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O Partido do Cão com Duas Caudas obteve apenas 3,3% dos votos na Hungria

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De  euronews
A campanha do Partido do Cão com Duas Caudas na Hungria
A campanha do Partido do Cão com Duas Caudas na Hungria   -   Direitos de autor  AP Photo

“Não creio que seja importante que outros votem", afirmou Gergely Kovács, presidente do Partido do Cão com duas Caudas (MKKP), antes da ida às urnas para as legislativas húngaras.

Kovács acrescentou que o MKKP estava confiante de que obteria 100% dos votos depois de ter realizado uma "sondagem representativa de um homem só".

Questionado pelos jornalistas sobre o significado da eleição para a Hungria, alegou que a maior ameaça seria a invasão da terra por uma potência galáctica-colonial.

Fundado em 2006, o movimento MKKP, que se tornou mais tarde num partido, tem acompanhado a vida política do país com humor e ironia, face às polémicas que rodeiam o primeiro-ministro Viktor Orban, no poder desde 2010.

Mas será que a brincadeira acabou?

O partido de Orban, o Fidesz, obteve uma vitória estrondosa nas últimas legislativas, o quarto triunfo consecutivo, e garantiu mais uma maioria de dois terços no parlamento.

O MKKP arrecadou apenas 3,3% dos votos, apesar das sondadens que apontavam para possibilidade eleger alguns deputados.

"Lamento, queríamos obter 5%", disse Kovács aos apoiantes do partido na noite das eleições, referindo-se ao limiar percentual necessário para entrar no parlamento da Hungria. Um apoiante resumiu o resultado com sendo "F**king bad".

As desventuras da oposição húngara

Em 2020, o MKKP foi criticado por não se juntar aos seis maiores partidos da oposição para formar uma aliança "tudo-exeto-Orban" e por dividir o voto anti-Orban.

No dia das eleições, um antigo primeiro-ministro, Gordon Bajnai, afirmou que votar MKKP era votar em Orban.

Nas urnas, a aliança da oposição "Unidos pela Hungria" obteve pouco mais de um terço dos votos e elegeu apenas 56 deputados. Em comparação, os diferentes partidos da oposição tinham obtido 63 assentos parlamentares ao concorrerem individualmente às eleições de 2018.

Zsuzsanna Döme, co-presidente do MKKP, afirmou que o seu partido não deveria ser responsabilizado pelo mau desempenho da oposição unida. E acrescentou que a verdadeira questão era saber por que é que eleitores húngaros não votaram nos candidatos da coligação anti-Orban.

Para o presidente do Partido do Cão com duas Caudas, a estrondosa derrota da oposição legitimou a sua escolha de não integrar o partido na aliança.

"Podemos esquecer Péter Márki-Zay como participante na política húngara", referindo-se ao candidato a primeiro-ministro da aliança da oposição. "Mas talvez os outros aprendam a lição".

Breve história dos partidos satíricos na Europa Central

Em 1911, o escritor checo Jaroslav Hašek 911 formou o "Partido do Progresso Moderado Dentro dos Limites da Lei", para ridicularizar o conservadorismo dos políticos em pleno império austro-húngaro.

Em campanha numa eleição local em Praga, Hašek comprometeu-se a reintroduzir a escravatura, nacionalizar os porteiros, e tornar obrigatório o alcoolismo.

Manobras políticas que só regressariam no final do século XX, adiadas pelo horror da Primeira Guerra Mundial e pelas subsequentes invasões de Estados autoritários, a Alemanha nazi e a União Soviética.

Em 1991, dois anos após a queda do comunismo, o Partido dos Amantes da Cerveja, na Polónia, conquistou 16 lugares no parlamento, nas primeiras eleições livres do país em décadas.

O Partido Austríaco da Cerveja, criado em 2014, ganhou 1,8% dos votos num escrutínio em Viena, em 2020.

Um dos partidos mais bem sucedidos na região foi o partido alemão Die Partei ("O Partido") que conseguiu eleger dois deputados para o Parlamento Europeu, em 2019.

Será que a brincar se fala a sério?

À semelhança da campanha de Hašek no início da década de 1910, o MKKP húngaro é conhecido por fazer promessas de campanha rídiculas.

Hasek tinha prometido que cada um dos seus apoiantes iria receber "um pequeno aquário de bolso", enquanto as promessas do MKKP incluiam “um por-do-sol duas vezes por dia”. Seguindo a tradição dos partidos satíricos da Europa Central, o MKKP prometeu que todos os eleitores receberiam cerveja grátis para sempre em caso de vitória eleitoral.

Kristof Horvath, estudante de doutoramento no King's College, em Londres, fez um estudo etnográfico do MKKP e considera que se trata de “um partido profundamente "sério".

"É mais correto considerá-lo como um partido com objetivos políticos sérios que é divertido e usa o humor como um instrumento político", explicou Horvath.

"A única escolha sensata" diz o slogan do partido. O MKKP assume-se como liberal na maioria das questões.

Durante o auge da crise migratória de 2015, quando o governo húngaro foi criticado por construir vedações para afastar os refugiados, o MKKP organizou uma campanha publicitária que proclamava: "Venham para a Hungria por todos os meios, já estamos a trabalhar em Londres"!

"A marijuana não será legal na Hungria a partir de amanhã"

Em 2018, o partido deu que falar ao obter 99410 votos, ou seja, 1,7% do total, tendo ficado em sétima lugar. Nas eleições para o Parlamento Europeu no ano seguinte, obteve 2,6% do total dos votos.

Alguns membros do partido conseguiram chegar a posições de poder. Döme, co-presidente do partido, é vice-presidente da freguesia de Ferencváros e vários membros do MKKP são representantes em assembleias locais.

Vários espaços públicos, em toda a Hungria, foram renovados e redecorados pelo MKKP, afirmou Horvath, e, em termos práticos, "o MKKP teve um impacto maior nos últimos doze anos do que muitos dos partidos que integram o parlamento".

O MKKP fez campanha com um programa bastante detalhado que defendia reformas nos contratos públicos, maior transparência, e a legalização do uso medicinal e recreativo da marijuana.

"É uma pena não termos entrado no parlamento, a marijuana não será legal na Hungria a partir de amanhã", afirmou Kovács aos jornalistas.