"Encantador" é o nome do filme do argentino José María Cicala que arrebatou o prémio principal no mais histórico dos festivais de cinema portugueses, que este ano teve ainda uma homenagem à filmografia norueguesa.
O Fantasporto voltou à casa que tem ocupado nos últimos anos, o cinema Batalha, para a 46ª edição deste que é o maior festival de cinema da cidade do Porto e um dos maiores de Portugal, que encerrou sábado com a consagração de filmes de latitudes tão diversas como Argentina, Grécia ou China.
O festival tem duas grandes secções competitivas: uma dedicada ao cinema fantástico e outra, a Semana dos Realizadores, para filmes de autor de todos os géneros.
Realizado ininterruptamente desde 1981, evoluiu de uma mostra dedicada essencialmente ao fantástico, sobretudo ao terror e à ficção científica, para um festival generalista que privilegia o cinema independente e de autor.
Mário Dorminsky e Beatriz Pacheco Pereira, a dupla que dirige o Fantas desde a primeira hora, complementa-se: "Temos gostos relativamente diferentes", diz Dorminsky. "Eu tenho uma tendência para um cinema mais aberto, mais vocacionado para o público em geral, enquanto a Beatriz prefere o cinema de autor. Isso faz com que tenhamos não um público, mas públicos, no plural, sobretudo desde que criámos a Semana dos Realizadores". Este ano, os organizadores tiveram de fazer uma seleção entre 350 longas-metragens e quase 800 curtas, vindas de todo o mundo.
Sustos argentinos e um filme em língua basca
Na competição de Cinema Fantástico, o primeiro prémio foi para um filme argentino, "Encantador" (título internacional: "The Dollmaker"), com assinatura de José María Cicala. Trata-se de um terror clássico, com muitos sustos que conquistaram o júri, incluindo a presidente da Associação Norueguesa de Realizadores, Elisabeth O. Sjaastad: "É um filme bastante clássico no seu género, sobre um assassino que anda a raptar mulheres. A história está muito bem contada, com um muito bom desempenho dos atores. A atmosfera está muito boa, com um bom design de produção, por isso está muito bem conseguido", diz.
Também na competição fantástica, outro filme a despertar a atenção foi "Gaua", do espanhol Paul Urkijo Alijo. O filme, que inclui bruxas, Inquisição e algum homoerotismo feminino, tem a particularidade de ser falado em basco, ainda um idioma muito minoritário no cinema. Para o realizador, a opção linguística é apenas natural: "Não pergunto porquê filmar em basco, mas porque não", diz o realizador à Euronews. "Se não usarmos o idioma e não o expandirmos a diferentes áreas, ele fica restrito à região ou aos povos ligados a ele e a um uso mais limitado. É bom que se espalhe à música ou ao cinema."
"Gaua" (que, em basco, significa "Noite") é inspirado nas histórias que o realizador ouvia em criança: "A noite é aquele momento em que aparecem todas aquelas coisas que supostamente são muito assustadoras, perigosas, o proibido, mas também pode ser um refúgio para quem é diferente. Por isso, Gaua é uma homenagem a todas as lendas da mitologia basca ligadas à noite, que me contavam quando era criança e que tanto me fascinavam", diz.
"Endless land", ode poética à ruralidade
O realizador grego Vassilis Mazomenos dispensa apresentações aos frequentadores do Fantas: É uma figura já emblemática do festival, onde apresentou quase todos os filmes e foi agraciado com um prémio de carreira em 2001.
Desta vez, leva para casa o Prémio da Crítica com "Endless Land", apresentado na Semana dos Realizadores, uma homenagem à ruralidade e às tradições perdidas do país profundo, que marca uma evolução face ao ambiente urbano dos filmes anteriores: "O filme não é diferente, mas a forma é diferente", diz o realizador. "As minhas ideias permanecem inalteradas. Mesmo que isso não transpareça à primeira vista, este é um filme político. Numa época em que vivemos o horror da guerra, o regresso aos princípios básicos, ao ciclo da vida, àquilo que os nossos antepassados ensinaram e perdemos é a coisa mais importante", acrescenta.
Em "Endless Land" ("Apeiri Gi", no original), acompanhamos Lazaros, que, tal como o seu homónimo bíblico, também renasce, embora não literalmente, mas metaforicamente, de geração em geração, perpetuando a sabedoria e as tradições de uma aldeia na região de Epiro (noroeste da Grécia). O filme é pontuado pela beleza da paisagem e pelos cânticos tradicionais e religiosos que, como o realizador explica, são um elemento central na narração.
Há aqui todo um simbolismo: por um lado, a origem do nome "Epiro" (Ipiros, em grego) vem do mesmo étimo de "Apiros", que significa "infinito", já que foi assim que os habitantes da ilha de Corfu chamaram à terra que viam do outro lado do mar e lhes parecia infinita. Por outro lado, explica Mazomenos, "há um significado simbólico, devido à infinitude dos sentimentos desta população, que passam de geração em geração, apesar de fatores como a imigração ou a pobreza".
Noruega em foco
Ao longo de 46 anos de história, foram muitos os filmes noruegueses a passar pelos ecrãs do festival. Alguns frequentadores mais antigos lembrar-se-ão de "The Bothersome Man" em 2007 ou "Thale" em 2013.
Para dar melhor a conhecer esta filmografia em franco crescimento mas ainda pouco explorada (com raras exceções), o Fantasporto promoveu neste ano uma retrospetiva do cinema da Noruega.
Além de integrar o júri, Elisabeth O. Sjaastad programou este ciclo e não esqueceu as origens do Fantas na escolha dos filmes: "Quisemos fazer uma retrospectiva contemporânea, que também prestasse homenagem ao perfil do Fantasporto. Por isso, alguns dos títulos têm elementos sobrenaturais que se enquadram no ADN original do festival, mas também mostram alguns dos nossos cineastas mais talentosos da Noruega. Por exemplo, temos "Telma", de Joachim Trier (nomeado este ano para os Óscares com "Valor Sentimental"), ou ainda "Armand", de Halfdan Ullmann Tøndel, vencedor da Caméra d'Or em Cannes em 2024.
"Algo que caracteriza o estado atual do cinema norueguês é a diversidade das várias narrativas, os vários temas, o foco que cada cineasta traz para o grande ecrã. Temos, de repente, um conjunto de talentos muito claro, que agora é capaz de fazer filmes que falam tanto ao público nacional como ao internacional", acrescenta a presidente da Associação Norueguesa de Realizadores.
O que é que o Fantas tem?
A quatro anos de celebrar meio século de vida, o Fantasporto continua a levar ao Porto toda uma legião de cinéfilos, incluindo fãs que se tornaram assíduos e não falham uma edição. A realizadora Isabel Pina é um desses casos. Todos os anos desde 2008, faz a viagem entre Lisboa e o Porto: primeiro como simples espetadora, depois como participante, tendo já feito parte do júri e da organização em anos anteriores.
Perguntada sobre qual o filme visto em 18 anos de festival que mais a marcou, responde: "Não diria um filme, mas toda uma filmografia, a do cinema filipino, que descobri graças a este festival, que é praticamente o único a mostrar". "No Fantas encontramos coisas surpreendentes. Por exemplo, ontem vi um filme da Papua-Nova Guiné. Em que outro festival teria eu hipótese de ver um filme desse país passar no ecrã?", acrescenta.
Igualmente indefetível é o espanhol Luis Rosales, que frequenta o Fantasporto todos os anos há mais de duas décadas. Começou a vir como jornalista, em trabalho para uma revista especializada em cinema fantástico. Continuou a participar já como diretor do festival Nocturna, de Madrid, e hoje é na qualidade de diretor do Festival do Imaxinario, na Galiza, que vem ao festival: "Encontrei aqui uma nova família", conta.
A verdade é que não fala apenas no sentido figurado, como também no sentido próprio, já que foi aqui que Rosales e a atriz alemã Marina Anna Eich, hoje um casal, se conheceram: "No primeiro ano em que nos encontrámos aqui, eu vim como jornalista e ela como atriz. Mais tarde, participámos os dois na qualidade de membros do júri. Esses encontros repetidos fizeram com que tivéssemos ficado amigos, mas durante vários anos fomos apenas amigos, até que a faísca aconteceu", conta. Hoje trabalham ambos na direção do Festival do Imaxinario, um dos mais antigos da Península Ibérica, fundado em 1973, agraciado este ano pelo Fantas com um prémio de reconhecimento.
A ligação do casal ao Fantasporto não se fica por aqui: foi também no Porto, durante uma das últimas edições, que Marina comprou o vestido de noiva com que Rosales a levou ao altar.
É caso para dizer que não só de terror vive o Fantasporto, mas também de histórias de amor. Sendo a maior de todas a do amor pelo cinema.
Lista completa de premiados:
COMPETIÇÃO DE CINEMA FANTÁSTICO
MELHOR FILME / GRANDE PRÉMIO FANTASPORTO
Encantador, José María Cicala (Argentina)
PRÉMIO ESPECIAL DO JURI
The Skeleton Girls, and a Kidnapped Society - Richard Eames (Australia)
MELHOR REALIZADOR
Don't Leave The Kids Alone | No Dejen a los niños solos (México).
MELHOR ATOR
Rodrigo Noya - The Dollmaker | O Encantador De José Maria Ciccala (Argentina)
MELHOR ATRIZ
Maribel Verdú - Under Your Feet / Bajo Tus Piés - Cristian Bernard (Espanha)
MELHOR ARGUMENTO
The Whisper / El Sussurrro - Gustavo Hernández, Ibañez (Uruguai | Argentina)
MELHOR FOTOGRAFIA
The Journey To End - Chen Xian (China)
MELHOR CURTA METRAGEM
Señuelo De Martha Gayerbe (Espanha)
MENÇÃO ESPECIAL DO JURI FANTÁSTICO
The Curse de Kenichi Ugana
SEMANA DOS REALIZADORES
MELHOR FILME / PRÉMIO MANOEL DE OLIVEIRA
Wild Nights, Tamed Beasts - Wang Tong (China)
PRÉMIO ESPECIAL DO JÚRI
The Trek - Meekaeel Adams (Africa do Sul)
MELHOR REALIZAÇÃO
Wang Tong - Wild Nights , Tamed Beasts (China)
MELHOR ARGUMENTO
Jun Robles Lana - Sisa (Filipinas)
MELHOR ATOR
Uirô Satô de Suzuki - Bakudan (Japão)
MELHOR ATRIZ
Pia Tjelta - Don't Call me mama
MENÇÃO ESPECIAL DO JÚRI (FOTOGRAFIA)
Endless Land - Vassilis Mazomenos (Grécia)
ORIENT EXPRESS
MELHOR FILME
#IWILLTELLYOUTHETRUTH DE KEISUKE TOYOSHIMA (JAPÃO)
PRÉMIO ESPECIAL DO JURI
PAPA BUKA - Dr. Biju Damodaram (Papua Nova Guiné /India)
PRÉMIO DE MELHOR FILME PORTUGUÊS
MELHOR FILME PORTUGUÊS
Cativos - Luis Alves
MELHOR FILME DE ESCOLA
Os Terríveis - João Antunes - Universidade Lusofona de Lisboa
MENÇÃO ESPECIAL DO PCP
Cama de Lavado - Maria Lima - Universidade Catolica do Porto
PRÉMIOS NÃO-OFICIAIS
PRÉMIO DO PÚBLICO
Ex-aequo entre The Specials - EIji UShida (Japão) e Lenore - David Ward (Australia)
PRÉMIO DA CRITICA
Endless Land - Vassilis Mazomenos (Grécia)