A taxa de desemprego em julho recuou ligeiramente para 4,1%, face aos 4,2% registados em junho, à medida que mais americanos abandonam o mercado de trabalho
Empregadores norte-americanos eliminaram de forma inesperada 23 000 postos de trabalho no mês passado, e as revisões do Departamento de Estatísticas Laborais retiraram mais 103 000 empregos das folhas salariais de maio e junho. O resultado contrasta de forma vincada com as expectativas dos analistas, que apontavam para um aumento de quase 100 000 empregos em julho.
Ainda assim, a taxa de desemprego recuou ligeiramente para 4,1 % em julho, face a 4,2 % em junho, sobretudo porque mais pessoas abandonaram o mercado de trabalho.
Os números de julho divulgados na sexta-feira pelo Departamento de Estatísticas Laborais marcaram uma inversão acentuada no mercado de trabalho interno e representam um revés político para o Presidente Donald Trump, a menos de três meses de o seu Partido Republicano tentar manter o controlo total do Congresso nas eleições intercalares.
As escolas públicas locais cortaram 50 000 postos de trabalho no mês passado, enquanto restaurantes e bares eliminaram 26 000 e o comércio a retalho mais 19 000.
A taxa de desemprego de julho foi a mais baixa desde junho de 2025, com 264 000 pessoas a saírem do mercado de trabalho. A proporção da população a trabalhar ou à procura de emprego desceu para 61,4 %, o valor mais baixo desde fevereiro de 2021.
A administração Trump, que impôs tarifas elevadas na tentativa de criar empregos na indústria transformadora, salientou que o número de postos de trabalho aumentou em 22 000 na construção e em 5 000 nas fábricas.
“O ressurgimento industrial de Trump está a decorrer como previsto. Os empregos na indústria transformadora e na construção de fábricas voltaram a crescer em julho, mesmo com as folhas salariais do setor público a encolherem de forma significativa”, declarou o porta-voz da Casa Branca, Kush Desai.
A contratação tinha vindo a recuperar este ano, depois de um morno 2025, apesar do conflito no Golfo Pérsico, que fez disparar os preços da energia e pressionou os orçamentos familiares. A criação de emprego vinha a ser sólida, ainda que pouco impressionante. Algumas empresas têm dificuldades em preencher vagas, enquanto outras recorrem à tecnologia para substituir o trabalho humano.
Estados Unidos: ascensão da economia ‘sem contratar nem despedir’
Os americanos que têm emprego beneficiam de uma segurança laboral invulgar. Os despedimentos estão em níveis historicamente baixos. Tal deve-se sobretudo à relutância das empresas em arriscar perder o pessoal de que dispõem, depois das inesperadas faltas de mão de obra registadas após a pandemia.
Já os americanos que perderam o emprego, ou tentam entrar pela primeira vez no mercado de trabalho, têm dificuldade em encontrar oportunidades.
Os economistas passaram a utilizar a expressão “no hire, no fire” para descrever estas condições atípicas no mercado de trabalho.
Desde o início do ano, os empregadores criam em média 61 000 postos de trabalho por mês, acima dos 9 700 registados em 2025, o valor mais fraco fora de uma recessão desde 2002.
Os Estados Unidos já não precisam de criar tantos empregos como antes para impedir que a taxa de desemprego aumente.
O aperto na política migratória de Trump e a reforma contínua da geração do baby boom traduzem-se em menos pessoas a competir por trabalho. Assim, a taxa mensal de criação de emprego necessária para manter o desemprego estável, que era de 155 000 entre 2023 e 2024, terá caído, talvez para perto de zero, de acordo com um estudo da Reserva Federal. (fonte em inglês)
“Simplesmente há menos pessoas disponíveis para contratar”, afirmou Sal Guatieri, economista sénior da BMO Capital Markets. Para alguns trabalhadores, a escassez de mão de obra traduz-se em salários mais elevados.
A empresa de processamento salarial ADP informou na quarta-feira que as pessoas que mudaram de emprego no mês passado receberam um aumento de 7 %, o maior ganho homólogo em quase um ano e superior aos 4,4 % obtidos pelos trabalhadores que permaneceram nos mesmos postos.
Ao mesmo tempo, as empresas tornaram-se mais produtivas nos últimos anos, recorrendo à tecnologia para fazer o trabalho que antes era realizado por pessoas. “Estamos a ver empresas a produzir mais com o pessoal que já têm”, afirmou Guatieri. “Por isso, há menos necessidade de contratar novos trabalhadores.”
A falta de trabalhadores disponíveis e o aumento da produtividade, acrescentou, “vão conter o ritmo de contratação e o crescimento mensal do emprego”.
Além disso, as perspetivas de contratação são ensombradas pelos combates em curso no Golfo Pérsico, que fizeram subir os preços da energia e apertaram os orçamentos das famílias, e pela ascensão da inteligência artificial, que tanto pode tornar os trabalhadores mais eficientes e melhor remunerados como vir a substituí-los.
Num relatório publicado esta semana, as investigadoras Ingrid Chen, Marianna Kudlyak e Riva Mikhlin, do Banco da Reserva Federal de São Francisco, concluíram que conseguir um emprego se tornou mais difícil (fonte em inglês) nos últimos dois anos, e de forma surpreendente.
Normalmente, numa fase tão adiantada de uma expansão económica (já lá vão mais de seis anos desde a última recessão), os empregadores precisariam tanto de trabalhadores que arriscariam contratar jovens e pessoas com menos qualificações. Desta vez não é assim.
“Em vez de serem integrados, o fluxo de entrada no emprego está a encolher de tal forma que a recuperação já não chega aos trabalhadores mais vulneráveis”, escrevem Chen, Kudlyak e Mikhlin.
Além disso, os desempregados que habitualmente regressam mais depressa ao mercado de trabalho – pessoas em idade ativa, entre os 25 e os 54 anos, e com formação universitária – estão a ter dificuldades em encontrar novos empregos.
As investigadoras da Reserva Federal de São Francisco não sabem ao certo o que está a tornar a procura de emprego tão difícil.
Suspeitam que possa estar ligado ao aperto na imigração, à desaceleração das contratações em empresas tecnológicas e em prestadores de serviços ao Estado, à incerteza sobre o rumo das políticas governamentais ou a “sinais precoces de uma deterioração mais ampla do mercado de trabalho”.