Kanye West tem concerto marcado para o Estádio do Algarve no dia 7 de agosto. Contudo, com o cancelamento de vários espetáculos pela Europa, a dúvida sobre se o concerto vai acontecer tem vindo a aumentar. A organização garante que o evento se mantém e aponta preocupações apenas nas vendas.
Nos últimos anos, Kanye West tem sido notícia um pouco por todo o mundo devido a uma série de polémicas relacionadas com os seus comportamentos e discurso de ódio contra os judeus, mas também pelas atitudes sexistas, como o episódio com a mulher, Bianca Censori, nos Grammys.
Apesar de já se ter retratado, com um pedido de desculpas justificado por questões de saúde mental, o rapper, que assume também o nome artístico Ye, tem visto a sua digressão pela Europa em apuros, com vários concertos cancelados, nomeadamente em países onde crescem as preocupações com ataques antissemitas.
Portugal é um dos países incluídos na digressão europeia de Kanye West. Contudo, e apesar de não existir consternação social e mediática em torno da sua atuação, começam a surgir questões sobre a vinda, sobretudo depois de outros países terem optado por proibir a entrada do artista, dado o seu historial controverso e por temerem perturbações da ordem pública.
O concerto de Kanye West em Portugal está marcado para o dia 7 de agosto, no Estádio do Algarve.
Torcato Jorge, CEO e cofundador da Raya Culture, organizadora do evento, afirmou, em entrevista à Euronews, que este é “um não tema”, motivado por “desinformação”.
“É um evento de música que vai acontecer. Tornar-se-ia um tema se os serviços identificassem uma ameaça nacional à ordem pública, o que não é o caso”, reitera.
O organizador mostra-se confiante de que existem todas as condições para o concerto se realizar e afirma que a organização cumpriu a lei desde o primeiro dia. “O SIS não identificou o artista, ou neste caso o cidadão norte-americano, como uma ameaça nacional ou um terrorista”, relembra. “Tem de haver um relatório de segurança interna do Estado que diga que este cidadão não pode entrar no país”, acrescenta.
À Euronews, o CEO admite que a questão se está a transformar “num tema político”. “Cada país é livre de decidir se permite ou não a entrada de um cidadão mas, na União Europeia, não houve nenhum país que tenha vetado a sua entrada em território nacional”.
O único país que, até à data, vetou a entrada de Kanye West, levando ao cancelamento de três concertos, foi o Reino Unido, que já não integra a UE.
Em contacto constante com a equipa de Kanye “Ye” West, a organização garante que, até ao momento, não foi levantada qualquer questão que leve a recear que o artista possa cancelar a sua vinda a Portugal.
“Não há qualquer tipo de receio de uma tomada de posição igual à que fez em França”, garantiu. Kanye West decidiu cancelar o concerto em território francês após o autarca de Marselha afirmar que não era bem-vindo.
A organização destaca a dimensão do evento e o compromisso de todas as entidades envolvidas, como as autarquias de Loulé e Faro e o Turismo de Portugal e do Algarve, assegurando que os trabalhos decorrem normalmente para aquele que acredita ser “o maior evento no Algarve este verão”.
“A Proteção Civil acabou de dar autorização ao nosso projeto de segurança do recinto, por isso está tudo ok”, afirma.
Contudo, dado o investimento e a mobilização de meios inerentes a um evento desta dimensão, a Raya Culture enviou uma comunicação ao Ministério da Administração Interna, mostrando-se disponível para uma reunião “para qualquer esclarecimento”.
“Eu acredito muito na lei, no Estado de Direito e nas nossas instituições”, afirmou Torcato Jorge, descartando preocupações maiores.
Contactado pela Euronews, o Ministério da Administração Interna referiu que está a “acompanhar atentamente a situação” e que, “caso alguma avaliação de risco, realizada pelas entidades competentes, conclua que a vinda do artista a Portugal pode representar uma ameaça à segurança nacional ou à ordem pública, serão tomadas medidas em conformidade”.
A avaliação de risco de qualquer evento realizado em solo português é da responsabilidade do SIRP (Sistema de Informações da República Portuguesa), que produz diariamente informações de segurança, permitindo ao SIS (Serviço de Informações de Segurança), sob a sua tutela, agir na prevenção de ameaças à segurança nacional e à integridade do Estado de direito.
Contactado pela Euronews, o SIRP esclareceu que, como em qualquer outro evento que acontece em solo nacional, há um pedido por parte da "força territorialmente competente" de avaliação de risco e que o SIS só atua na deteção, recolha e análise de informações sobre potenciais ameaças à segurança, como o terrorismo ou o crime organizado. Contudo não confirmou se esta avaliação está a decorrer.
Preocupação com a venda de bilhetes
Torcato Jorge mostra-se agora preocupado com a venda de bilhetes a nível nacional, onde afirma ter sentido uma retração após as notícias que considera serem “dúvidas especulativas sem base legal”.
“O mercado estrangeiro está a crescer, incluindo o americano, e o mercado português está a tornar-se cada vez mais pequeno, porque as pessoas têm receio de comprar um bilhete que custa quase 200 euros e depois terem de pedir o reembolso”, lamenta.
Segundo a organização, a bilheteira encontra-se "70% vendida" com “os primeiros 20 mil bilhetes vendidos nas duas horas logo da pré-venda”, existindo já setores e bancadas esgotados.
Os preços dos bilhetes ainda disponíveis variam entre os 159 e os 450 euros.
A organização adiantou ainda que os primeiros bilhetes foram principalmente adquiridos por portugueses, havendo também muito público do Reino Unido, Espanha, França e Suíça.
Torcato Jorge acredita que Kanye West tem espaço no panorama musical e de entretenimento e considera que os comentários antissemitas e pró-nazis foram “um erro”, defendendo que o legado musical do artista não os reflete.
“Para quem gosta de música, entretenimento e grandes produções, acho que vai ser uma experiência muito interessante”, conclui.
Antes da vinda a Portugal, Kanye West tem ainda concertos marcados nos Países Baixos, Itália e Espanha.
Nos Países Baixos, tem duas datas agendadas e o governo já foi questionado sobre a sua entrada no país.
O ministro da Justiça neerlandês, David van Weel, declarou, num debate no Parlamento na terça-feira, que tinha solicitado às autoridades que verificassem se existiam motivos para negar a entrada do cantor. Contudo, advertiu: "Temos um limite bastante elevado para recusar a entrada", disse. "É preciso haver uma ameaça clara de que a ordem pública ou a segurança sejam perturbadas".
Em Itália, tal como já tinha noticiado a Euronews, Pina Picierno, vice-presidente do Parlamento Europeu e dirigente do Partido Democrata italiano, apelou à intervenção do governo. "O Reino Unido recusou o visto. França impediu, na prática, o concerto em Marselha. A Itália, por sua vez, limita-se a ficar de braços cruzados, com 68 mil bilhetes vendidos, como se nada se tivesse passado".
Já o governo espanhol, questionado pela Euronews em Madrid, indicou que não cabia ao executivo "decidir se o cantor iria atuar em Espanha" e que "o Ministério do Interior não faz comentários sobre o assunto nem deseja comentar as decisões tomadas por outros países".
Que concertos já foram cancelados?
Os primeiros espetáculos cancelados ocorreram no Reino Unido: três concertos no festival Wireless, entre 10 e 12 de julho, depois de Londres ter decidido revogar a autorização de entrada no país de Kanye West.
O artista tinha também um concerto marcado um mês antes no Vélodrome de Marselha. Contudo, após o governo francês ter manifestado a intenção de impedir a atuação, na sequência dos comentários do autarca da cidade, foi o próprio Kanye que decidiu cancelar. “Após muita reflexão e consideração, decidi adiar o meu espetáculo em Marselha, França, até novo aviso”, escreveu na rede social X.
Seguiram-se os concertos cancelados na Polónia e na Suíça. Kanye West tinha um espetáculo marcado para o Estádio da Silésia, em Chorzów, na região sul da Polónia, a 19 de junho.
O recinto anunciou que o espetáculo não se realizaria “por motivos formais e legais”, numa decisão tomada após a ministra da Cultura, Marta Cienkowska, condenar o rapper, afirmando que as suas declarações passadas não permitiam a sua atuação num país “marcado pela história do Holocausto”.
“Estamos a falar de um artista que fez publicamente declarações antissemitas, relativizou crimes e lucrou com a venda de t-shirts com uma suástica. Isto não são meras polémicas. Trata-se de uma ultrapassagem deliberada de limites e de uma normalização do ódio”, afirmou Cienkowska, conforme noticiou a Euronews.
West tinha igualmente um concerto previsto para junho na Suíça, no estádio do FC Basel, mas o clube anunciou que desistiu.
“O FCB recebeu um pedido e analisou-o. No entanto, após uma revisão exaustiva, decidimos não avançar com o projeto, uma vez que não podemos, de acordo com os nossos valores, disponibilizar uma plataforma ao artista em questão neste contexto”, afirmou em comunicado.