Loader
Encontra-nos
Publicidade

Jamaica: Cristóvão Colombo salva a vida com eclipse e engana população indígena

Monumento a Colombo voltado para o mar, em Barcelona
Monumento a Colombo voltado para o mar em Barcelona Direitos de autor  Pexels
Direitos de autor Pexels
De Maria Muñoz Morillo
Publicado a
Partilhar Comentários Siga a Euronews no Google
Partilhar Close Button

O navegador, encalhado na Jamaica com a tripulação e à beira da fome, consultou tábuas astronómicas e previu com exatidão um eclipse lunar, que usou como trunfo nas negociações com os taínos.

Corria o ano de 1504 e Cristóvão Colombo estava na sua quarta viagem ao Novo Mundo quando os seus navios naufragaram junto à costa da Jamaica, que, apesar de ter sido batizada em 1494 como ilha Santiago, sempre foi chamada pelo nome que lhe deram os nativos, “Xaymaca” ou “Yamaya”, significando “terra de madeira e água”. O almirante e a sua tripulação estavam encalhados, sem possibilidade de zarpar, numa ilha de onde não conseguiam sair.

PUBLICIDADE
PUBLICIDADE

Jamaica: beco sem saída

O escrivão-mor da viagem, Diego Méndez, tentou a única solução possível: partir de canoa para a Hispaniola (a atual República Dominicana) para pedir ajuda ao governador Nicolás de Ovando. Demorou cinco dias a chegar, mas Ovando, que desconfiava profundamente de Colombo, recusou enviar socorro e reteve Méndez durante meses. Entretanto, na Jamaica, os náufragos tinham conseguido estabelecer uma relação de troca com os nativos, que lhes forneciam alimentos em troca de bugigangas e utensílios europeus.

Durante meses a situação manteve-se, mas a esperança foi-se apagando. Eclodiu um motim entre os próprios marinheiros, o que agravou as tensões com os indígenas. Os habitantes da ilha, cansados do conflito e sem paciência, decidiram deixar de fornecer alimentos aos europeus. A tripulação de Colombo estava à beira de morrer à fome.

Tábuas astronómicas: a salvação de Colombo

Foi então que Colombo recorreu a um dos expedientes mais engenhosos da história da exploração: as suas tábuas astronómicas. O navegador levava consigo o “Almanach Perpetuum”, um calendário astronómico elaborado pelo astrónomo alemão Johann Müller, conhecido como “Regiomontanus”, que registava com precisão os movimentos dos astros para os anos seguintes, incluindo eclipses da Lua.

Colombo consultou os seus documentos e encontrou o que precisava: em 29 de fevereiro de 1504 ocorreria um eclipse da Lua visível a partir da Jamaica. A Lua ficaria tingida de vermelho carmim, a cor característica que assume durante os eclipses totais devido à refração da luz solar através da atmosfera terrestre, o mesmo fenómeno que hoje é conhecido popularmente como “lua de sangue”.

Três dias antes do eclipse, Colombo chamou os líderes indígenas e disse-lhes que o seu Deus cristão estava profundamente irritado com eles por terem deixado de lhes fornecer alimentos. Como sinal dessa ira, advertiu, nessa mesma noite a Lua desapareceria e tingir-se-ia de vermelho sangue.

Eclipse e rendição dos taínos

Na noite de 29 de fevereiro, o céu da Jamaica correspondeu exatamente à previsão do almirante. A Lua começou a escurecer progressivamente e ganhou o inconfundível tom avermelhado do eclipse total. Os nativos, aterrorizados perante o que interpretaram como um sinal sobrenatural, acudiram a suplicar a Colombo que intercedesse junto do seu Deus para travar o fenómeno.

O navegador, segundo relata o seu filho Hernando na biografia do almirante, fingiu retirar-se para rezar e deliberar com a divindade. Calculou o momento exato em que o eclipse começaria a desaparecer e reapareceu perante os nativos, comunicando-lhes que o seu Deus aceitara o pedido e perdoaria os indígenas se voltassem a fornecer-lhes alimentos.

Quando a Lua recuperou o seu aspeto habitual, os indígenas ficaram convencidos. O fornecimento de provisões foi retomado até que um navio, finalmente fretado por Diego Méndez, chegou para recolher os náufragos. Colombo desembarcou em Sanlúcar de Barrameda em novembro de 1504. Viria a morrer dois anos depois, em Valladolid, em maio de 1506.

Ciência: ferramenta de sobrevivência

O episódio de Colombo é um dos exemplos mais célebres na história da ciência de como o conhecimento astronómico pode tornar-se uma ferramenta de sobrevivência. Não foi o único explorador a recorrer a esta estratégia; existem muitos relatos semelhantes atribuídos a outros exploradores europeus em diferentes partes do mundo.

O que torna singular o caso de Colombo é a sua precisão documental: a data do eclipse de 29 de fevereiro de 1504 foi verificada por astrónomos modernos, que confirmaram que foi visível a partir da Jamaica com as características descritas pelas fontes históricas.

O almirante e descobridor da América não improvisou: calculou, esperou pelo momento oportuno e utilizou o conhecimento científico da sua época com uma frieza e uma eficácia que salvaram a vida a si e à sua tripulação.

Ir para os atalhos de acessibilidade
Partilhar Comentários Siga a Euronews no Google

Notícias relacionadas

Como filmar e fotografar o eclipse sem danificar a câmara do telemóvel

NASA escolhe pequena aldeia de Burgos para transmitir eclipse

Da crucificação ao pop art: como a humanidade pinta os eclipses solares