A Euronews falou com Patrick de Bellefeuille, um proeminente apresentador canadiano de meteorologia e especialista em clima, sobre como a Europa pode beneficiar da longa experiência do Canadá com tempestades de neve.
A Europa tem estado a braços com a tempestade Goretti, que trouxe neve pesada e condições de gelo a muitas regiões do continente. Esta semana, mais de 10 pessoas morreram em acidentes relacionados com as condições climatéricas em toda a Europa e a Alemanha está agora a enfrentar nevões de até 20 cm — que os caminhos-de-ferro estatais do país descreveram como um dos eventos climatéricos mais graves dos últimos anos. Na região de Paris, as autoridades foram obrigadas a retirar 10.000 autocarros das estradas em 1.900 linhas. Muitas famílias ficaram sem eletricidade, o tráfego aéreo foi gravemente perturbado e os serviços ferroviários foram suspensos de forma crítica. Apesar da Europa ter menos tempestades de neve do que o Canadá, os europeus são geralmente maus a antecipá-las?
Patrick de Bellefeuille: Antes de mais, as previsões meteorológicas fazem parte do quotidiano dos canadianos, sobretudo no Quebeque e em Montreal. As pessoas consultam-nas a toda a hora, por isso não ficamos surpreendidos quando chega a neve - sabemos de antemão. Mas também é evidente que as pessoas estão bem equipadas aqui. Por exemplo, todas as casas têm um balde de agente descongelante. Se estiver gelo nos degraus ou na entrada da garagem, temos o descongelador pronto. Nos nossos carros, todos levamos uma pá e um sistema de bateria que pode ser ligado ao isqueiro se precisarmos de energia. Também temos líquido para lavar o para-brisas e produtos de degelo. Ter este equipamento é normal para os canadianos, faz parte da vida quotidiana.
Quais são as principais "boas práticas" canadianas para lidar com uma forte queda de neve?
Patrick de Bellefeuille: As autoridades municipais também se preparam com antecedência. Sabem quando estão a chegar as tempestades de neve ou as chuvas geladas. Quanto aos descongelantes ou abrasivos utilizados nas ruas e passeios, há diferentes tipos, dependendo das condições. Por exemplo, se tiver caído neve e as temperaturas descerem abaixo de -15 °C, utiliza-se areia e gravilha. Quando as temperaturas estão ligeiramente abaixo de zero, é aplicado um abrasivo à base de sal que derrete o gelo. As autoridades planeiam cuidadosamente e adotam medidas preventivas sempre que possível.
Certo, mas o que vimos esta semana em Bruxelas e noutras cidades foi uma tempestade de neve que causou enormes perturbações, como se a neve pesada não tivesse precedentes. As escolas fecharam, o trânsito foi caótico, houve acidentes, pessoas escorregaram... parecia uma falta de preparação.
Patrick de Bellefeuille: Aqui no Quebeque, temos uma lei que exige pneus de inverno de 1 de dezembro a 15 de março - é obrigatório (...). Isso resolve um grande problema. Também temos cinco "dias de neve" no nosso sistema escolar, em que as crianças não vão à escola se as estradas não forem seguras. As decisões são tomadas com base nas condições das estradas: as crianças podem ir em segurança nos autocarros escolares? Se for demasiado perigoso, é declarado um dia de neve. No final do ano letivo, se forem utilizados menos de cinco dias de neve, os dias lectivos são ajustados em conformidade.
O tráfego aéreo, rodoviário e ferroviário também está a sofrer grandes perturbações no Canadá? Nos Países Baixos, a neve e os ventos fortes provocaram o cancelamento de mais de 700 voos no aeroporto de Schiphol, em Amesterdão.
Patrick de Bellefeuille: Sim, mas aqui os fenómenos meteorológicos são frequentes. Eu tenho tempestades de neve quase contínuas durante quatro meses. Estamos mais bem organizados por necessidade. Por exemplo, no aeroporto de Montréal, o sistema de degelo dos aviões é extenso. Podemos descongelar três ou quatro aviões de cada vez. As condições meteorológicas têm de ser muito rigorosas para que os voos sejam cancelados. Podem ocorrer atrasos, mas os cancelamentos são raros, pois há sistemas para desobstruir as pistas. Temos tractores com escovas rotativas na frente que literalmente raspam o asfalto para remover as impurezas e evitar que os aviões deslizem. Alinham-se quatro ou cinco tractores lado a lado e limpam as pistas continuamente. Esta preparação é normal aqui porque as tempestades de neve são frequentes, mas sei que em Bruxelas, que só as tem duas ou três vezes por ano, este tipo de equipamento pode não estar disponível.
Acha que há erros que as pessoas devem evitar durante uma tempestade de inverno?
Patrick de Bellefeuille: Em primeiro lugar, se não tiver de sair, fique em casa — é mais seguro. Se tiver de conduzir, reduza a velocidade e permita maiores distâncias de travagem. Nos passeios, as pessoas mais velhas podem usar pegas de borracha com grampos nos sapatos para evitar escorregar.
Que conselhos gerais daria aos europeus para se protegerem das tempestades de neve? O que é que os canadianos fazem?
Patrick de Bellefeuille: Mesmo com 20 cm de neve, a vida continua aqui, é normal. A nossa principal preocupação é o gelo. Preparo-me consultando as previsões e planeando o meu dia em função das condições meteorológicas: quando será pior e como me adaptar. Pensemos nos transportes públicos: os autocarros têm pneus de neve, o que também poderia ser feito na Europa. Onde os pneus de inverno não são obrigatórios, deve existir um plano B — como correntes nos autocarros.
Na sua opinião, a Europa deve preparar-se para enfrentar estes fenómenos com mais frequência no futuro?
Patrick de Bellefeuille: As alterações climáticas conduzem a mais extremos: podemos perder as temperaturas médias, mas manter os extremos. Há estudos que demonstram que a corrente do Golfo pode abrandar o seu curso com o degelo do Polo Norte, e que o Polo Norte é responsável pelas diferenças de temperatura que registamos entre o verão e o inverno (...) Teremos de nos habituar a pancadas de frio e a Europa terá de se adaptar a isso.