O escândalo marcou a campanha pré-eleitoral, deixando o eleitorado dividido e aumentando as tensões em todo o espetro político.
A poucos dias das eleições legislativas de 22 de março, a Eslovénia está envolvida num escândalo político de grandes proporções, na sequência da divulgação de gravações que alegam má conduta do primeiro-ministro Robert Golob e do seu círculo íntimo.
Três dias antes das eleições, Golob enviou uma carta aos líderes da União Europeia, incluindo à presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e ao presidente do Conselho Europeu, António Costa, manifestando a sua preocupação com a influência estrangeira nas eleições da Eslovénia.
As gravações, publicadas no site anti-corrupção 2026, mostram, alegadamente, altos funcionários a discutir a aceleração dos processos de adjudicação de contratos públicos, a transferência de fundos estatais e manipulações em negócios.
Entre os casos mais polémicos está a compra de um edifício parcialmente em ruínas em Liubliana por 7,7 milhões de euros, que é quase cinco vezes o seu preço de aquisição em 2019. As revelações intensificaram o escrutínio sobre a alegada utilização indevida de fundos públicos, o tráfico de influências e a pressão sobre empresas e jornalistas.
As fugas de informação alegam também que o governo de Robert Golob utilizou empresas públicas, incluindo a DARS e a GEN-I, para efetuar pagamentos a jornalistas e ONG's em troca de uma cobertura mediática favorável. Outras alegações envolvem extorsões em acordos de investimento em hotéis e tentativas de exercer controlo político sobre grandes empresas estatais, levantando sérias questões sobre a corrupção sistémica no seio da coligação no poder.
Golob alega interferência estrangeira
Em resposta, o governo acusou atores estrangeiros de tentarem interferir no processo eleitoral da Eslovénia. O governo alega que a empresa israelita de serviços secretos privados Black Cube orquestrou uma operação para recolher informações comprometedoras sobre a oposição, que foram depois utilizadas contra a coligação de Golob.
A ministra dos Negócios Estrangeiros, Tanja Fajon, descreveu a operação como "um ataque direto à democracia e à soberania da Eslovénia".
Golob confirmou que o secretariado do conselho de Segurança Nacional iria analisar um relatório da Agência Eslovena de Informações e Segurança (SOVA), de modo a avaliar o alcance da alegada interferência.
O líder da oposição, Janez Jansa, e o seu Partido Democrático Esloveno (SDS) rejeitaram qualquer ligação à Black Cube, argumentando que as fugas de informação expõem "a verdadeira corrupção da elite de esquerda".
O SDS apelou a investigações independentes, criticando a administração de Golob por alegada utilização indevida de recursos públicos e manipulação dos meios de comunicação social, e acusando o governo de tentar desviar a atenção dos seus próprios erros.
Presidente apela a uma ação rápida
A presidente Nataša Pirc Musar, que não tem qualquer ligação política, alertou para o facto de que mesmo provas parciais de interferência estrangeira poderiam minar as bases democráticas da Eslovénia.
"Estes acontecimentos exigem uma ação rápida e transparente. Ameaçam o quadro democrático da República da Eslovénia, independentemente do partido que está no poder ou na oposição", afirmou.
Em resposta ao escândalo, o conselho de Segurança Nacional e a comissão parlamentar de supervisão dos serviços secretos interrogaram funcionários da SOVA e da polícia para determinar se as alegadas atividades da Black Cube constituíam uma ameaça tangível para as eleições.
Carta à União Europeia
O primeiro-ministro Robert Golob pediu a Ursula von der Leyen que investigue as alegações de que a empresa de serviços secretos israelita Black Cube interferiu na campanha eleitoral da Eslovénia**.**
Numa carta dirigida à presidente da Comissão Europeia, Robert Golob manifestou a sua preocupação com a interferência estrangeira no processo democrático, descrevendo a situação como "um caso grave de manipulação e interferência de informação estrangeira".
Advertiu que tais ações "representam uma clara ameaça híbrida contra a União Europeia e os seus Estados-membros, que tem um impacto negativo ou ameaça potencialmente os nossos valores, procedimentos e processos políticos comuns".
Golob referiu que a empresa privada de serviços secretos israelita Black Cube é "conhecida pelas suas campanhas de difamação com um objetivo: minar a confiança dos cidadãos nos processos democráticos, divulgando alegações de corrupção falsificadas em momentos precisamente planeados, neste caso, imediatamente antes das eleições gerais".
Estas atividades representam uma ameaça para a segurança nacional e influenciam as eleições democráticas", acrescentou, instando as instituições europeias a investigar o assunto.
Consequências políticas
O escândalo marcou a campanha pré-eleitoral, deixando o eleitorado dividido e aumentando as tensões em todo o espetro político.
As sondagens indicam uma corrida renhida entre a coligação de centro-esquerda de Golob e o bloco de centro-direita de Janša.
À medida que as eleições se aproximam, as questões da corrupção, da má utilização dos fundos públicos e da potencial interferência estrangeira dominam o debate público e são suscetíveis de influenciar o resultado.