Na quarta-feira, a Chevron anunciou um acordo de expansão de 7 mil milhões de dólares para as suas operações na Venezuela, poucas horas depois de o parlamento do país aprovar a entrega a Washington do controlo de um quinto das reservas de petróleo.
A segunda maior petrolífera norte-americana anunciou que vai desenvolver dois campos adicionais no Cinturão do Orinoco, na Venezuela, mais do que duplicando a produção em cinco anos, num negócio avaliado em 7 mil milhões de dólares.
A parceria entre a Chevron e a Petroindependencia, na qual a Chevron detém 49%, vai desenvolver dois projetos de raiz junto a campos já em operação e elevar a produção para cerca de 600 mil barris por dia, segundo um comunicado da empresa.
Chris Wright, secretário da Energia dos Estados Unidos, chegou à Venezuela na noite de terça-feira para anunciar novos investimentos, com a Chevron a tornar-se a primeira empresa a avançar após o acordo acabado de ser aprovado pela Assembleia Nacional venezuelana.
A Chevron é o único grande produtor norte-americano que permaneceu na Venezuela desde que Hugo Chávez concluiu, em 2007, a nacionalização do setor, medida que levou a Exxon e a ConocoPhillips a abandonarem o país.
Depois de aterrar em Caracas, Wright falou de imediato com os jornalistas e afirmou que “quando grandes investimentos entram neste país, criam-se mais empregos, aumenta a pressão salarial e abrem-se oportunidades para a prosperidade dos venezuelanos”.
Votação e disputa sobre as cláusulas do acordo
O anúncio surge acompanhado de um prémio muito maior: um acordo separado que dá a Washington controlo sobre um quinto do petróleo da Venezuela, através de um operador completamente diferente.
Deputados venezuelanos aprovaram o acordo por votação de braço no ar na noite de terça-feira, embora alguns membros da oposição se tenham abstido, alegando que não conheceram os termos.
“Temos necessidade e obrigação de saber o que está escrito nas cláusulas mais pequenas”, afirmou o deputado da oposição Luis Emilio Rondón.
“Quem beneficia deste petróleo se ficar debaixo da terra?”, questionou em resposta o presidente da Assembleia Nacional, Jorge Rodríguez.
Numa entrevista em espanhol divulgada online na terça-feira, o secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, descreveu o acordo em termos diretos.
“Essencialmente, trata-se agora de um acordo com o governo dos Estados Unidos, envolvendo especificamente o Departamento de Defesa, que dispõe de uma conta especial que lhe permite tomar posse de uma certa percentagem destes ativos”, disse Rubio, acrescentando que o apoio norte-americano ajudará a empresa a captar o investimento privado necessário para desenvolver os campos.
Rubio salientou que a “grande maioria” dos 17 campos esteve em mãos chinesas e russas, numa altura em que a Casa Branca tem apresentado o acordo como uma reafirmação da Doutrina Monroe.
Os campos são concessionados por 100 anos à North American Blue Energy Partners e albergam 65 mil milhões de barris. Vai ser criada uma nova empresa, na qual o Gabinete de Capital Estratégico do Departamento de Guerra dos Estados Unidos ficará com 35% do capital, enquanto o Departamento de Estado terá direito a comprar 20% da produção ao custo de produção.
Cidadãos norte-americanos terão de constituir a maioria do conselho de administração e Washington terá poder de veto sobre as nomeações.
A NABEP pertence a Alejandro Betancourt, alvo de investigações por alegada lavagem de dinheiro em Espanha e na Suíça, sem que tenham sido apresentadas acusações, e acusado de envolvimento num esquema de corrupção na petrolífera estatal PDVSA.
Um responsável norte-americano, sem se identificar, descreveu-o como um “operador comprovado”, admitindo que a geopolítica implica por vezes lidar com figuras imperfeitas.
“Não estou a propor ninguém para santo”, afirmou o responsável. “O que digo é que se trata de uma pessoa que, no passado, foi útil ao governo dos Estados Unidos.”
Questões que o acordo deixa em aberto
Analistas mantêm cepticismo quanto a uma recuperação rápida da produção, com estimativas entre um e dez anos até que novos barris cheguem ao mercado. Segundo responsáveis, Washington não investe dinheiro diretamente no projeto, argumentando que o seu aval será suficiente para atrair o capital necessário.
Donald Trump sugeriu na segunda-feira que outras empresas seguirão a Chevron.
“Temos a Exxon a entrar, temos a Chevron a entrar. Temos as nossas grandes petrolíferas a entrar”, afirmou Trump.
A posição da Exxon, porém, parece inalterada: um porta-voz afirmou na terça-feira que “nada mudou”, depois de o presidente-executivo Darren Woods ter classificado a Venezuela como “um país onde não se pode investir” no início deste ano.
Para a administração norte-americana, a urgência é interna.
Donald Trump reuniu-se na terça-feira, na Casa Branca, com dirigentes das petrolíferas, numa altura em que o preço da gasolina sobe devido a novos ataques dos EUA contra alvos iranianos perto do estreito de Ormuz, escrevendo depois que “estamos a libertar o domínio energético dos Estados Unidos!”
Combustível mais barato é prioridade antes das intercalares de novembro, em que os republicanos podem perder o controlo da Câmara dos Representantes e do Senado.