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França: moda em Roland Garros, vestido dourado de Osaka mostra que ténis ainda tem de amadurecer

Moda em Roland Garros: vestido dourado com lantejoulas de Naomi Osaka expõe que o ténis ainda tem de amadurecer
Moda em Roland Garros: vestido dourado com lantejoulas de Naomi Osaka mostra que ténis ainda tem de crescer Direitos de autor  AP Photo
Direitos de autor AP Photo
De David Mouriquand
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Naomi Osaka venceu a partida de estreia em Roland Garros, mas foi o vestido dourado com lantejoulas que concentrou atenções e dividiu opiniões. Porque continua o ténis a discutir os códigos de vestuário das atletas?

Ontem, no court Suzanne-Lenglen em Roland Garros, aconteceram duas coisas.

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A estrela japonesa do ténis e antiga número um mundial, Naomi Osaka, venceu a alemã Laura Siegemund por 6-3, 7-6 (3), iniciando em grande estilo a sua campanha em Roland Garros.

E foi precisamente aí que surgiu o segundo momento em destaque: o gosto de Osaka pela moda.

A campeã de quatro títulos do Grand Slam, de 28 anos, entrou em campo com uma saia cerimonial preta e um corpete sem mangas com missangas, que retirou para revelar um impressionante vestido de jogo dourado coberto de lantejoulas.

“É muito couture”, disse Osaka sobre o vestido após o encontro. “Sabem quando a Torre Eiffel à noite fica toda a brilhar? Acho que pareço um bocadinho isso.”

Osaka explicou que o vestido de jogo foi desenhado pela Nike, enquanto as peças exteriores são do costureiro suíço Kevin Germanier.

Naomi Osaka
Naomi Osaka AP Photo

“Os atletas fazem parte do mundo do espetáculo”, afirmou Osaka. “As entradas em court nos Grand Slams são a única altura em que, possivelmente, sinto que sou uma artista de entretenimento.”

Houve, no entanto, outras preocupações... “Fiquei um pouco preocupada, porque quando o sol bate no vestido, reflete imenso. Por isso tive algum receio de que o árbitro me mandasse sair do court”, contou. “Por isso tinha dois vestidos Nike normais de reserva.”

Não é a primeira vez que Osaka causa sensação com o visual em court: no US Open do ano passado, deslumbrou o público com um conjunto vermelho e rosas vermelhas brilhantes no rabo-de-cavalo. Já este ano, no Open da Austrália, surgiu com um modelo inspirado numa medusa, com um chapéu enorme de aba larga e um véu.

De forma tristemente previsível, a internet dividiu-se quanto à mais recente opção de moda de Osaka.

Alguns encheram-na de elogios...

Outros lamentaram que uma mulher se atreva a incorporar alta-costura no seu equipamento desportivo.

Os adeptos mais conservadores consideram o conjunto desrespeitoso para com o desporto e a sua herança, enquanto outros seguem a via do “Como se atreve a não usar algo mais recatado?”

Para não dar palco a comentários sexistas, fiquemos com este, que resume bastante bem a situação:

Há ainda uma dimensão pessoal nesta onda de críticas, que torna tudo mais feio. Osaka tem sido aberta quanto à ansiedade que sente perante os media e às suas lutas com a saúde mental.

No sábado, disse que gosta de moda porque “não falo muito, por isso consigo falar através da roupa”.

Acrescentou: “Isso significa que posso ser tão exuberante quanto quiser nas cores, nos padrões ou nos tecidos... Mas acho que é essa a parte divertida. Sinto que perdemos um pouco isso no ténis. (...) Sei que há miúdos ou pessoas parecidas comigo que, espero, sintam o mesmo em relação aos meus equipamentos. Mas, sim, sou um bocadinho dramática quando se trata do meu sentido de estilo.”

Naomi Osaka
Naomi Osaka AP Photo

Apesar de tudo, parece que um certo canto sombrio do mundo do ténis continua incapaz de acompanhar os tempos e de celebrar escolhas arrojadas, sobretudo quando se trata de controlar o corpo das mulheres e criticar o que as atletas femininas vestem em court.

Não é novidade.

Se o equipamento é demasiado chamativo ou estiloso, a atleta é acusada de confundir o court com a passerelle e arrisca um aviso por violação de código por “comportamento antidesportivo”. Se a roupa é demasiado justa, a atleta é vista como provocadora e “sem decoro”. E, se o conjunto é considerado pouco apelativo, a jogadora deveria esforçar-se mais em nome do desporto e das suas tradições. É uma situação em que se perde sempre.

Um exemplo marcante ocorreu em 1985, quando a norte-americana Anne White foi mandada vestir algo mais “apropriado” pelo árbitro de Wimbledon depois de disputar a primeira ronda com um fato branco de licra justo, de mangas compridas e de corpo inteiro. Depois, no US Open de 2018, Serena Williams usou um tutu Nike feito à medida depois de o seu catsuit (concebido para melhorar a circulação sanguínea e evitar coágulos após a gravidez) ter sido proibido em Roland Garros.

Serena Williams - 2018
Serena Williams - 2018 AP Photo

Felizmente, após a polémica em torno do catsuit de Serena, a Associação de Ténis Feminino (WTA) anunciou finalmente que tinha “modernizado” o código de vestuário, introduzindo uma nova regra que permite o uso de leggings e calções de compressão até meio da coxa sem necessidade de saia.

Ainda assim, a história dos códigos de vestuário no ténis feminino continua desanimadoramente polémica e marcada por sexismo e, nalguns casos, racismo. E, apesar de avanços encorajadores ao longo dos anos, como o abrandar das regras rígidas de Wimbledon em 2023, os equipamentos em court continuam a suscitar reações arcaicas.

Naomi Osaka
Naomi Osaka AP Photo

Quanto ao conjunto dourado de Osaka, a antiga número um britânica Annabel Croft afirmou que muitas jogadoras “não conseguiriam corresponder à expectativa” de entrar em court com equipamentos feitos à medida como os da japonesa.

“Se entras em court com um equipamento extraordinário, tens de estar à altura disso, ter a confiança para jogar com ele e dar ao público ténis ao nível do equipamento”, disse na BBC Radio 5 Sports Extra. “A Naomi aguenta. Adora mesmo isso e não se deixa afetar.”

Já para quem se incomoda com uma mulher a exprimir-se através da moda e a controlar a sua própria narrativa num palco global, tudo indica que são esses os verdadeiros culpados de “comportamento antidesportivo”, no mínimo, e de sexismo descarado, no pior dos casos.

Deixem Osaka brilhar.

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