Cinema europeu arrebata prémios na 43ª edição do Fantasporto

Fotograma de "Megalomaniac"
Fotograma de "Megalomaniac" Direitos de autor Les films du carré
De  Ricardo Figueira
Partilhe esta notíciaComentários
Partilhe esta notíciaClose Button

"Megalomaniac", da Bélgica, e "Narcosis", dos Países Baixos, foram os grandes vencedores desta edição.

PUBLICIDADE

São já 43 edições para um dos mais históricos festivais de cinema de Portugal e da Europa. Desta vez, além de estrear uma nova casa, o Fantasporto consagrou os principais prémios do seu palmarés ao cinema europeu, com o primeiro prémio na secção de Cinema Fantástico a ir para "Megalomaniac" (Bélgica), o neerlandês "Narcosis" a triunfar na Semana dos Realizadores (secção com cada vez mais relevo no festival, dedicada ao cinema de autor de todos os géneros) e o filme português "Incubus", de Tito Fernandes, a triunfar entre as curtas fantásticas (igualmente no prémio de cinema português), um feito pouco habitual para a produção nacional.

Um triunfo a toda a linha da cinematografia europeia num festival que tem habituado o público à produção de vários horizontes, como nota Beatriz Pacheco Pereira, que dirige o festival desde o primeiro momento, juntamente com Mário Dorminsky: "É curioso que tenham sido praticamente só filmes europeus a triunfar nesta edição, quando somos acusados de privilegiar o cinema asiático". Um reparo que não é totalmente descabido, tendo em conta o lugar que o festival tem dado à cinematografia asiática (Japão, China, Coreia do Sul, Filipinas...) nos últimos anos e a quantidade de premiados nas principais categorias vindos destes países.

Ricardo Figueira / Euronews
Beatriz Pacheco PereiraRicardo Figueira / Euronews

Este recentrar na Europa surge com um filme perturbador, herdeiro de uma tradição de cinema sobre temas societais vinda da Bélgica. Lawrence Trott, membro do júri e antigo diretor do departamento audiovisual da Scotland Yard, diz a respeito de "Megalomaniac": "Passei grande parte da minha vida a combater o racismo e a misoginia, por isso foi importante para mim premiar este filme".

Mas este está longe de ser um simples manifesto contra a misoginia, como o realizador do filme, Karim Ouelhaj, explicou à Euronews. Se a personagem principal, Martha, é vítima de violações no seu trabalho de empregada de limpeza numa fábrica, torna-se também carrasco ao ajudar o irmão, um serial killer, na sua macabra missão: "Recuso o maniqueísmo ou a forma de retratar as personagens apenas como boas ou más", diz o realizador. "É comum a vítima tornar-se violenta e haver um efeito de boomerang".

Além do prémio de Melhor Filme, "Megalomaniac" sai do Porto com os prémios de Melhor Atriz (Eline Schumacher) e Melhor Realizador.

Recuso o maniqueísmo ou a forma de retratar as personagens apenas como boas ou más.
Karim Ouelhaj
Realizador

Se "Megalomaniac" nos traz esta espiral brutal de violência, já "Narcosis", de Martijn de Jong, vencedor da Semana dos Realizadores, fala sobre a solidão e a dor de perder alguém.

Na opinião do júri, o que torna este um filme especial "é a forma como as flutuações da mente dispersa de uma mulher de luto se inter-relaciona com a paisagem agitada de outono no exterior e com o ritmo geral do ambiente da história".

Quanto à secção Orient Express, dedicada ao cinema asiático, o primeiro prémio foi para "Kargo", do filipino TM Malones, que derrotou vários concorrentes vindos do Japão.

Ricardo Figueira / Euronews
Cinema Batalha, nova casa do FantasportoRicardo Figueira / Euronews

"Vai no Batalha"!

Esta foi uma edição especial do Fantas, por ser a primeira realizada num dos locais mais emblemáticos da sétima arte na cidade do Porto, o cinema Batalha, agora reinaugurado como Batalha Centro de Cinema. Fechado e abandonado durante anos a fio, este lugar cimeiro da cinefilia portuense é devolvido à cidade em todo o seu esplendor. É um reencontrar do público não só com os filmes, como com os frescos de Júlio Pomar que decoram as paredes do cinema e fazem dele um monumento da cidade. Concebidos durante a década de 1940 e mandados tapar por várias camadas de estuque pela ditadura salazarista, os frescos conseguiram ser recuperados quase por milagre. Várias gerações descobrem-nos agora pela primeira vez, depois de escondidos (e julgados perdidos) durante cerca de sete décadas.

Ricardo Figueira / Euronews
Frescos de Júlio Pomar no Cinema Batalha (detalhe)Ricardo Figueira / Euronews

"Foi no Batalha que comecei a frequentar sessões de cinema, este é um lugar com uma enorme importância para a minha formação como amante de cinema. Redescobrir este local, novamente dedicado àquilo a que foi criado - o cinema - e descobrir estes frescos pela primeira vez, poder trabalhar perto deles, é uma emoção enorme", diz Beatriz Pacheco Pereira.

O Fantasporto 2024 tem já datas marcadas, neste mesmo local, igualmente no início de março.

Partilhe esta notíciaComentários

Notícias relacionadas

Filme sobre sobrevivente do genocídio arménio conquista grande prémio do FIFDH

"Mon crime é um filme feminista", diz François Ozon

Os grandes filmes dos Prémios do Cinema Europeu 2023