Vendas internacionais em alta: "Michael" abre com 217,4 milhões de dólares, recorde para um biopic musical, apesar da produção difícil, más críticas e acusações de branquear o legado do Rei da Pop.
Michael, a primeira biografia cinematográfica de Michael Jackson oficialmente autorizada, ultrapassou as más críticas e uma produção muito atribulada para estrear com 97 milhões de dólares nos cinemas dos Estados Unidos e do Canadá, segundo estimativas do estúdio, batendo o recorde de estreia para biopics musicais
Co-produzido pelo espólio de Jackson, Michael superou largamente as expectativas (as previsões apontavam para um máximo de 70 milhões) e deixou para trás anteriores campeões de bilheteira do género, como Straight Outta Compton (que em 2015 abriu com 60,1 milhões de dólares) e Bohemian Rhapsody (51 milhões em 2018)
As receitas internacionais também foram fortes: Michael arrecadou 120,4 milhões de dólares nos mercados externos, para um total de 217,4 milhões de dólares a nível mundial na estreia – um novo máximo para um biopic musical
“Desde o início, todos os sinais indicavam que algo deste género era possível”, afirmou à Associated Press o presidente da Lionsgate, Adam Fogelson. “Estávamos a ver um envolvimento massivo de todos os segmentos de público imagináveis.”
O filme já estreou na maior parte do mundo, com uma exceção de peso: o Japão, onde chega em junho.
Michael teve um orçamento próximo dos 200 milhões de dólares, o que o torna um dos biopics mais caros de sempre. Tendo em conta o impressionante fim de semana de estreia, há fortes probabilidades de ultrapassar Bohemian Rhapsody como biopic musical mais lucrativo de sempre, que somou um total de 910 milhões de dólares em todo o mundo.
As críticas a Michael têm sido maioritariamente negativas, com até alguns membros da família Jackson a oporem-se ao filme – nomeadamente a irmã de Michael, Janet Jackson, e a filha, Paris, que o descreveu como “fantasy land” - "terra da fantasia" em tradução literal.
Na nossa crítica, descrevemos Michael como “uma desculpa sem drama, formulaica e controlada pelo espólio para vender mais álbuns” e “tão asséptico que se torna quase translúcido”.
“Independentemente do que se pense do homem por detrás do ícone, e mesmo que se seja suficientemente generoso para dar a este projeto o benefício da dúvida acreditando, ingenuamente, que os lados mais sombrios da vida de Jackson poderiam ser explorados num segundo capítulo planeado (sugerido no final com o cartão ‘His story continues’), Michael continua a funcionar apenas como uma hagiografia insultuosamente descarada. Apaga tudo da sua história de juventude que possa ser considerado polémico, incluindo as alegações de violência por parte do pai, Joe (Colman Domingo), os primeiros contactos com o sexo ou a crescente dismorfia corporal ligada ao impacto que a fama e o trauma tiveram nele”.
A rodagem do filme foi marcada por problemas pouco comuns. Após o fim das filmagens, os produtores aperceberam-se de que tinham cometido um erro dispendioso: o terceiro ato concentrava-se nas acusações de Jordan Chandler, então com 13 anos, a quem Jackson pagou 23 milhões de dólares num acordo extrajudicial em 1994. Os termos desse acordo impedem o espólio de Jackson de alguma vez mencionar Chandler num filme.
Uma parte significativa da longa-metragem foi cortada e rodada de novo, numa operação que poderá ter custado até 50 milhões de dólares, totalmente suportados pelo espólio. O realizador Antoine Fuqua e o argumentista John Logan refizeram o filme para que terminasse em 1988, antes de qualquer acusação.
James Safechuck, um dos acusadores no documentário Leaving Neverland, de Dan Reed (2019), publicou uma mensagem de apoio aos sobreviventes de abuso sexual infantil por ocasião da estreia de Michael. Safechuck alegou que foi vítima de abusos sexuais por parte de Jackson quando era criança.
“O filme Michael está a sair, está a ter muita promoção, há cartazes, anúncios e pessoas a elogiar o Michael”, afirmou num vídeo partilhado com a revista Rolling Stone (fonte em inglês). “Isto pode ser desencadeador para sobreviventes que têm o seu próprio ‘Michael’ nas suas vidas, seja o padre tido como próximo de Deus, o treinador desportivo que só está a ajudar as crianças ou o padrasto ou a madrasta que apoiam a família”, acrescentou. “Os nossos agressores são por vezes elogiados, mesmo depois de contarmos a verdade.”
“Queria apenas que soubessem que não estão sozinhos, que há outros sobreviventes que compreendem o que estão a passar e que estão convosco. E que, se estiverem a sentir todas estas emoções, se apoiem nas pessoas que vos são próximas, nas pessoas que vos apoiam e vos dão amor, e saibam que não estão sozinhos”, continuou.
Acrescentou ainda: “Dizer a verdade e contar o que aconteceu é algo positivo e faz parte da vossa cura.”
Reed também questionou o facto de o novo biopic não abordar as alegações de abuso contra Jackson.
“Isso mostra que as pessoas não se importam com o facto de ele ser um abusador de crianças. Literalmente, as pessoas simplesmente não se importam”, afirmou. “Creio que muita gente adora a música dele e faz ouvidos moucos. E, a menos que surgissem provas em vídeo de Michael Jackson envolvido em relações sexuais com uma criança de sete anos, não sei o que seria suficiente para mudar a opinião dessas pessoas.
Acrescentou: “Como se pode contar uma história autêntica sobre Michael Jackson sem sequer mencionar que foi seriamente acusado de abuso sexual de menores?”.