Tomar suplementos vitamínicos diários pode ajudar a abrandar o envelhecimento biológico, mas especialistas alertam que não substituem uma dieta saudável nem o exercício
Um novo estudo indica que tomar um suplemento multivitamínico diário pode ajudar a abrandar o envelhecimento biológico, embora os especialistas alertem que não se trata de uma solução milagrosa e sublinhem a importância do exercício físico e de uma alimentação equilibrada.
Os investigadores concluíram que tomar um multivitamínico diário durante dois anos atrasou o processo de envelhecimento em cerca de quatro meses.
"Há hoje um grande interesse em encontrar formas não só de viver mais tempo, mas de viver melhor", afirmou Howard Sesso, autor sénior do estudo no Mass General Brigham, nos Estados Unidos.
Acrescentou que os resultados, publicados na Nature Medicine (fonte em inglês), abrem caminho para perceber melhor intervenções acessíveis e seguras que contribuam para um envelhecimento mais saudável e com melhor qualidade.
A maioria das pessoas não obtém, através da alimentação, micronutrientes em quantidade suficiente, sobretudo iodo, vitamina E, cálcio e ferro.
As formulações multivitamínicas-multiminerais (MVM) estão entre os suplementos alimentares mais comuns, assinala o estudo. Costumam fornecer uma combinação de vitaminas e minerais essenciais para atingir as doses diárias recomendadas e reduzir o risco de carências nutricionais.
Como envelhece o corpo
O corpo envelhece a dois ritmos: a idade cronológica, que mede a passagem do tempo, e a idade biológica, que reflete quão velho está o organismo em função da sua saúde e do seu funcionamento.
A idade biológica traduz o desgaste acumulado ao longo do tempo pelas células, tecidos e órgãos, e é influenciada pelo estilo de vida, pelo ambiente e pela genética.
Mede-se analisando a metilação, um pequeno marcador químico no ADN que se altera naturalmente à medida que o corpo envelhece e que pode ajudar a seguir o risco de mortalidade e o ritmo do envelhecimento.
Como foi feito o estudo
Os investigadores analisaram dados de 958 pessoas saudáveis, com uma idade média de cerca de 70 anos. Os participantes foram divididos em quatro grupos: receberam a indicação de tomar diariamente extrato de cacau e um multivitamínico, cacau e um placebo, multivitamínico e placebo, ou dois placebos.
Os resultados mostraram que a suplementação diária com MVM reduziu de forma modesta a taxa de envelhecimento biológico, enquanto o cacau não teve impacto nos marcadores analisados. Os participantes que tomaram o MVM registaram aumentos mais lentos em dois indicadores usados para medir o risco de mortalidade: PCGrimAge e PCPhenoAge.
Os efeitos protetores foram mais evidentes nos participantes que iniciaram o estudo com uma idade biológica superior à idade real.
Sem substituto para a alimentação e o exercício
Embora os autores do estudo considerem que estes resultados abrem caminho a mais investigação sobre o tema, reconhecem que ainda não há provas suficientes de benefícios clínicos claros para a população em geral.
"No conjunto, este trabalho fornece indícios sobre o papel potencial da suplementação multivitamínica no envelhecimento biológico, embora os efeitos observados sejam limitados", afirmou Carmen Romero Ferreiro, da Universidade Francisco de Vitoria, em Espanha, que não participou no estudo.
Acrescentou que, no contexto mais amplo da alimentação e do estilo de vida, estes resultados sugerem que o impacto será provavelmente complementar, integrado em estratégias mais vastas de promoção da saúde e de um envelhecimento saudável, e não uma intervenção isolada.
Pilar Guallar Castillón, docente na Universidade Autónoma de Madrid, recomenda, porém, deixar de tomar multivitamínicos.
"Tenha uma alimentação saudável, variada e rica em fruta e legumes (a principal fonte natural de vitaminas e minerais) e não desperdice o seu dinheiro em suplementos nutricionais", disse, em reação ao estudo, acrescentando que o seu consumo é impulsionado por interesses comerciais sem provas clínicas.