Na edição de 2025, o realizador Ico Costa viu-se afastado do festival e os seus filmes retirados, após o triunfo na edição anterior. As últimas investigações dão conta de que as denúncias de alegada violência doméstica eram falsas mas o festival, a menos dois meses da nova edição, mantém o silêncio.
A mais recente longa-metragem do premiado realizador português Ico Costa, Balane 3, estreou no mês passado e ainda pode ser vista num cinema de Lisboa. No entanto, isto acontece seis anos depois da conclusão das filmagens, que datam de 2019.
A pandemia de Covid atrasou as coisas, certo, mas este não foi o único fator: o filme deveria ter estreado na edição do ano passado do IndieLisboa, o que acabou por não acontecer devido a uma queixa de violência doméstica que se provou agora ser falsa.
Na altura, o festival lisboeta de cinema independente, em cuja edição de 2024 Costa triunfou com O Ouro e o Mundo, entendeu desprogramar o filme por ele realizado e um outro do qual foi produtor, alegando ser "profundamente sensível a denúncias de violência" e a consciência de que "o contexto social e legal da violência de género é, muitas vezes, revitimizante na forma como trata quem denuncia", segundo o comunicado emitido em abril do ano passado, que ainda pode ser consultado na página do festival no Facebook.
Acontece que as últimas notícias vindas a lume dão conta da falsidade da denúncia então apresentada. Não só os factos seriam inventados, como a própria "Joana Sousa Silva" que fez a denúncia, e alegava ter tido uma relação de seis meses com o realizador, não existe sequer. Segundo noticiado pela CNN, que teve acesso ao processo, o principal suspeito da denúncia caluniosa é um homem e "está ligado ao meio artístico".
Vários indícios, investigados pelas autoridades após a queixa de Ico Costa, apontam para a falta de alicerces da denúncia. Em primeiro lugar, a conta de e-mail usada para enviar as mensagens ao Indie e outros festivais está alojada na Proton Mail, uma plataforma que permite aos utilizadores registar-se de forma anónima. "Joana" terá ainda criado vários perfis falsos nas redes sociais para amplificar a alegada calúnia.
O detalhe que acabou por transformar as suspeitas de fraude numa quase certeza foi o novo e-mail que "Joana" enviou em junho do ano passado, no qual alega que Ico lhe teria feito uma "espera" no dia 13 desse mês. Acontece que, nesse dia, o realizador se encontrava em Marrocos, escreve a CNN Portugal.
A estação de televisão adianta que todas as tentativas de contactar "Joana" revelaram-se infrutíferas. "Esta" terá sugerido um encontro de "várias vítimas de Costa" na sede da associação MUTIM, que reúne mulheres ligadas ao cinema e ao audiovisual, sendo que a associação nunca soube desse encontro e nunca falou com "Joana", ainda segundo a CNN Portugal.
Quanto às "seis outras pessoas" que terão sofrido "violência física e psicológica" por parte de Ico Costa "ao longo de dez anos", segundo o e-mail original, também nunca ninguém chegou à fala com elas ou a saber quem são. Nem nada se sabe quanto às "novas denúncias" recebidas pelo festival, que terão levado à desprogramação dos dois filmes.
A denúncia contra Ico Costa foi na altura divulgada pela página de Instagram Maisumcasting, que acabou por se retratar ao aperceber-se da falsidade da mesma. Já o IndieLisboa mantém o comunicado emitido há um ano e não emitiu, até à data, qualquer desmentido ou pedido de desculpas ao realizador.
Apesar do cancelamento ocorrido em Portugal, Ico Costa mostrou o filme em vários festivais pelo mundo.
O IndieLisboa, que prepara a 23ª edição para 30 de abril a 10 de maio deste ano, foi contactado pela Euronews, mas não comentou o caso até ao fim da tarde desta terça-feira.