Apenas alguns países da UE cumpriram o prazo da Diretiva da Transparência Salarial. Dados da Indeed sugerem mudanças na percentagem de ofertas de emprego com salário indicado.
Uma maioria significativa de europeus não sabe quanto vai ganhar quando se candidata a um emprego, porque o anúncio não inclui informação sobre o salário. Os candidatos dedicam bastante tempo e esforço à candidatura, incluindo a participação em entrevistas. Em alguns casos, ainda têm de fazer testes práticos de competências.
Mesmo assim, muitas vezes só ficam a saber o salário quando são escolhidos para o lugar. E podem ter pouca noção do que ganham as outras pessoas no mesmo local de trabalho.
Situação que pode levar a discriminação salarial e a um alargamento da diferença remuneratória entre homens e mulheres, segundo a Comissão Europeia. Para responder a estes problemas, a UE aprovou a Diretiva sobre transparência salarial. O prazo para transpor a diretiva terminou em 7 de junho deste ano. A maioria dos países da UE não cumpriu.
Itália é o único país entre as grandes economias europeias que já a transpôs. O resultado é evidente, segundo a plataforma global de recrutamento Indeed. A percentagem de ofertas de emprego com indicação de salário em Itália passou de 26 % em julho de 2025 para 61 % em julho deste ano.
Itália tem agora a maior proporção de anúncios com informação salarial entre as cinco maiores economias europeias.
“Itália está a afirmar-se como líder em transparência salarial entre as grandes economias europeias e os dados sugerem que a regulamentação está a fazer uma diferença real”, disse à Euronews Business Pawel Adrjan, diretor de investigação económica da Indeed.
De acordo com um artigo da PwC publicado no início de agosto, apenas cinco Estados-Membros tinham transposto a Diretiva europeia sobre transparência salarial. Até novembro, eram Itália, Eslováquia, Malta, Lituânia e Grécia.
Espanha fez poucos progressos, enquanto a Alemanha adiou a aplicação para o início de 2027. A situação de França continua ‘não especificada’.
Apesar de já não fazer parte da UE, o Reino Unido tinha, desde o início da série estatística em 2020, a maior percentagem de ofertas com indicação de salário no Indeed. Em janeiro de 2020, a quota era de 40 % no Reino Unido, enquanto França surgia em segundo lugar, com 20 %, entre as cinco maiores economias europeias mais os Países Baixos.
Itália ultrapassa o Reino Unido pela primeira vez
Em julho de 2026, Itália ultrapassou pela primeira vez o Reino Unido em transparência salarial entre estes seis países, com 61 % face a 60 %.
Os outros quatro países continuam abaixo dos 50 %, com os Países Baixos nos 49,5 %.
Em duas grandes economias europeias, a percentagem de ofertas que incluem informação salarial fica abaixo dos 20 %: 14 % na Alemanha e 18 % em Espanha. Em França, é de 43 %.
A mudança em Itália no último ano é significativa. Em julho do ano passado, apenas um quarto das ofertas (26 %) incluía informação sobre o salário, segundo a Indeed.
“A proporção de ofertas italianas que anunciam o salário subiu de 35 % em janeiro para 61 % em julho, acelerando depois da aplicação, em junho, da diretiva europeia sobre transparência salarial”, referiu Adrjan.
“Itália foi além do que exige a diretiva europeia, ao obrigar os empregadores a indicarem diretamente no anúncio a faixa salarial, dando aos candidatos acesso a essa informação antes mesmo de decidirem se se candidatam.”
Transparência salarial acelera após entrada em vigor da lei
Adrjan salientou também, numa publicação nas redes sociais, que o aumento começou antes do prazo, à medida que alguns empregadores se adiantavam às novas regras. “A transparência salarial acelerou depois da entrada em vigor da lei”, escreveu.
Os empregadores têm agora de indicar o salário de entrada ou a faixa salarial na descrição da oferta, e não apenas comunicá-la aos candidatos em algum momento do processo de recrutamento.
Não se espera que a transparência atinja 100 %, devido ao âmbito da diretiva. Em Itália, por exemplo, alguns tipos de funções ficam excluídos e ainda se discutem detalhes jurídicos sobre a aplicação das regras.
Adrjan nota que, embora nem todas as ofertas indiquem ainda o salário, à medida que as práticas das empresas forem mudando, a tendência é claramente ascendente.
Mulheres recebem menos 11 % do que os homens
A diferença remuneratória de género na UE foi de 11,1 % em 2024, segundo o Eurostat. Significa que, quando os homens ganham 100 euros, as mulheres recebem em média 88,9 euros.
“O próximo teste será perceber se outros países europeus conseguem transformar o princípio da transparência em prática”, afirmou Pawel Adrjan.
Sublinhou que a transparência continua a ficar para trás em grande parte da Europa, já que muitos parlamentos adiam, para já, a transposição das regras para a legislação nacional. Em alguns países, espera-se mesmo que a indicação da faixa salarial nos anúncios acabe por não ser obrigatória.
“Traição às trabalhadoras”
A secretária-geral da Confederação Europeia de Sindicatos (CES), Esther Lynch, considera que o incumprimento do prazo é uma traição às mulheres trabalhadoras.
“O segredo em torno dos salários entrega todo o poder ao empregador e deixa as mulheres e os seus sindicatos sem a informação básica de que precisam para se defenderem”, afirmou.
Um estudo da CES concluiu que as mulheres que trabalham na UE perdem 358 mil milhões de euros por ano devido à diferença salarial de género. O valor corresponde a quase 3 900 euros por mulher.