O debate cultural em torno de “The Odyssey”, de Christopher Nolan, prossegue, com Joyce Carol Oates a defender o filme após crítica dura da tradutora Emily Wilson, que escreveu não ter “nada de convincente a dizer”.
The Odyssey, de Christopher Nolan, é oficialmente o quarto filme mais lucrativo de 2026, tendo ultrapassado a barreira dos 700 milhões de dólares nas bilheteiras mundiais ao fim de pouco mais de duas semanas nas salas de cinema.
Enquanto o público continua a acorrer às salas para ver a leitura de Nolan do poema épico de Homero, o filme tornou-se um verdadeiro foco de polémica cultural. Despertou um interesse renovado pelo texto original e pela cultura grega, um efeito positivo atenuado pelo facto de Elon Musk se ter colocado contra o filme desde o início, alimentando uma guerra cultural em torno do elenco diverso da produção.
Chegou mesmo a anunciar que a sua ferramenta de IA Grok Imagine iria produzir uma longa-metragem “historicamente precisa” baseada no texto de Homero.
Há ainda puristas que ficaram frustrados com a forma como Nolan trabalhou o material de origem – em particular o uso de inglês contemporâneo.
Uma crítica recente veio da tradutora britânico-americana Emily Wilson, cuja tradução de 2017 do poema de Homero foi a primeira versão em verso inglês assinada por uma mulher. Wilson escreveu uma crítica viral para a London Review of Books em que atacou o filme de Nolan, afirmando que lhe falta “profundidade psicológica, emocional, política e ética” e que “não tem nada de convincente a dizer”.
Wilson resumiu a sua posição assim: “Ter-me-ia envergonhado escrever qualquer parte deste argumento.”
Agora, a escritora norte-americana Joyce Carol Oates saiu em defesa de The Odyssey, contestando a linguagem e o tom de Wilson, que descreve como de “desprezo e altiva superioridade”.
“Em vez de discordar das interpretações de Homero de forma colegial, esta pessoa, que beneficiou enormemente do filme de Nolan, fala na linguagem crua de apoiantes MAGA que atacam alguém com ideias diferentes das suas”, escreveu Oates na plataforma X. “Esperar-se-ia de uma tradutora, precisamente alguém ligada a um texto, ao serviço de um texto, que fosse um bocadinho mais ponderada e respeitosa em relação a outros que agem de boa fé, tal como (ela afirma) agir.”
Nolan já tinha elogiado Wilson pela sua tradução do texto antigo, dizendo à revista Empire (fonte em inglês) que utilizou a frase inicial da sua versão, “Tell me about a complicated man”, como inspiração ao desenvolver o papel de Matt Damon como Odisseu.
Oates, que venceu o National Book Award, foi finalista do Prémio Pulitzer quatro vezes e é sobretudo conhecida pelos livros “Blonde” e “We Were Mulvaneys” (ambos adaptados ao cinema), acrescentou em publicações separadas na plataforma X que recomenda vivamente a adaptação de Nolan e que não é fã da tradução de Wilson.
“O que li da tradução de Emily Wilson não era para mim”, escreveu (fonte em inglês), acrescentando que parte do princípio de que foi “deliberadamente escrita para agradar a um público confortável com a frontalidade típica de YA (young adult) e com um vocabulário mais reduzido – ou seja, com a intenção de ser comercial, adotada por turmas do ensino secundário”.
“Com uma linguagem mais poética, mais elevada, está-se naturalmente a limitar o público”, continuou a autora, que sublinhou não haver nada de errado numa abordagem direta e comercial. “Porque não lucrar com uma obra clássica não protegida por direitos de autor? Uma novela gráfica de ‘The Odyssey’ também podia ser fantástica.)”
Oates reagiu igualmente às críticas ao diálogo moderno do filme.
“A tradução mais elegante de The Odyssey é a de Daniel Mendelsohn; é ‘poética’, cada palavra escolhida com cuidado e precisão; é bela, melódica, mas se essa tradução tivesse sido usada no filme de Nolan as acusações não seriam de que a linguagem é banal ou aborrecida, mas sim de que é demasiado elevada, ‘poética’. Não penso que o filme de Nolan venha a ser considerado um grande clássico, mas, sinceramente, parece que qualquer coisa que Nolan fizesse iria desiludir hordas de pessoas. A maioria dos cineastas/criadores faz apenas o melhor que consegue – é estranho que este realizador tenha suscitado críticas tão iradas.”
A autora salientou também que esse tipo de crítica “é arrepiante, desencorajadora para qualquer artista criativo. Atacar um artista criativo como se fosse um criminoso, como se tivesse feito algo para prejudicar, magoar, matar – isto é alarmante. Se detesta um filme, tudo bem – não precisa de o recomendar. Ninguém espera que todas as obras de arte sejam clássicos, perfeitas… A raiva parece simplesmente estranhamente deslocada.”
Disse ainda que “recomendaria vivamente tanto o filme de Nolan como a minissérie de 1997 coproduzida por Francis Coppola”.
Enquanto o debate continua aceso, The Odyssey deverá manter a trajetória rumo à fasquia de mil milhões de dólares nas bilheteiras globais – ainda que se espere uma quebra nos números agora que Spider-Man: Brand New Day (que também conta com elementos do elenco de The Odyssey, como Tom Holland, Zendaya e Jon Bernthal) já chegou às salas.
Leia a crítica completa de Euronews Culture a The Odyssey aqui, veja em que lugar fica na nossa classificação da filmografia de Nolan e na lista dos Melhores Filmes de 2026 até agora. E, depois de toda essa leitura, descubra o que pensamos de Spider-Man: Brand New Day aqui.