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Jorge Pinto: "Não tenho favoritos entre os principais candidatos"

Jorge Pinto, candidato às presidenciais de 2026
Jorge Pinto, candidato às presidenciais de 2026 Direitos de autor  Ricardo Figueira / Euronews
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De Ricardo Figueira
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O candidato do Livre leva a candidatura em frente depois de muita especulação sobre uma possível desistência a favor de Seguro. Nesta entrevista à Euronews, fez questão em clarificar as palavras mal compreendidas no debate a 11.

É o mais jovem dos 11 candidatos às presidenciais do dia 18. Proposto pelo partido Livre, de esquerda, Jorge Pinto tem 38 anos, é natural de Amarante, no norte de Portugal, e viveu uma boa parte da vida adulta em Bruxelas, o que terá influído naquela que é uma das suas grandes paixões, a par da política: a banda desenhada.

Candidato do partido à Assembleia da República pelo círculo da Europa em 2015 e do Porto em 2019 e 2022, é eleito deputado pela primeira vez em 2024, novamente pelo Porto, naquela que foi a primeira vez que o Livre elegeu neste círculo. Voltou a conquistar o lugar nas legislativas antecipadas do ano passado e, rapidamente, ganhou um lugar como segunda figura do partido, atrás do líder Rui Tavares.

Contra os rumores de que desistiria a favor do socialista António José Seguro, seguiu em frente com a candidatura. Quanto ao tema mais premente na Europa, o da defesa, concorda que é preciso fazer face às ameaças, mas tudo tem de ser pensado a nível europeu.

A decisão de seguir em frente

Euronews: Deu várias pistas de que poderia eventualmente desistir a favor de António José Seguro. No último debate na televisão chegou a dizer que "não seria por si que Seguro não seria eleito". Isto pode ser visto como um sinal de fraqueza por parte da sua candidatura?

Jorge Pinto: Não fui suficientemente claro. Quando apresentei a minha candidatura, no dia 1 de novembro, falei da importância de, à esquerda, entre os candidatos progressistas, acordarmos os serviços mínimos daquilo que deve ser o próximo presidente da República, um pacto republicano, como lhe chamei, e com isso perceber quem estava ou não disposto a concordar com este pacto. Não tive resposta de nenhum dos outros candidatos. Aquilo que eu queria ter dito no debate foi que, não tendo tido essa resposta, não é, certamente, por minha responsabilidade que essa convergência não existiu.

Quero defender o nosso regime e a nossa República. Se há algo que me preocupa é que estejamos perante uma possibilidade de golpada em que a direita e a extrema-direita fazem uma revisão constitucional drástica apenas entre si, algo que nunca aconteceu na história da nossa democracia, sem que os portugueses tenham sido tidos ou achados. Eu quero que o próximo presidente da República diga que terá coragem, que terá a firmeza de usar todas as ferramentas que a Constituição lhe permite usar para defender a nossa Constituição. Eu usarei. Irei convocar novas eleições, porque é isso que os portugueses merecem. Infelizmente, das outras candidaturas, não ouvi esta mesma firmeza, não ouvi esta mesma clareza.

Não teme que os seus apoiantes pensem que, se se mostra disponível para desistir a favor de outro, a sua candidatura não tem grande utilidade?

Estamos a falar num momento em que já há pessoas a votar. Há pessoas que já votaram. Eu já recebi várias mensagens de Bissau, de Berlim, de Luxemburgo, de Bruxelas, de gente que já votou em mim. O que quero que fique claro, porque é importante, é que eu sempre mostrei abertura e disponibilidade para que houvesse esse diálogo e esse compromisso entre os candidatos de esquerda e progressistas.

O que quero que fique claro é que eu sempre mostrei abertura e disponibilidade para que houvesse esse diálogo e esse compromisso entre os candidatos de esquerda e progressistas.
Jorge Pinto
Candidato à Presidência da República

No debate, Catarina Martins disse que podia ter-lhe telefonado para falar sobre esse pacto. Tem o número de telefone dela?

Por acaso não tenho. No debate, eu disse que era recíproco. Eu fiz uma coisa que acho que é mais transparente de todas. Falei desta abertura e desta possibilidade de forma pública.

Jorge Pinto em entrevista à Euronews
Jorge Pinto em entrevista à Euronews Bruno Silva / Euronews

Sondagens

Uma das últimas sondagens coloca-o abaixo do humorista/cantor Manuel João Vieira...

Sim, e há outras sondagens que me colocam à frente de António Filipe, portanto não me interessa comentar sondagens, interessa-me os resultados. Convido-o a andar comigo na rua e ver o que as pessoas me dizem. Ver como alguém que tinha muito menos notoriedade de qualquer outro candidato quando começou esta campanha, um perfeito desconhecido há dois meses é hoje uma pessoa que é parada na rua recorrentemente porque me dizem que sou uma surpresa, que faço política de maneira diferente, trazendo a decência e a dignidade para a maneira de fazer política. Isto vai até dia 18, mas dia 19 eu cá estarei para defender o meu país, o país que eu amo. Sondagens, deixo-os para as empresas de sondagens, dia 19 falaremos.

O seu objetivo é mais ambicioso do que ficar à frente de Manuel João Vieira?

Não vou responder a essa provocação. O meu objetivo na política é sempre o um. Ter um país melhor onde vale a pena viver. É isso que me move, seja quem for o outro candidato.

Se se confirmar este resultado, abaixo de Catarina Martins, isso pode enfraquecer a posição do Livre, que cresceu bastante nas últimas legislativas?

Não, de modo algum. Uma vez mais, os portugueses são inteligentes. Sabem avaliar as eleições diferentes. É evidente que uma eleição presidencial que tem uma característica muito pessoal, é uma eleição muito diferente. Um bom resultado será minha responsabilidade, um mau resultado será igualmente minha responsabilidade.

Segunda volta

Olhando para aqueles apontados como cinco principais candidatos (André Ventura, Cotrim de Figueiredo, Gouveia e Melo, Marques Mendes e António José Seguro), partindo do princípio de que Seguro é o seu favorito e Ventura o seu preterido...

Eu não tenho favoritos. O meu favorito sou eu próprio. Fui o último a apresentar a candidatura. Alguns já estavam no terreno há meses. Se o fiz, é precisamente porque não tinha nenhum favorito, ninguém que eu achasse que iria respeitar e defender a Constituição desta maneira corajosa e firme como acho que tem de ser defendida.

Mas, imaginando que, entre esses cinco candidatos, votaria em Seguro contra qualquer um dos outros e em qualquer um contra a Ventura, pensando numa qualquer combinação de dois dos outros três - Gouveia e Melo, Marques Mendes e Cotrim de Figueiredo - na segunda volta, iria recomendar algum sentido de voto?

Não vou sequer comentar esse cenário porque, primeiro, me parece altamente improvável e, em segundo lugar, porque não me compete a mim estar a dizer aos portugueses, incluindo àqueles que votaram em mim, em quem é que devem votar. Há princípios que são básicos. Eu apoiarei sempre um candidato que esteja contra aquele candidato que quer acabar com a nossa República.

Apoiarei sempre um candidato que esteja contra aquele candidato que quer acabar com a nossa República.
Jorge Pinto
Candidato à Presidência da República

Refere-se a André Ventura?

Evidentemente. O próprio disse-o abertamente na Assembleia da República. Tudo o resto depende daquilo que os candidatos disserem e de quem passará à segunda volta. Como ainda não sei quem vai passar à segunda volta, é evidente que não vou estar a fazer esse juízo prévio.

Jorge Pinto em entrevista à Euronews
Jorge Pinto em entrevista à Euronews Bruno Silva / Euronews

Defesa

Perante todas as demonstrações de agressividade que temos visto, não só da Rússia de Putin e da China de Xi Jinping, mas agora dos próprios Estados Unidos de Donald Trump, que raptaram o presidente Maduro de Venezuela e ameaçam agora ocupar a Gronelândia, há um consenso de que a Europa se deve fortalecer. Como pode esse fortalecimento fazer-se sem aumentar o investimento na defesa?

Eu não sou contra o reforço do investimento na defesa. O que eu digo é que não pode haver um euro que seja retirado da nossa segurança social, das nossas políticas públicas para a saúde, para a habitação, que sirva para a defesa. São coisas muito diferentes. Há ferramentas que podem servir para financiar a defesa, desde que seja um investimento inteligente. Repare que a soma dos países europeus já gasta em defesa cerca do triplo da Rússia. Não é por estarmos a gastar pouco. Aquilo que devemos estar a discutir neste momento e a pôr em cima da mesa é, por exemplo, ter uma comunidade europeia de defesa. É um debate que um Presidente da República deve fomentar.

O que deve estar em cima da mesa é como articular, como ter mais interoperabilidade entre os diferentes sistemas de defesa europeus. Sobretudo, o que deve estar em cima da mesa é como nos vamos coordenar a nível europeu para dar resposta a estes ataques destes líderes autoritários. Porque eu não quero estar entre a espada e a parede, com Donald Trump de um lado e Vladimir Putin do outro, a tentar destruir o projeto europeu.

Não quero estar entre a espada e a parede, com Donald Trump de um lado e Vladimir Putin do outro, a tentar destruir o projeto europeu.
Jorge Pinto
Candidato à Presidência da República

A defesa é importante e essencial. Mas passa por coisas como investir na autonomia energética, investir na transição energética, ter mais painéis fotovoltaicos, mais energias renováveis que façam com que os nossos sistemas elétricos sejam mais descentralizados, mais autónomos. Porque isso é bom para todos. É bom para os consumidores, que vão pagar menos pela sua eletricidade e é bom para nós, enquanto país, porque temos uma rede mais descentralizada perante qualquer fenómeno extremo, seja um apagão, seja um ataque vindo de fora.

Quando quisermos pensar no investimento em defesa, que seja um investimento coerente, que esteja também ligado a uma reindustrialização da economia portuguesa. Porque eu não quero investir em defesa se isso significar comprar armas a Donald Trump. Não é esse o investimento que eu acredito. Eu quero que haja novas indústrias em Portugal, articuladas com a indústria civil, porque é aí que deve estar o nosso foco.

Não quero entrar neste alarmismo desmesurado. Há uma ameaça real, há um risco real e temos de ter uma resposta para isso, temos de estar preparados para isso. Mas eu não quero que isso faça com que se aceite tudo e mais alguma coisa, desde logo um enfraquecimento do nosso Estado Social.

Jorge Pinto em entrevista à Euronews
Jorge Pinto em entrevista à Euronews Bruno Silva / Euronews

Se um governo e/ou uma maioria parlamentar aprovarem um aumento dos gastos em defesa para os 5% do PIB, como foi pedido por Donald Trump, promulgaria isso?

Eu já me pronunciei sobre isso. Porquê 5%? Porque não 4%, porque não 6%, porque não 7%? Foi um valor completamente arbitrário que foi posto em cima da mesa. Tenho até pena, e também já o disse, de apenas um líder europeu (Pedro Sánchez, de Espanha) ter tido a coragem e a decência de dizer que não alinhava com esse valor. Porque esse valor, sejamos francos, foi um valor que Donald Trump pôs em cima da mesa para financiar a indústria de armamento nos Estados Unidos. Esse não é o modelo no qual eu acredito. Este é e tem de ser o momento da Europa. São precisos líderes europeus que tenham a coragem de dizer que este momento europeu tem de passar pela própria Europa criar as suas ferramentas de defesa é a sua própria coesão, porque o que está em risco, como disse há pouco, é também o território europeu, é a Gronelândia, é o próprio projeto europeu. No documento da Estratégia Nacional de Segurança dos Estados Unidos, o projeto europeu é identificado como uma ameaça e um adversário dos Estados Unidos. Estejamos atentos, oiçamos aquilo que Donald Trump nos diz, oiçamos aquilo que Vladimir Putin nos diz, sejamos coerentes com isso e preparemos a nossa própria defesa.

Papel do PR

O Presidente da República deve ser mais ou menos interventivo na política nacional?

Depende, eu acho que o Presidente da República tem de ser interventivo, faz parte do seu papel, mas há maneiras e maneiras de fazer essa intervenção. Algumas têm de ser visíveis, públicas e vocais, outras têm de ser mais reservadas, passando pelo diálogo, sem câmaras, coisas como questões de justiça, questões mais sensíveis, até ao nível da defesa, não têm forçosamente de passar por uma discussão em público, devem passar primeiro por uma discussão mais privada e depois sim, as conclusões então virem a público.

Há outras questões que têm de estar mais presentes. A questão da saúde é insustentável, o silêncio de Marcelo Rebelo de Sousa perante a situação do nosso SNS, perante o facto de, como ainda há dias aconteceu, termos uma pessoa que espera mais de três horas por um serviço de urgência e que acaba por falecer. Há questões que são mais do foro privado e outras que são mais do foro público. O Presidente da República tem de ser interventivo nestas duas dimensões.

Imaginemos que esteve no lugar de Marcelo Rebelo de Sousa nos últimos dez anos. Há algo que ele tenha promulgado que não promulgaria? Há algo que ele não promulgou que teria promulgado? Algo que ele não fez e teria feito (e vice-versa)?

A grande coisa que eu acho que Marcelo Rebelo de Sousa fez mal, para lá tudo o resto, foi ter-se colocado voluntariamente numa má posição negocial ao dizer que agiria de uma determinada maneira em determinado cenário. Viu-se isso, por exemplo, quando António Costa se demitiu e Marcelo Rebelo de Sousa disse que convocaria novas eleições, quando nada, absolutamente nada na Constituição o obrigaria a tal. Isso é colocar-se voluntariamente numa má posição negocial e eu não faria isso. De resto, no que diz respeito a questões como a que vimos ainda agora com a lei dos estrangeiros, eu teria novamente enviado o documento para o Tribunal Constitucional. Também aí o Sr. Presidente da República deixou-se apanhar por uma situação em que ele próprio deveria ter sido proativo.

Jorge Pinto em entrevista à Euronews
Jorge Pinto em entrevista à Euronews Bruno Silva / Euronews

Mas também não tenho problemas em elogiar aquilo que fez de bem. Acho que Marcelo Rebelo de Sousa soube estar presente, soube estar próximo da população portuguesa em situações muito extremas, muito críticas e isso é também a função de um Presidente da República. Estar junto dos portugueses, dar-lhes respaldo, dar-lhes voz.

É assim que quero ser como Presidente da República. Alguém que está junto dos portugueses, que está no terreno e que não tem problemas em afirmar-se e defender a própria democracia junto da Assembleia da República.

Nos próximos cinco anos de mandato, provavelmente nos próximos dez anos de mandato do futuro Presidente da República, é mesmo a nossa democracia que está em jogo, é mesmo a nossa República que está em jogo.
Jorge Pinto
Candidato à Presidência da República

Deixe-me só dizer isto: nos próximos cinco anos de mandato, provavelmente nos próximos 10 anos de mandato do futuro presidente da República, é mesmo a nossa democracia que está em jogo, é mesmo a nossa República que está em jogo. Há uma alteração profunda do nosso país e a nível internacional. Espero bem que o próximo Presidente da República tenha consciência disso. Porque eu tenho-a e é por isso que acho que sou o mais bem colocado para ser Presidente da República.

Complete a frase: há algo que eu tenho e mais nenhum candidato tem e isso é...

É esta transparência, esta frontalidade e esta vontade de fazer política com os portugueses e para os portugueses. Com menos rodeios do que é costume, com menos pesar das palavras, fazer política de forma sincera e presente. Acredito que é isso que os portugueses querem e é isso que eu tenho feito em toda a campanha.

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