Do Royal Court ao Teatro Nacional, Gill encenou quase uma centena de produções e escreveu algumas das peças modernas britânicas mais aclamadas.
Morreu na segunda-feira, aos 86 anos, o dramaturgo galês Peter Gill, cujos dramas intimistas e produções inovadoras fizeram dele uma das figuras de referência do teatro britânico.
Nascido em Cardiff, em 1939, Gill tornou-se um dos encenadores mais aclamados do país, além de autor de várias obras muito reconhecidas, entre as quais “The York Realist” e “Small Change”.
Gill iniciou a carreira como ator no Royal Court, em Londres, em 1958, com 18 anos. Mais tarde integrou a Royal Shakespeare Company, onde interpretou Silvius na célebre encenação de Michael Elliott de “As You Like It”.
Com dúvidas sobre o seu futuro como ator e encorajado pelo diretor artístico do Royal Court, George Devine, passou à encenação.
Em 1965, dirigiu “A Collier’s Friday Night”, de DH Lawrence. A produção lançou a carreira de Gill como encenador e marcou o início de uma ligação para toda a vida à obra de Lawrence.
Ao recuperar peças como “The Daughter-in-Law” e “The Widowing of Mrs Holroyd”, Gill contribuiu para apresentar a gerações de públicos alguns dos textos mais esquecidos do romancista.
Ao longo da carreira, viria a encenar cerca de 100 peças.
A influência de Gill estendeu-se muito para lá da sala de ensaios. Em 1976, tornou-se o primeiro diretor artístico dos Riverside Studios, na zona oeste de Londres, onde encenou as suas próprias produções, apresentou trabalhos de companhias de teatro internacionais e criou oficinas para desenvolver atores.
Depois de se juntar ao National Theatre como diretor associado, em 1980, Gill fundou, em 1984, o National Theatre Studio, um espaço que dava aos artistas liberdade para experimentar e desenvolver produções longe da pressão da apresentação pública.
Gill era igualmente respeitado como dramaturgo. Inspirando-se na sua infância católica de classe operária em Cardiff, explorou temas como família, classe social e sexualidade, encontrando muitas vezes o drama em vidas aparentemente comuns.
Entre as suas peças mais conhecidas contam-se “The Sleepers Den”, “Small Change” e “Kick for Touch”, mas “The York Realist” – a aclamada peça de 2002 sobre a relação entre um agricultor de Yorkshire e um encenador de teatro londrino – continua a ser a mais celebrada.
Foi distinguido com o título de OBE, em 1980, pelos serviços prestados ao teatro, e mais tarde refletiu sobre a sua carreira em “Apprenticeship”, o livro de memórias publicado em 2008.
Em homenagem ao dramaturgo, a sua agente Mel Kenyon afirmou que o seu trabalho tinha “uma rara subtileza emocional” e era “meticulosamente observado e afinado”.
Kenyon descreveu-o como “um homem gentil, de inteligência feroz”, acrescentando: “Sempre que falávamos, eu saía mais sábia. Ensinou-me tanto apenas por ser quem era. Era um homem singular, um homem bondoso, generoso e curioso. Vai fazer-me muita falta.”
O encenador Michael Grandage classificou o contributo de Gill para o teatro britânico como “discretamente sísmico”.
“As gerações futuras que descobrirem a obra de Peter vão encontrar algumas das melhores peças escritas nos últimos 70 anos, com, sem dúvida, alguma da mais bela prosa em língua inglesa”, afirmou.
Gill deixa sobrinhas e sobrinhos.