A Casa Batlló, em Barcelona, iniciou um ano de eventos pelo centenário da morte de Antoni Gaudí com um espetáculo audiovisual que inaugura um novo espaço de arte contemporânea no icónico edifício modernista
A Casa Batlló de Antoni Gaudí é um exemplo brilhante de contrastes complementares.
É uma celebração permanente do génio criativo do lendário arquiteto espanhol, dos seus projetos pioneiros à mistura de materiais de construção e à sua obsessão pela natureza.
Recebe quase dois milhões de visitantes por ano e é frequentemente descrita como um «marco da arquitetura». Dispositivos digitais de realidade aumentada de última geração permitem a miúdos e graúdos descobrir pormenores dos vitrais coloridos ou do inovador interior modulável em estilo art nouveau.
Já o projeto Mapping da Casa Batlló é uma experiência audiovisual efémera, apresentada apenas em duas noites.
Na quinta edição e a afirmar-se rapidamente como uma das grandes atrações gratuitas de Barcelona, a Casa Batlló convida artistas a criar um espetáculo que transforma temporariamente a fachada da obra-prima de Gaudí.
Este ano, porém, há uma diferença importante com Hidden Order, uma obra espetacular, sonora, luminosa e vibrante de Matt Clark, cofundador do coletivo londrino United Visual Artists.
Para dar vida ao projeto, Clark recorreu à artista e coreógrafa de dança internacional Fukiko Takase. Gravou os seus movimentos com tecnologia de captura de movimento, integrando o corpo da dançarina como elemento visual central na fachada.
O título da obra remete para «L’ordre invisible», lema oficial do «Ano Gaudí 2026», que destaca a capacidade do arquiteto de combinar imaginação com rigor científico através da observação da natureza.
«Gaudí disse uma vez que a linha reta pertence ao homem e a curva a Deus. Acreditava que a natureza é regida por princípios geométricos mais profundos. Como artista, sempre fui atraído pelos sistemas ocultos sob a superfície, por essas estruturas que moldam silenciosamente o mundo que nos rodeia», afirmou Clark.
A experiência intensificou-se com a atuação ao vivo de Takase no interior da fachada, criando uma ligação direta entre o edifício icónico e o público reunido lá em baixo.
«Vemos o mapping como uma oferta à cidade, um momento aberto de encontro com um sítio de Património Mundial vivo», explicou Gary Gautier, diretor-geral da Casa Batlló.
Pela primeira vez, o mapping prolonga-se para lá das projeções de fim de semana com Beyond the Façade, exposição no interior da Casa Batlló que inaugura o novo espaço expositivo do segundo piso, dedicado à arte contemporânea.
Celebrações contemporâneas
Maria Bernat, diretora da Casa Batlló Contemporary, afirmou: «O trabalho dos United Visual Artists personifica na perfeição o espírito da Casa Batlló Contemporary: abertura, assunção de riscos, investigação e a ambição de criar experiências que não podem existir em mais lado nenhum.»
Este ano haverá um foco adicional no legado de Gaudí, devido à designação de Barcelona como Capital Mundial da Arquitetura. Os dez distritos da cidade vão acolher eventos, jornadas de portas abertas, oficinas e instalações com o objetivo de mostrar que a arquitetura pode e deve envolver todos.
Para Gautier, Gaudí nunca foi tão relevante para a arquitetura, a engenharia e o urbanismo como agora.
«Grande parte das inovações que Gaudí introduziu nos seus projetos para responder a desafios arquitetónicos está agora a ser entendida de outra forma. Já não são vistas como abordagens meramente decorativas, mas como soluções para muitos dos problemas atuais dos edifícios. Edifícios vivos, capazes de respirar, sustentáveis – muitas das coisas que os arquitetos procuram hoje. Ao longo do século passado, e já antes, Gaudí construía com essa consciência.»
A exposição Beyond the Façade, de Matt Clark (United Visual Artists), pode ser vista na Casa Batlló até 17 de maio de 2026