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França culpa alterações climáticas pelo declínio do setor do vinho; arrancar vinhas é solução?

Trabalhador cuida de vinha em Provença, no sul de França, sexta-feira, 11 de outubro de 2019
Trabalhador cuida de uma vinha na região da Provença, no sul de França, sexta-feira, 11 de outubro de 2019. Direitos de autor  Copyright 2019 The Associated Press. All rights reserved
Direitos de autor Copyright 2019 The Associated Press. All rights reserved
De Liam Gilliver
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França diz estar «determinada» a salvar a indústria do vinho da crise que afeta o sector, mas poderá o plano sair pela culatra?

França pediu ajuda à União Europeia depois de anunciar fundos adicionais para tentar salvar a sua indústria do vinho “em deterioração”.

No início da semana, o Ministério da Agricultura francês confirmou a afetação de 130 milhões de euros para financiar um novo plano permanente de arranque de vinhas, destinado a “reequilibrar a oferta” e “restabelecer a viabilidade” das explorações em dificuldades nas regiões mais vulneráveis.

O processo consiste em arrancar as videiras e as suas raízes do solo, normalmente com equipamento especializado, como um arado profundo, e pode custar cerca de 1 000 euros por hectare.

A ministra Annie Genevard pediu ainda ao comissário europeu para a Agricultura e Alimentação, Chrisophe Hansen, que financie a destilação de crise dos excedentes não comercializáveis. Trata-se de transformar o excesso de oferta em álcool para fins industriais, em vez de consumo.

França: causas da crise nas vinhas

Genevard afirma que o país, um dos maiores produtores mundiais e detentor de 11% das vinhas a nível mundial, enfrenta “de forma consistente” uma crise há vários anos.

Num comunicado de 24 de novembro, apontou para três fatores, incluindo “fortes tensões geopolíticas”.

Isto surge após Donald Trumpter ameaçado, no início do ano, impor direitos aduaneiros de 200% sobre o álcool europeu, medida rapidamente revertida. Meses depois, foi anunciada uma tarifa de 15% sobre as exportações para os Estados Unidos, um mercado crucial para o vinho francês.

Especialistas receiam que as tarifas, combinadas com as taxas de câmbio, possam reduzir as receitas anuais de vendas de vinhos e espirituosas franceses em cerca de 1 000 milhões de euros.

A queda continuada do consumo de vinho, sobretudo dos vinhos tintos, também contribui para a crise das vinhas em França. No ano passado, o consumo mundial de vinho caiu para o nível mais baixo em mais de 60 anos, e vários inquéritos indicam que a Geração Z (nascidos entre 1997 e 2021) está a afastar-se por completo do álcool.

A agravar, Genevard defende que o setor tem sido penalizado pelasalterações climáticas, que “têm afetado repetidamente as vindimas” nos últimos anos.

“Este novo esforço financeiro significativo, apesar de um contexto orçamental particularmente difícil e sujeito à aprovação do orçamento, demonstra a determinação do governo em salvar, a longo prazo, a nossa indústria do vinho e permitir-lhe recuperar”, afirma a ministra.

“Não é mais um plano de emergência para corrigir um desequilíbrio estrutural; é um investimento no nosso setor do vinho e nos agricultores destas zonas de produção.”

Arranque de vinhas: o que é

Arrancar vinhas não é novidade. Terá começado no século I, quando o imperador romano Domiciano ordenou o arranque de 50% das videiras na Gália (antiga região da Europa Ocidental que corresponde, grosso modo, à França atual), por recear a concorrência aos vinhos romanos.

Desde então, foram várias as ocasiões em que se introduziram subsídios ao arranque de vinhas, hoje visto como uma medida mais económica do que destilar ou armazenar excedentes.

“Os problemas de hoje são a sobreprodução de vinho e uma forte quebra no consumo, sobretudo nos vinhos tintos, principalmente no segmento de entrada”, diz à Euronews Green Pierre Metz, sócio da propriedade vitícola Domaine Alain Chabanon, em Terrasse du Larzac, sul de França.

“Os consumidores mais jovens tendem a beber menos vinho, o que leva os vendedores a baixarem preços e, por consequência, pressiona os preços à saída do produtor.”

Metz explica que os produtores recebem agora cerca de 0,80 euros por litro de Bordéus “genérico”.

“A solução proposta pelos grupos de pressão dos produtores é reduzir a produção”, acrescenta.

“Uma vinha improdutiva continua a exigir gastos de manutenção para evitar a propagação de doenças, havendo mesmo coimas a pagar se a vinha não for mantida.”

Há duas formas de arrancar vinhas: de modo permanente ou temporário. A segunda permite aos proprietários replantar com castas resistentes ao calor, adaptando-se à subida das temperaturas, mas reduz a produção durante alguns anos.

Risco de incêndios florestais

O arranque permanente de vinhas acarreta riscos próprios, incluindo perturbações na vida selvagem e entraves à prevenção de incêndios florestais.

A Europa enfrenta mais incêndios florestais do que nunca, à medida que as secas e a subida das temperaturas, impulsionadas pelas alterações climáticas, tornam muitas regiões do continente mais vulneráveis. Segundo a Comissão Europeia, a área em risco de incêndios em França deverá aumentar 17% até 2040.

No entanto, vinhas bem cuidadas podem fazer parte da solução, já que a investigação mostra que talhões de vinha podem funcionar como “corta-fogos”, criando descontinuidades no combustível e abrandando a propagação das chamas.

“Estudos em zonas propensas a incêndios mostram que os fogos muitas vezes param na margem de vinhas bem cuidadas, desde que o espaço entre linhas não esteja tomado por vegetação inflamável”, acrescenta o departamento de agricultura e desenvolvimento da UE.

Metz explica que o risco de incêndios pode ser mitigado com a plantação de sebes, o lavrar para controlar a vegetação espontânea e a manutenção regular. Porém, isso implica custos elevados que as vinhas que optam pelo arranque podem não conseguir suportar.

O arranque pode também abrir espaço para os agricultores cultivarem hortícolas e cereais, mas a maioria prefere deixar o terreno em pousio, porque também aqui há custos iniciais.

Como as alterações climáticas afetam a indústria do vinho

“As alterações climáticas são um tema diário para quem tem vinhas”, diz Metz, apontando para a “multiplicação” de períodos de calor alimentada pelo aquecimento global.

Este verão, várias partes de França estiveram emalerta de calor elevado, com temperaturas a chegarem aos 43 ºC em partes de Charente e Aude. O calor extremo foi identificado como motor de um grande incêndio que queimou 160 quilómetros quadrados em Aude.

“Esta sucessão de ondas de calor cria também um problema de água, com menos precipitação e reservas aquíferas cada vez mais baixas”, acrescenta Metz. “Algumas grandes zonas de produção só conseguem sobreviver com rega, que se torna mais e mais cara com a falta de água.”

Em junho, a Agência Europeia da Seca classificou um terço da Europa como estando em condições de seca, com 10% do continente em estado de crise. Em França, mais de 300 000 residentes de comunas viram os seus abastecimentos de água perturbados.

Ao contrário dos produtores em massa, Metz opta por não regar as vinhas nem usar fertilizantes, o que, diz, obriga a planta a “usar o instinto de sobrevivência” e força as raízes a procurarem água subterrânea.

Defende que bons viticultores não precisam de proteção e devem ser capazes de se adaptar ao ambiente em mudança.

“A verdadeira ajuda seria incentivar o aumento da qualidade, reduzindo o rendimento por hectare”, acrescenta Metz, argumentando que o arranque de vinhas será “uma gota de água em pedra quente para a maioria dos produtores”.

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