Ao contrário do chefe do governo espanhol Pedro Sánchez, que condenou a operação israelo-americana, o governo liderado por Luís Montenegro está a tomar claramente o partido dos EUA e Israel, ao condenar as ações do Irão, mas não as da aliança Trump-Netanyahu.
Os dois vizinhos ibéricos, parceiros e cúmplices em tantos domínios, não poderiam estar mais distantes do que na questão da operação iniciada por Israel e Estados Unidos na madrugada de sábado contra o Irão.
Se o presidente do governo espanhol, Pedro Sánchez, se apressou a condenar sem reservas as ações israelo-americanas, já o primeiro-ministro português Luís Montenegro mostrou-se, desde a primeira hora, claramente do lado da administração Trump.
O governo português emitiu um comunicado em que condena as ações… do Irão. No texto, que Montenegro republicou na sua conta no X, o chefe do governo português diz que “condena os injustificáveis ataques do Irão aos países vizinhos da região - entre eles, a Arábia Saudita, o Catar, os Emiratos Árabes Unidos, o Kuwait e a Jordânia -, que devem cessar imediatamente”, mas em momento algum condena ou critica a ofensiva desencadeada pelos governos de Trump e Netanyahu. Montenegro diz ainda que "o fim do programa nuclear iraniano é essencial para alcançar a paz e a estabilidade na região".
Com esta postura, Montenegro não só se afasta do vizinho espanhol como do próprio secretário-geral das Nações Unidas, que lhe antecedeu nos anos 1990 como chefe do governo português, António Guterres, que também condenou a ofensiva. O líder da ONU disse que o ataque dos EUA e Israel e consequente retaliação iraniana minam a segurança internacional.
Base das Lajes tem papel na guerra
Esta posição do executivo português de centro-direita está em linha com a utilização da base das Lajes por parte das forças norte-americanas.
A base norte-americana na ilha Terceira (Açores) está a ter um papel nas operações, nomeadamente como base para aviões reabastecedores que estão a ser usados nos ataques. No sábado, os repórteres no local constataram a descolagem de cinco aviões reabastecedores KC-46 Pegasus da Força Aérea dos EUA.
Em fevereiro, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel, já tinha admitido que a base poderia ser usada num eventual ataque ao Irão, desde que os tratados com Portugal fossem respeitados.
O uso da base aérea açoriana no ataque ao Irão está a ser fortemente contestado pela oposição portuguesa. O Livre anunciou que iria questionar o governo na Assembleia da República sobre o tema.
Em declarações aos jornalistas durante a manifestação de sábado contra o Pacote Laboral, o deputado Jorge Pinto disse: “Não queremos Portugal associado, de qualquer maneira, a um ataque feito ao arrepio dos direitos internacionais, contrário à Carta das Nações Unidas e que, no fundo, crava mais um prego no caixão do direito internacional”.
Sem condenar diretamente o ataque norte-americano e israelita, o secretártio-geral do Partido Socialista, José Luís Carneiro, falou do tema no discurso de sábado nos jardins da sede do Largo do Rato, em que apresentou a recandidatura. o líder do PS disse que "as intervenções militares não podem, não devem ocorrer à margem do direito internacional".
Também o Bloco de Esquerda se está a mostrar muito crítico face à posição do governo de Luís Montenegro. O líder do partido, José Manuel Pureza, classificou a ação dos EUA e Israel como “um ato odioso”.
O Chega, embora mostrando preocupação com o eclodir de um novo conflito, diz ser necessário “atingir os objetivos“ desta operação, nomeadamente ”impedir o acesso a armas nucleares pela ditadura iraniana e libertar o povo iraniano (sobretudo as mulheres) da opressão e da tirania”, nas palavras do líder André Ventura, na publicação feita no X.