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Enhanced Games: tudo o que aconteceu na noite mais polémica do desporto

Nadador grego Kristian Gkolomeev ergue os troféus durante a cerimónia de entrega de prémios dos Enhanced Games, em Las Vegas, em 24 de maio de 2026
O nadador grego Kristian Gkolomeev exibe os troféus durante a cerimónia de entrega de prémios dos Enhanced Games, em Las Vegas, em 24 de maio de 2026 Direitos de autor  AP Photo
Direitos de autor AP Photo
De Theo Farrant
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91% dos atletas recorreram à testosterona e 79% à hormona de crescimento, mas os recordes do mundo não apareceram. Eis o que aconteceu

Las Vegas é conhecida pelo seu espetáculo exagerado. Os combates de pesos pesados, os mega concertos, a Fórmula 1.

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Mas os Enhanced Games deste domingo à noite – com uma arena construída de raiz na Strip, um elenco de atletas alimentados por um cocktail de substâncias proibidas e a promessa de uma chuva de recordes do mundo pulverizados – podem ter sido o espetáculo mais audacioso e controverso que a cidade alguma vez acolheu.

O evento, apoiado por investidores bilionários como Peter Thiel e Donald Trump Jr., apresentou-se como um novo modelo de desporto: um em que os fármacos para melhorar o desempenho são permitidos, regulados e até celebrados. Um evento para levar o corpo humano ao limite máximo.

Os atletas competiram por 250 mil dólares por cada vitória em prova e um bónus de 1 milhão de dólares por cada recorde do mundo batido.

«Chegámos à cultura dominante», afirmou o diretor executivo dos Enhanced Games, Maximilian Martin. «Viemos para ficar. Mudámos o mundo esta noite.»

Era uma declaração arrojada para um evento que, pelos seus próprios critérios, ficou em grande medida aquém. Os recordes, na maioria dos casos, não apareceram.

O que aconteceu?

A noite trouxe provas de natação, halterofilismo e atletismo. O desempenho mais marcante veio do nadador grego Kristian Gkolomeev, que venceu os 50 metros livres em 20,81 segundos, apenas 0,07 mais rápido do que o recorde mundial homologado estabelecido pelo australiano Cameron McEvoy em março deste ano. Gkolomeev arrecadou o bónus de 1 milhão de dólares por recorde do mundo.

«Isto vai mudar a minha vida para melhor, sem dúvida», disse.

O recorde não contará oficialmente: Gkolomeev recorreu a substâncias proibidas pela WADA e envergou um fato integral de poliuretano também banido, que se acredita proporcionarem cerca de 2% de melhoria no desempenho.

Houve, porém, um outro desafio imediato: detetives amadores no Instagram alegaram que Gkolomeev parecia tocar na parede depois de o tempo de 20,81 já ter surgido no ecrã, lançando dúvidas sobre a precisão da cronometragem.

Os Enhanced Games rejeitaram as acusações como «disparate totalmente infundado que circula na internet», explicando que a cronometragem esteve a cargo da Primetime Timing, descrita como «um sistema reconhecido, reputado, certificado pela ISO, usado em inúmeros outros eventos internacionais e nunca posto em causa».

Fred Kerley, dos Estados Unidos, vence a final dos 100 metros masculinos nos Enhanced Games, em Las Vegas, 24 de maio de 2026.
Fred Kerley, dos Estados Unidos, vence a final dos 100 metros masculinos nos Enhanced Games, em Las Vegas, 24 de maio de 2026. Credit: AP Photo

Na pista, o velocista norte-americano Fred Kerley – que previra publicamente que o recorde do mundo de 9,58 de Usain Bolt seria «destruído» – correu os 100 metros em 9,97 segundos. Para se ter uma ideia, nos Jogos Olímpicos de Paris, há dois anos, Kerley fez 9,81 e conquistou o bronze. Um tempo de 9,97 tê-lo-ia colocado em último nessa final.

Em abono da verdade, a corrida foi interrompida quatro vezes por falsos arranques e por um atacador desapertado. Kerley, que garantiu não ter recorrido a substâncias para melhorar o desempenho, levou na mesma 250 mil dólares por cortar a meta em primeiro. Nada mau para uma noite de trabalho a correr em 9,97.

A velocista barbadiana Tristan Evelyn, também a competir como atleta «limpa», venceu os 100 metros femininos em relativamente modestos 11,25 segundos, antes de afirmar: «Isto prova que ganhar é mais do que química.»

O nadador britânico e vice-campeão olímpico Ben Proud, que tomou várias substâncias, venceu os 50 metros mariposa em 22,32 segundos – a apenas 0,05 do recorde do mundo. «Sabemos todos ao que viemos: bater recordes do mundo. Estar tão agonizantemente perto é frustrante», admitiu.

Tendo em conta que três atletas que disseram competir sem recurso a drogas acabaram por vencer provas, os resultados levantam dúvidas sobre o princípio central dos Enhanced Games: a ideia de que a liberdade farmacológica consegue desbloquear desempenhos sobre-humanos.

Que substâncias foram usadas e como foram administradas?

Os organizadores divulgaram uma lista detalhada das substâncias tomadas pelos atletas participantes ao longo de oito semanas de preparação.

Entre os que recorreram à dopagem, 91% usaram testosterona ou ésteres de testosterona; 79% recorreram à hormona de crescimento humana; 62% tomaram estimulantes como o Adderall; e 41% utilizaram EPO, o fármaco para a resistência há muito associado a escândalos de dopagem no ciclismo.

Os organizadores afirmaram que todos os medicamentos estavam aprovados pela Administração norte-americana de Alimentos e Medicamentos (FDA).

A empresa-mãe dos Enhanced Games vende ao público muitas dessas substâncias e defende que proibi-las limita o potencial dos atletas.

Mas o Comité Olímpico Internacional (COI) e a Agência Mundial Antidopagem (WADA) declararam os resultados ilegais. A World Aquatics classificou o evento como um «circo assente em atalhos».

O que dizem os especialistas em saúde?

A comunidade científica acompanha o fenómeno com uma mistura de alarme e, em alguns meios, curiosidade relutante.

O professor Rob Aughey, responsável pela área de Ciência do Exercício e do Desporto na Federation University Australia, qualificou o evento como «uma manobra perigosa, sem lugar enquanto competição desportiva», alertando que os participantes enfrentam riscos de «hipertensão arterial, crescimento anómalo e perigoso do coração, danos e falência dos rins e do fígado, distensões e ruturas musculares», bem como danos psicológicos, incluindo «dependência, psicose, agressividade, alterações de humor».

A doutora Catherine Norton, professora associada de Nutrição no Desporto e Exercício na Universidade de Limerick, destacou o perigo particular de sobrepor múltiplas substâncias em doses elevadas. «A preocupação aumenta quando se combinam substâncias, muitas vezes em doses muito acima das recomendações terapêuticas, e em ambientes onde a pressão para empurrar constantemente os limites faz parte do próprio modelo.»

Juan Solis, da Colômbia, compete na prova de arranque do concurso de halterofilismo masculino nos Enhanced Games, em Las Vegas, domingo, 24 de maio de 2026.
Juan Solis, da Colômbia, compete na prova de arranque do concurso de halterofilismo masculino nos Enhanced Games, em Las Vegas, domingo, 24 de maio de 2026. Credit: AP Photo

Nem todos defendem, contudo, que os jogos sejam simplesmente encerrados. O professor associado Kagan Ducker, diretor do programa de Ciência do Exercício na Curtin University, apontou uma verdade incómoda.

«Os Enhanced Games são uma oportunidade única para perceber como métodos e substâncias ilegais podem influenciar o desempenho desportivo. Na realidade, não conhecemos verdadeiramente os efeitos de muitas dessas substâncias e métodos ilegais no rendimento, porque regra geral foram banidos do desporto e, por isso, o interesse e a viabilidade de os estudar são menores.»

Ainda assim, sublinhou uma preocupação ética clara: «Oferecer a atletas, muitos dos quais têm rendimentos baixos no desporto, quantias em dinheiro para participar é semelhante a aliciar grupos socioeconómicos mais desfavorecidos para entrarem em estudos em troca de dinheiro – é profundamente antiético, segundo qualquer padrão.»

Normalizar a seringa?

A questão talvez mais relevante levantada por este domingo à noite é o que acontece a seguir. Não em Las Vegas, mas em ginásios, balneários e feeds das redes sociais em todo o mundo.

A doutora Norton identificou a deriva que mais deveria preocupar. «As redes sociais e a cultura do fitness já exercem uma enorme pressão sobre a aparência e o desempenho. Se corpos e prestações ajudados por drogas forem sendo cada vez mais normalizados ou comercializados, isso pode criar expectativas irrealistas para jovens e praticantes recreativos.»

Acrescentou: «Devemos ser prudentes na criação de ambientes em que a saúde fica em segundo plano face à estética, à viralidade ou a resultados de curto prazo. Há um risco real de a perseguição da “otimização” começar a sobrepor-se ao bem-estar.»

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