Estaleiro de Gdansk, onde Lech Wałęsa liderou as greves que precipitaram a queda do comunismo e a transição democrática da Polónia, passa por nova transformação. Promotores privados estão a convertê-lo em habitação e espaços empresariais.
Adriana Majdzińska, artista e professora na Academia de Belas-Artes de Gdańsk, dirige um ateliê de arte chamado WL4 no estaleiro, em conjunto com o marido, o escultor e ceramista doutor Czesław Podleśny. Espera que isso contribua para preservar o legado cultural e histórico do local. O próprio Podleśny cria as suas esculturas de figura humana a partir de peças de navios enferrujadas.
“A WL4 é um grupo de artistas independentes, não ligados a qualquer instituição, para quem a arte é o valor máximo. No nosso círculo há tanto criadores já reconhecidos como outros que estão a iniciar o seu percurso artístico, a trabalhar em diferentes áreas da arte. A diversidade é a nossa força”, lê-se num comunicado publicado no site da Art Space.
A iniciativa já organizou exposições, simpósios, oficinas, concertos e performances. Entre os convidados esteve o próprio Lech Wałęsa, galardoado com o Prémio Nobel da Paz e antigo presidente da Polónia.
Mas a promotora imobiliária polaca Develia assinou um acordo para comprar o terreno onde o coletivo está instalado e construir 3 000 apartamentos, deixando os artistas receosos de que a WL4 possa vir a ser obrigada a abandonar o local.
“Claro que esperamos e contamos que o novo proprietário, uma grande empresa de promoção imobiliária polaca, seja favorável à cultura e à arte. Mas isso pode não acontecer e, nesse caso, teremos de deixar este lugar”, afirmou à Euronews Adriana Majdzińska, professora na Academia de Belas-Artes de Gdańsk e cofundadora da WL4.
Piotr Grzelak, vice-presidente da câmara de Gdańsk, sublinha o papel importante da WL4.
“Não consigo imaginar transformar esta parte da cidade sem preservar o seu património e o espírito de solidariedade, nem o estaleiro como um todo – isso é também uma vantagem competitiva para um investidor. A WL4 é uma galeria excecionalmente importante para o modo como esta zona da cidade funciona”, afirmou o responsável à Euronews.
Uma agência de relações públicas que representa a Develia considera que, nesta fase, ainda é cedo para comentar a utilização futura de cada edifício, garantindo que a empresa irá trabalhar com as autoridades locais de forma a respeitar o carácter e a história da zona.
Grzelak acrescenta que o diálogo deve fazer parte da solução, tal como aconteceu na transição da Polónia para a democracia.