O negócio de 111 mil milhões de dólares que levaria a Paramount Skydance a adquirir a Warner Bros. Discovery deu mais um passo para se tornar realidade depois de os acionistas da WBD terem votado a favor da fusão. Tal só veio amplificar a oposição a este negócio controverso...
Um dos maiores negócios da história dos meios de comunicação aproxima-se da sua conclusão, uma vez que os acionistas da Warner Bros. Discovery (WBD) votaram "por esmagadora maioria" a favor da aprovação do acordo de fusão com a Paramount, segundo a WBD.
A controversa fusão envolve dois dos cinco estúdios tradicionais de Hollywood – um negócio avaliado em 111 mil milhões de dólares e que terá um enorme impacto na produção cinematográfica e no futuro do cinema.
A votação de ontem foi descrita como "mais um marco importante para a conclusão desta transação histórica" pela WBD – um negócio que irá "proporcionar um valor excecional aos nossos acionistas".
A fusão será concluída entre julho e setembro deste ano, sujeita à aprovação regulatória.
Mas nem todos partilham do entusiasmo da WBD, uma vez que o negócio ameaça remodelar completamente Hollywood.
Reduziria o número de estúdios cinematográficos nos EUA para quatro, e muitos acreditam que a fusão resultaria numa diminuição da qualidade e em perdas significativas de postos de trabalho.
Tanto democratas como republicanos manifestaram preocupações de que a fusão possa resultar em preços mais elevados e menos opções para os clientes, enquanto os operadores de cinemas também expressaram a preocupação de que a fusão possa custar postos de trabalho e reduzir o número de filmes lançados nas salas.
Os senadores Cory Booker e Elizabeth Warren têm-se mobilizado para impedir a aquisição da WBD pela Paramount, tendo Warren respondido à votação dos acionistas afirmando: "A fusão entre a Paramount e a Warner Bros. não é um negócio fechado. Os procuradores-gerais estaduais de todo o país estão a mobilizar-se para impedir este desastre antitrust. Temos de continuar esta luta."
O diretor-executivo da Paramount, David Ellison, afirmou que o negócio seria benéfico para a comunidade criativa. No entanto, tanto Ellison como o seu pai, Larry Ellison, têm laços estreitos com Donald Trump – algo que suscitou receios de que a fusão significasse menos filmes como os recentes vencedores de Óscares Batalha Atrás de Batalha e Pecadores, ambos títulos da Warner Bros. que abordam política e exploram temas que Trump desaprovaria.
As celebridades também estão a manifestar-se. Mais de 1.000 estrelas de cinema e televisão e profissionais criativos, incluindo Joaquin Phoenix, Jane Fonda, Bryan Cranston, Laura Poitras, Javier Bardem, David Fincher, Denis Villeneuve, Emma Thompson e Yorgos Lanthimos, já assinaram uma carta aberta contra a aquisição da Warner Bros. Discovery pela Paramount Skydance.
"Estamos profundamente preocupados com os sinais de apoio a esta fusão, que colocam os interesses de um pequeno grupo de acionistas poderosos acima do interesse público alargado", lê-se na carta, disponível no site BlocktheMerger.com. "A integridade, a independência e a diversidade da nossa indústria ficariam gravemente comprometidas. A concorrência é essencial para uma economia saudável e uma democracia saudável. Tal como uma regulamentação e aplicação da lei ponderadas."
A carta sustenta que "a concentração nos media já enfraqueceu uma das indústrias globais mais vitais dos Estados Unidos – um setor que há muito molda a cultura e aproxima pessoas em todo o mundo" e conclui ser necessário garantir um "futuro vibrante" para "a mais importante exportação" do país.
O número de subscritores continua a crescer, com mais celebridades de primeira linha a juntarem-se à luta para bloquear a fusão.
Robert De Niro, Holly Hunter, Florence Pugh e Sofia Coppola acrescentaram os respetivos nomes, elevando para mais de 4.000 o total de assinaturas.
Uma das vozes que sintetizou o descontentamento foi a do ator Mark Ruffalo. Após a votação dos acionistas, Ruffalo escreveu nas redes sociais, numa referência a David e Larry Ellison: "Dois tipos, ambos com uma compreensão muito limitada do mundo, que são amigos íntimos do presidente mais anti-Primeira Emenda e anti-imprensa da história, que censura a ciência, as alterações climáticas, tudo o que tenha a ver com igualdade, e que está atualmente a matar cidadãos americanos, a travar uma guerra ilegal desastrosa, ao mesmo tempo que apoia um genocídio, vão possuir a maior concentração de notícias e entretenimento da história mundial. O que é que poderia correr mal?"
Acrescentou ainda: "Esta fusão nunca aconteceria sem a amizade dos Ellison e o apoio do seu querido líder, Trump. Agir como se tudo isto fosse, de alguma forma, normal é um ato de loucura. Será lembrado como tal. Começar um empreendimento com 78 mil milhões em dívidas não é uma aposta vencedora. Muitas pessoas boas perderão os seus empregos, muitas histórias importantes nunca serão contadas e dois tipos tomarão decisões sobre o que você vê ou não e tentarão controlar a forma como você pensa."
Entre os organizadores da carta aberta do BlockTheMerger.comcontam-se ainda o sindicato Writers Guild of America (WGA), o Democracy Defenders Fund, o Committee for the First Amendment de Jane Fonda, o American Economic Liberties Project, o grupo de defesa dos meios de comunicação Free Press e a organização Repórteres sem Fronteiras (RSF).