2026O antigo presidente francês François Hollande chega a uma missa em memória de Bernadette Chirac, viúva do ex-presidente Jacques Chirac, Paris, 12 de junho de 2026

O governo de Hollande ajustou o imposto no Orçamento de 2014, transferindo o encargo do indivíduo para a empresa e obrigando os empregadores a pagar uma taxa de 50% sobre a parte dos salários que excedesse 1 milhão de euros.

Acabou por caducar em 2015, depois de arrecadar menos receitas do que o previsto: apenas 160 milhões de euros em 2013 e 260 milhões em 2014.

Nessa altura, o homem mais rico de França, Bernard Arnault, director-executivo do grupo LVMH, pediu a nacionalidade belga e o actor Gérard Depardieu também se mudou para a Bélgica antes de obter cidadania russa.

A maioria dos contribuintes franceses desaprovava a taxa de 75%, embora as sondagens mostrassem que seis em cada dez eleitores eram favoráveis a aumentar o imposto sobre o rendimento dos mais ricos.

Para onde vão os ricos?

Muitos países posicionaram-se activamente para atrair migrantes abastados. Os Emirados Árabes Unidos continuam a ser um dos principais beneficiários a nível mundial, graças à inexistência de imposto sobre o rendimento das pessoas singulares.

Na Europa, a Itália tornou-se um dos grandes vencedores depois de o governo de Giorgia Meloni ter introduzido um regime de imposto único de 15% para determinados residentes estrangeiros.

Neste regime, os beneficiários podem pagar um montante anual fixo sobre os rendimentos obtidos no estrangeiro, independentemente do valor, o que torna o país muito atractivo para empresários e investidores com activos internacionais.

A Suíça há muito que atrai grandes fortunas através de regimes fiscais favoráveis para alguns residentes estrangeiros, enquanto o Mónaco permanece um destino popular para a ultra-riqueza europeia, graças à ausência de imposto sobre o rendimento.

Portugal também atraiu milhares de contribuintes ricos com o regime fiscal dos Residentes Não Habituais, embora reformas recentes o tenham tornado menos generoso do que no passado.

No fim de contas, a perda líquida de 800 milionários representa apenas uma fracção mínima da população rica de França. Mas reflecte uma questão mais ampla que se coloca aos governos em toda a Europa: como aumentar a receita fiscal e combater as desigualdades sem incentivar a saída de investimento e de capitais para outras paragens.

À medida que pessoas e capitais se tornam cada vez mais móveis, esse equilíbrio torna-se mais difícil de alcançar.

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