A Euronews ouviu o testemunho do tradutor de Lobo Antunes para língua francesa, do seu biógrafo e de escritores para quem o legado do "eterno candidato ao Nobel" é inquestionável.
Dizer que António Lobo Antunes deixou uma marca indelével na literatura portuguesa do século XX e das primeiras décadas deste século acaba por ser redundante, pois nenhum outro autor português (com exceção de José Saramago, morto em 2010, prémio Nobel em 1998) foi tão falado, traduzido e estudado, tanto em Portugal como além-fronteiras, influenciando várias gerações de leitores e de pares.
A guerra em Angola, onde esteve de 1970 a 1973 como médico militar, marcaria toda a sua obra, dos primeiros romances (Memória de Elefante e Os Cus de Judas), claramente autobiográficos, aos mais recentes em que fixou um estilo próprio, único e inimitável, passando pelas crónicas compiladas em vários volumes - o mais recente, As Outras Crónicas, é como uma extensa autobiografia sincopada e não-cronológica, em que regressa incessantemente às mesmas histórias de vida e aos eternos temas da memória, da família e das experiências traumáticas da guerra.
A Euronews ouviu testemunhos de pessoas a quem a influência de António Lobo Antunes não foi indiferente, tendo em alguns dos casos mudado a própria vida.
Dominique Nédellec - Tradutor da obra de António Lobo Antunes em francês
Comecei a traduzir a obra de Lobo Antunes em 2011, com O Meu Nome é Legião_, e desde então nunca parei. Depois do primeiro livro, perguntei-lhe: agora, o que fazemos? Ele respondeu que era um casamento para a vida. Desde então nunca parei de o traduzir, acabei de entregar na semana passada o meu décimo livro do Lobo Antunes,_ Diccionário da Linguagem das Flores_, à editora Christian Bourgois._
Há uma grande dificuldade em traduzir o estilo de Lobo Antunes. Para estar à altura do talento do autor é preciso muito cuidado, muita atenção, muita perseverança, por isso avanço a um ritmo totalmente diferente do ritmo da leitura final. O meu papel é tomar o tempo necessário para avançar nesse túnel de dificuldades para que, no final, o leitor francês não se aperceba dessas dificuldades e que possa desfrutar daquele ritmo tempetuoso que leva tudo consigo, da velocidade, da fluidez e da riqueza do conteúdo.
Houve uma grande transformação no estilo entre o início da obra e as obras mais recentes, dos últimos 15 anos. Os últimos livros, para mim, são como um único livro. Se tivesse de destacar um livro, seria Até que as Pedras se Tornem Mais Leves que a Água_, porque contém todo o universo dele. Temos a guerra de Angola, com alguns elementos que já constavam de_ OsCus de Judas_, enriquecidos e tratados com o pleno domínio da técnica estilística dele. Para mim, é o auge na obra dele._
José Riço Direitinho - Escritor, jornalista e crítico literário
Foi graças a Lobo Antunes que fui publicado pela primeira vez em livro, em 1992.
Até aos 25 anos, escrevi muito para o DN Jovem. Como ainda estava a "fazer a mão", como se diz, ainda não tinha encontrado um estilo próprio, escrevia muito "à maneira de...", ou seja, tentava replicar o estilo de vários escritores, fosse Saramago, Almeida Faria ou Lobo Antunes, por isso ele foi talvez o autor que mais me ajudou a "fazer a mão".
Quando tinha 18 ou 19 anos, fiz-lhe uma entrevista no Hospital Miguel Bombarda e a partir daí passámos a ver-nos várias vezes. Um dia, ele recomenda-me ao seu editor, Manuel Alberto Valente, que então tinha deixado a D. Quixote para dirigir a ASA. Foi por recomendação de Lobo Antunes que ele me contactou e lhe mandei o meu livro de contos, A Casa do Fim_, que acabou por ser o meu primeiro livro publicado. Se não fosse esse empurrão do Antunes, não sei se eu teria continuado a escrever. Se calhar, escreveria só para mim._
Lobo Antunes tinha uma escrita própria e muito livre, que acabou por influenciar toda uma geração de escritores, mais do que nenhum outro. Dou os exemplos de Dulce Maria Cardoso, Rui Cardoso Martins ou Valério Romão.
João Céu e Silva - Escritor, jornalista e crítico, autor da biografia de António Lobo Antunes
Entrevistei-o quando lançou O Meu Nome é Legião e comecei aí a fazer as entrevistas para a biografia (Uma Longa Viagem com António Lobo Antunes), que seria publicada em 2009. Nós conversámos durante dois anos, quase todas as sextas-feiras. Foram mais de 60 entrevistas. Cada vez que ele publicava um livro, eu escrevia sobre o livro. Fomos juntos aos Países Baixos, aos Estados Unidos, a vários locais onde foi fazer apresentações. Isto entre 2005 ou 2006 até mais ou menos depois da Covid.
Foi um dos mais puros escritores, porque a única coisa que existia na vida dele era a escrita. Não era um escritor fluído, não era fácil. Quando lemos os livros dele, não se nota a dificuldade na escrita, mas ele não conseguia escrever muito. Se escrevesse meia página num dia inteiro, era um milagre. Era um escritor que pensava muito aquilo que escrevia e que cortava muito aquilo que tinha escrito. Acompanhei o processo de escrita dos livros seguintes, O Arquipélago de Insónia e Que Cavalos São Aqueles que Fazem Sombra no Mar. Vi como era o processo de escrita dele.
Lobo Antunes tinha duas formas de ser. Era uma pessoa um pouco irascível e mal-disposta num primeiro contacto, mas depois era uma pessoa extremamente sedutora.
Relativamente à polémica com a recente reedição do livro, em que revela que António Lobo Antunes sofria de demência:
Muitas das pessoas que elogiam agora António Lobo Antunes são pessoas que não leem nada dele há muits anos. Nesta última edição, cometo o "pecado" de escrever que ele estava com um problema da demência. Essa parte é apenas uma página e meia em 300 páginas, mas provocou muita celeuma porque acharam que eu estava a ser oportunista. Eu considero isso uma coisa estúpida e não dei resposta. As pessoas não conseguiram ver que estava a valorizar o escritor e não a aproveitar-me do escritor. Se publicasse uma biografia de um autor em Inglaterra, Estados Unidos, ou França e não dissesse o estado de saúde em que ele se encontrava, esse livro nunca seria editado.
Eu cumpri o meu dever. Os leitores devem cumprir o seu, que é ler Lobo Antunes. Para mim, o grave é Lobo Antunes não ser lido. É isso que é grave.
Considero-o um dos maiores escritores portugueses do século XX. Não tenho qualquer dúvida de que ele inventou uma linguagem, inventou um modo de escrever. Aparece muito ligado à questão da guerra colonial, mas partir de uma certa altura, designadamente nestes últimos romances, consegue separar-se dessa questão que o catalogava, e consegue preocupar-se com o ser humano. Para ele, o que interessa é o ser humano, falar do ser humano. Isso é particularmente patente em Sôbolos Rios que Vão_. Isso para mim foi uma evolução muito importante na escrita dele, nos temas sobre os quais escrevia._
Susana Piedade - Escritora
Tudo o que eu possa dizer sobre António Lobo Antunes parece-me pequeno. Talvez por ele ser (será sempre) um escritor maior, sublime, uma voz inconfundível da literatura portuguesa. A escrita do António Lobo Antunes é singular e inconformada, arrebata-nos, desafia-nos, faz-nos querer voltar.
Só um génio poderia construir tantas histórias e personagens que parecem vindas do nada e nos enredam de forma tão genuína e despretensiosa. Só um grande autor poderia escrever como se nos falasse ao ouvido.
Não tive o privilégio de conhecer António Lobo Antunes, mas sinto que estivemos juntos sempre que o li. Estou-lhe muito grata por tudo o que nos deixa.
Tributos oficiais
As homenagens chegam não só do meio literário, como das mais altas esferas políticas. O Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa decretou luto nacional para o próximo sábado, dia 7 de março, e homenageou o escritor com uma mensagem na sua página. Conhecido leitor, o presidente chama a Lobo Antunes um "herdeiro de Céline e Faulkner", ou de José Cardoso Pires, de quem foi amigo próximo.
Também o presidente eleito António José Seguro prestou homenagem ao escritor, através de uma mensagem na sua página no Facebook, destacando a obra "profundamente marcada pela lucidez, pela memória e pela exigência moral com que olhou o país e a condição humana".
O primeiro-ministro Luís Montenegro chama-lhe "figura maior da cultura portuguesa":
Finalmente, a homenagem chega também do Benfica, clube de que Lobo Antunes era adepto:
Numa das suas crónicas, a propósito da paixão clubística e dos tempos passados na guerra em Angola, escreveu:
"Quando o Benfica jogava, púnhamos os altifalantes virados para a mata e, assim, não havia ataques.
Parava a guerra. Até o MPLA era do Benfica. Era uma sensação ainda mais estranha porque não faz sentido estarmos zangados com pessoas que são do mesmo clube que nós. O Benfica foi, de facto, o melhor protector da guerra. E nada disto acontecia com os jogos do Porto e do Sporting, coisa que aborrecia o capitão e alguns alferes mais bem nascidos. Eu até percebo que se dispare contra um sócio do Porto, mas agora contra um do Benfica?".