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Portugal: Kiala quer tirar os autores negros da exceção e levá-los para o centro do mercado editorial

Elga Fontes, editora e fundadora da Kiala
Elga Fontes, editora e fundadora da Kiala Direitos de autor  @quemmelera/Instagram
Direitos de autor @quemmelera/Instagram
De Joana Mourão Carvalho
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A chancela editorial fundada por Elga Fontes chegou ao mercado em maio com uma missão: combater a sub-representação de autores negros e mostrar que as suas obras não se resumem a histórias sobre racismo, discriminação ou sofrimento. Em 2026 publica dois livros e já tem o catálogo de 2027 fechado.

A Kiala nasceu de uma ideia que Elga Fontes já tinha na cabeça há vários anos: criar espaço no mercado editorial português para autores negros. A chancela da editora Vírgula d’Interrogação entrou oficialmente no mercado em maio deste ano e pretende publicar exclusivamente livros de autores negros, mas a sua fundadora rejeita a ideia de que isso corresponda à criação de um espaço fechado ou de uma categoria literária própria.

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“Kiala é uma palavra em quimbundo [uma das línguas bantu de Angola] que significa iluminar ou trazer luz”, explica Elga Fontes, que encontrou no nome uma síntese daquilo que pretendia construir. A ideia começou a ganhar forma há cerca de dois anos, quando a então editora na Vírgula d’Interrogação, apresentou o projeto a Diana Almeida, diretora da editora. Depois de receber luz verde, seguiram-se cerca de dois anos de construção da marca.

A necessidade da chancela surgiu, em parte, da própria experiência de Elga Fontes enquanto leitora e profissional do setor. Durante o mestrado, analisou o catálogo de uma editora portuguesa e verificou que, entre as centenas de livros publicados nos três anos analisados, apenas cerca de 10% tinham autores não brancos. Mais tarde, estendeu a observação a outros grupos editoriais e acompanhou também os lançamentos anunciados por editoras das quais é parceira enquanto criadora de conteúdos.

A conclusão, diz em entrevista à Euronews, foi semelhante: “Faltava e continua a faltar haver mais espaço para livros de autores negros.” Em Portugal, acrescenta, não conhece atualmente nenhum estudo formal ou plataforma que contabilize de forma sistemática a representação racial no mercado editorial.

Para Elga Fontes, o problema não pode ser atribuído a um único interveniente no processo de publicação de um manuscrito, desde editores, agentes literários, críticos, até aos próprios leitores naquilo que procuram. O mercado português é pequeno e precário, as editoras procuram títulos com potencial comercial e as redes sociais tendem a amplificar os livros que já concentram atenção. Ao mesmo tempo, há leitores menos disponíveis para obras que se afastem do que é considerado padrão, acredita a fundadora da Kiala.

“Não há um culpado. E também, a Kiala não pretende ser uma crítica, pretende ser mais um incentivo”, afirma.

Uma chancela para sair do estereótipo

Um dos princípios que orientam a Kiala é precisamente afastar a ideia de que a literatura de autores negros tem necessariamente de ser sobre a experiência racial. Para a editora e fundadora, falar de uma “experiência negra” no singular é redutor: existem experiências diferentes entre pessoas negras, ainda que algumas sejam atravessadas por problemas comuns, como o racismo.

A editora quer também combater a associação automática entre autores negros e histórias de dor. “Queríamos com a Kiala também desconstruir um pouco essa ideia de que uma pessoa negra só pode escrever sobre racismo e sofrimento”, explica.

O problema, acrescenta, está também na forma como as obras são avaliadas. “Tendemos a encarar as criações de pessoas negras como uma exceção, e não como universais”, diz. Um autor branco pode escrever sobre praticamente qualquer assunto e ver reconhecida a qualidade da sua obra independentemente do tema, para autores negros, considera, esse princípio nem sempre se aplica.

É por isso que a Kiala não procura apenas livros centrados em questões raciais. O primeiro título publicado, Feminismo na Periferia da escritora, ativista e crítica cultural norte-americana Mikki Kendall, “é um livro de não-ficção que questiona um feminismo apresentado como universal e aborda temas como etnia, classe, pobreza e violência”.

Em Feminismo na Periferia, Mikki Kendall confronta as falhas do feminismo contemporâneo, partindo da sua própria experiência
Em Feminismo na Periferia, Mikki Kendall confronta as falhas do feminismo contemporâneo, partindo da sua própria experiência Kiala

O segundo título, previsto para novembro, será A Morte de Vivek Oji, de Akwaeke Emezi, natural da Nigéria. Um celebrado romance, originalmente publicado em inglês em 2020, sobre identidade, descoberta e família, ambientado também em aspetos da sociedade nigeriana.

A escolha dos títulos segue vários critérios. A equipa procura perceber “que conversa é que este livro poderá iniciar ou continuar em Portugal” e o que os leitores poderão encontrar nele. “Um bom livro é um livro que nunca acaba de dizer aquilo que tem para dizer. Esse é o nosso norte na escolha dos nossos livros. Um livro que tenha muito para dizer”, resume Elga Fontes, apontando essa ideia como um dos principais critérios de seleção.

“Não é qualquer pessoa que seja negra que é publicada”

A chancela assume o critério racial como instrumento para combater uma desigualdade que Elga Fontes considera concreta, e não como critério suficiente para a publicação.

“O nosso critério racial é puramente instrumental”, explica. “Não é nenhuma afirmação de que os autores negros formam uma categoria literária homogénea, que tem de ser confinada a um espaço único.”

Confrontada com a possibilidade de a Kiala acabar por colocar os autores negros num espaço à margem do restante mercado, em vez de os integrar plenamente nele, a responsável rejeitou essa leitura.

"A Kiala está em todo o mercado editorial, dentro daquilo que nos é possível. Nós não temos só uma livraria Kiala, não temos só um espacinho que é onde os autores negros podem estar. O nosso objetivo e o nosso trabalho é, precisamente, incluir vozes de autores negros onde eles ainda não estão, onde eles estão em pouca quantidade, precisamente porque a Kiala é uma chancela de 'ação afirmativa' que foi criada para corrigir uma sub-representação concreta no mercado editorial", defende.

Por isso, a Kiala quer estar presente no mercado editorial tradicional, e não criar apenas um circuito paralelo para autores negros. O objetivo é “normalizar a ideia de entrar numa livraria portuguesa e encontrar autores negros, de diferentes países, diferentes géneros e diferentes perspetivas, sem que isso seja visto como algo excecional”.

A própria chancela admite que poderá ser vista como uma editora de nicho — e até como uma editora racista. “As perceções são muitas, mas a mim não me cabe policiar o que as pessoas acham da Kiala. Cabe-me apenas publicar livros de autores negros”, frisa.

A mesma preocupação com a representação estende-se à equipa que produz os livros. Revisores, tradutores, designers e outros profissionais têm de cumprir critérios de qualidade, mas a Kiala procura também incluir profissionais negros. A fundadora entende que esses profissionais existem em Portugal, embora tenham “um acesso mais dificultado, porque efetivamente há muito poucos a trabalhar ativamente com editoras”.

A Kiala não é a precursora deste tipo de projetos. A nível internacional, Elga Fontes menciona, por exemplo, a New Beacon, uma editora e livraria que só publica autores negros, no Reino Unido. No Brasil, há a Malê, que edita literatura afro brasileira. Nos Estados Unidos, a Black Classic Press que só publica clássicos da literatura de autores negros. No coração de Paris, a Présence Africaine Editions, criada em 1949 com o objetivo de fornecer aos pensadores, escritores e investigadores de África e da diáspora, “uma caixa de ressonância” para que as suas produções literárias e científicas, conheçam melhores condições de difusão e acessibilidade em todo o mundo.

“Existem muitas pessoas que fizeram este trabalho muito antes da existência da Kiala. Acredito que a Kiala existe por causa desse trabalho e por causa dessas pessoas”, refere Elga Fontes.

Crescer sem perder a missão

A dimensão da Kiala continua, por enquanto, a ser pequena. Em 2026 serão publicados dois livros e, em 2027, a previsão é aumentar para três. O catálogo de 2027 já está fechado e será composto exclusivamente por ficção. Para 2028, a editora pretende publicar autores portugueses.

A ambição, detalha, não é tornar-se uma grande editora a qualquer custo, mas construir um catálogo de referência e demonstrar que é possível conciliar qualidade editorial, sustentabilidade económica e “subsistir com uma aposta em autores negros”.

“Gostaríamos, claro, de receber o retorno do investimento que fazemos nos nossos livros”, diz Elga Fontes. “Isso para nós já seria perfeito para conseguirmos continuar a publicar cada vez mais.”

Entre os principais obstáculos estão a distribuição, os custos de produção, o preço do papel e a reduzida dimensão do mercado português. A editora aponta ainda para o custo de vida e para os hábitos de leitura do país como fatores que tornam particularmente difícil a sustentabilidade de editoras independentes.

“Nos hábitos de leitura, embora tenham crescido muito nos últimos anos, continuamos a ser um dos países que menos lê a nível europeu. Daí os livros terem de ser mais caros, porque as editoras têm de conseguir receber o lucro, têm de conseguir subsistir, têm de pagar aos trabalhadores, têm de pagar a produção dos livros”, justifica.

Apesar das dificuldades, há uma meta que considera mais importante do que o crescimento da própria Kiala: chegar ao dia em que a chancela deixe de ser necessária.

“Eu gostava muito que a ideia da Kiala se tornasse obsoleta, desnecessária, ridícula”, afirma. Para isso, bastaria que o trabalho da editora conseguisse incentivar outras editoras e projetos editoriais a apostar mais em autores negros.

Até lá, a Kiala continuará a procurar vozes que, segundo a sua fundadora, ainda não têm espaço suficiente nas livrarias portuguesas. Uma das ausências que mais a surpreende é a de Octavia E. Butler, autora afroamericana considerada uma referência da literatura de ficção científica, cujos livros só há poucos anos começaram a ser publicados em Portugal.

A ideia, no fundo, é que autores negros deixem de ser uma exceção no catálogo das livrarias. E que possam ser lidos simplesmente pelo que escrevem, seja sobre identidade, fantasia, humor, ficção científica, família ou qualquer outro tema. “Há muitos livros de autores negros que não são sobre racismo, e ainda bem”, remata Elga Fontes.

As sugestões de leitura de Elga Fontes

  • Lendários, de Tracy Deonn, editado pela Desrotina, em outubro de 2022
  • A Outra Metade, de Brit Bennett, editado pela Alfaguara Portugal, em junho de 2021
  • A Cama Onde Elas Se Deitam, deFaridah Àbike-Íymídé, editado pela Desrotina, em maio de 2024
  • Encontrar-me, de Viola Davis, editado pela Cultura Editora, em agosto de 2024
  • Irmãs Brown, de Talia Hibbert, coleção editada pela Desrotina
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