O candidato apoiado pelo Partido Socialista era o grande favorito e acabou mesmo por derrotar o líder do Chega, André Ventura, na segunda volta das eleições presidenciais.
O candidato António José Seguro, apoiado pelo Partido Socialista, de centro-esquerda, obteve uma vitória convincente sobre o seu rival André Ventura, do partido da direita radical Chega, nas eleições presidenciais portuguesas de domingo, de acordo com os resultados oficiais, já com 99% dos votos contados.
Seguro torna-se, assim, o primeiro Presidente do campo socialista em 20 anos e regressa, desta forma, a um lugar de destaque da política nacional, depois de uma década afastado do meio. No seu discurso de vitória, prometeu ser um Presidente exigente e vigilante, mas nunca oposição.
"Prometi a lealdade e cooperação institucional com o Governo. Cumprirei a minha palavra. Jamais serei um contrapoder, mas serei um Presidente exigente com as soluções e com os resultados", afirmou Seguro.
Segundo os dados mais atualizados, Seguro garantiu assim, aos 63 anos, um mandato de cinco anos no Palácio de Belém, ao conquistar 66,8% dos votos, acima dos 33,2% de André Ventura.
Tornou-se o Presidente da República eleito que mais votos conseguiu angariar para garantir a eleição. Na manhã desta segunda-feira, reunia já 3.482.481 votos, acima dos 3.459.521 atingidos, nas presidenciais de 1991, pelo também socialista Mário Soares - que, ainda assim, permanece como aquele que conseguiu convencer uma maior percentagem da população (70,35% dos votos).
No seu discurso de vitória, António José Seguro assegurou ainda estar "acima dos partidos, [pois] é isso que a Constituição exige", tentando passar uma mensagem de independência: “A minha liberdade é a garantia da minha independência”.
E, na sequência das consequências que as várias depressões que têm impactado o país, endereçou as condolências àqueles afetados e pediu um apoio rápido às famílias e empresas afetadas. “A solidariedade dos portugueses não pode substituir a responsabilidade do Estado”, afirmou o Presidente da República eleito.
Durante a campanha, o antigo dirigente do Partido Socialista pretendeu apresentar-se como uma figura moderada, tendo prometido uma postura de cooperação com o governo minoritário do PSD e do CDS-PP, liderado por Luís Montenegro, e rejeitando a retórica anti-sistema e anti-imigrante do candidato do Chega.
Na corrida para a segunda volta eleitoral, Seguro reuniu o apoio de vários políticos dos diferentes campos políticos - incluindo alguns dos que venceu durante a primeira volta -, que assumiram a vontade de travar a crescente onda populista que se tem manifestado um pouco por toda a Europa.
O melhor resultado alguma vez alcançado pelo Chega
Apesar da noite não ter terminado em vitória para André Ventura, facto é que, neste escrutínio, o Chega ultrapassou pela primeira vez a barreira do milhão e meio de votos, fazendo deste o melhor resultado eleitoral alguma vez alcançado pelo partido. Pelas 6:30 desta segunda-feira, já se contabilizavam 1.729.381 votos a favor do candidato da direita radical.
Embora aquém dos quase dois milhões de votos conquistados pela Aliança Democrática nas últimas eleições legislativas, Ventura garantiu 33% dos votos — mais do que os 31% obtidos pelos partidos no poder em maio, no referido escrutínio.
Ainda assim, André Ventura disse sentir-se reforçado após a noite eleitoral. Afirmou ser o líder de um movimento "imparável" que, mais cedo ou mais tarde, conseguirá "transformar Portugal", em nome do povo, contra as elites.
Após serem conhecidos os resultados, Ventura partilhou o seu otimismo em relação ao partido que fundou, apontando: "Penso que a mensagem do povo português foi clara. Lideramos a direita em Portugal, lideramos o espaço da direita em Portugal e, em breve, governaremos este país".
Mas, apesar desta "subida" na expressão eleitoral, o dirigente do Chega reconheceu que os resultados conhecidos na noite de domingo ficaram aquém das expectativas: "Não conseguir fazer o que me propunha, que era vencer as eleições”.
“O povo é soberano, se o povo escolheu António José Seguro é ele que vai ser Presidente”, disse ainda, acrescentando: “E espero que seja um bom Presidente".
Em Portugal, o Presidente da República é, em grande parte, uma figura simbólica, sem autoridade executiva. Tradicionalmente, o chefe de Estado permanece acima da política partidária, atuando como mediador para resolver disputas e aliviar tensões. Mas tem o poder de dissolver a Assembleia da República.
António José Seguro era o favorito para vencer a segunda volta contra André Ventura, cujo partido Chega foi criado em 2019 e é agora a maior força da oposição no Parlamento. Na primeira volta das eleições, Seguro obteve 31,1% dos votos, enquanto Ventura obteve 23,52%.
Onze milhões de pessoas em Portugal e no estrangeiro estavam habilitadas a votar neste escrutínio.
As reações nacionais e internacionais à eleição de Seguro
O primeiro-ministro português, Luís Montenegro, foi uma das primeiras figuras políticas a reagir, publicamente, aos resultados da segunda volta das eleições presidenciais, através de uma declaração ao país. Dirigindo "em nome do Governo" as felicitações a António José Seguro, assegurou que o executivo "vai continuar a governar e a cooperar de forma construtiva com o Presidente da República”.
Referiu ainda ter transmitido ao chefe de Estado eleito “toda a disponibilidade" para trabalhar "em prol do futuro de Portugal, com espírito de convergência" de modo a salvaguardar "o interesse dos portugueses”.
Também Marcelo Rebelo de Sousa, através de uma nota publicada no site da Presidência da República, indica ter congratulado o seu sucessor pela vitória e anunciou que irá receber Seguro no Palácio de Belém, esta segunda-feira, pelas 16:00.
"O Presidente da República telefonou a António José Seguro para o felicitar pela sua vitória nas eleições presidenciais, desejando-lhe as maiores felicidades e êxitos para o mandato que os Portugueses lhe atribuíram e se iniciará dia 9 de março, manifestando-lhe toda a disponibilidade para assegurar a transição institucional", lê-se na mesma nota.
Já António Costa, atual presidente do Conselho Europeu e figura que, em 2014, sucedeu a António José Seguro na liderança do Partido Socialista, escreveu no X que os portugueses reafirmaram, nesta eleição, "o seu apreço pela Democracia, reafirmando Portugal como um pilar do humanismo europeu".
Endereçou ainda as felicitações a António José Seguro pela conquista eleitoral, desejando-lhe "os maiores sucessos no exercício do seu mandato".
Também nas redes sociais, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, felicitou o candidato apoiado pelo Partido Socialista, escrevendo: "A voz de Portugal em defesa dos nossos valores europeus comuns continua forte".
Roberta Metsola, presidente do Parlamento Europeu, foi outro dos rostos políticos internacionais a felicitar António José Seguro. "Sei que a Europa pode contar com a sua experiência e com o seu empenho no nosso projeto comum, sobretudo como ex-eurodeputado, tanto quanto Portugal pode continuar a contar com a Europa", lê-se na publicação veiculada no X.
Da parte de França, o presidente Emmanuel Macron reforçou a sua intenção para uma cooperação "para reforçar os laços entre Portugal e França e dar vida ao nosso Tratado de Amizade e Cooperação, assinado no Porto durante a minha visita, há quase um ano". Tudo isto ao "serviço dos franceses e dos portugueses, e de uma Europa que decide por si mesma, mais competitiva, mais soberana, mais forte", escreveu ainda.
Na ótica, por sua vez, do presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, esta tratou-se de uma "eleição que se desenvolveu de forma pacífica" e que "representa a vitória da democracia num momento tão importante para a Europa e o mundo". Tendo acrescentado: "O Brasil seguirá trabalhando em parceria com o Presidente eleito e o primeiro-ministro Luís Montenegro pelo fortalecimento das relações bilaterais históricas entre nossos países, em defesa do multilateralismo e do desenvolvimento sustentável".