O que revela a inflação de base sobre a economia europeia?

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De  Jorge Liboreiro  & Isabel Marques da Silva
Quanto mais tempo a inflação de base permanecer elevada, maior será a dificuldade para os consumidores, que verão os seus salários e poupanças perderem valor
Quanto mais tempo a inflação de base permanecer elevada, maior será a dificuldade para os consumidores, que verão os seus salários e poupanças perderem valor   -   Direitos de autor  AP

O novo ano começou com uma boa notícia na taxa de inflação: após meses a bater recordes históricos, a inflação na zona euro começou a descer, regressando a um dígito.

A última estimativa divulgada pela Eurostat (agência de estatísticas da União Europeia) mostra que a inflação anual homóloga foi de 9,2% em dezembro, abaixo dos 10,1% registados em novembro.

A inflação dos produtos energéticos, o principal motor do aumento no ano passado, baixou acentuadamente, de 34,9% para 25,7% num mês, enquanto que os preços dos alimentos registaram uma diminuição moderada.

No entanto, um indicador-chave aumentou: a inflação de base, que subiu de 5% em novembro para 5,2% em dezembro, o valor mais alto desde a criação da moeda única. Porquê?

A inflação de base oferece uma imagem mais precisa do estado da economia, porque exclui os preços da energia, dos alimentos, do álcool e do tabaco, que tendem a ser mais voláteis do que outros. E mesmo que os preços subam, como aconteceu nos últimos meses, as pessoas continuam a comprar estes produtos essenciais a um ritmo consistente.

A inflação de base vai além dos preços dos produtos básicos e centra-se na variedade de bens e serviços que consumimos regularmente, tais como alugar um carro, comprar um telemóvel, usufurir de atividades culturais, etc. A elevada inflação de base significa que tudo se está a tornare mais caro.

É por isso que tantos economistas e decisores políticos falam agora de inflação "alargada".

"Todos os produtores e vendedores tentam, de alguma forma, compensar o grande choque dos custos energéticos", disse, à euronews, Zsolt Darvas, analista económico no centro de estudos Bruegel, em Bruxelas. "Portanto, é bastante natural, na minha opinião, que a inflação se tenha generalizado a todos os tipos de bens e serviços".

Quanto mais tempo a inflação de base permanecer elevada, maior será a dificuldade para os consumidores, que verão os seus salários e poupanças perderem valor. Só os aumentos de salários permitem fazer face à tendência ascendente da inflação.

"Se os salários não aumentarem tanto como a inflação", disse Darvas, "então, a médio e longo prazo, o poder de compra será reduzido permanentemente, o que resultará num menor consumo, menor procura e, consequentemente, menor dinâmica económica".