A gravação surge no momento em que o ministro dos Negócios Estrangeiros húngaro, Péter Szijjártó, se vê envolvido numa polémica, na sequência de notícias do Washington Post segundo as quais terá revelado informações sensíveis à Rússia em reuniões do Conselho dos Negócios Estrangeiros em Bruxelas.
Um grupo de jornalistas de investigação divulgou na terça-feira a gravação de uma chamada telefónica entre o ministro dos Negócios Estrangeiros húngaro, Péter Szijjártó, e o seu homólogo russo, Sergey Lavrov, na qual Szijjártó se oferece para ajudar a retirar a irmã de um oligarca russo das sanções da UE, a pedido de Lavrov.
Na gravação de 94 segundos publicada no YouTube e divulgada pelo instituto de investigação Insider, Lavrov pede a Szijjártó que ajude a retirar Gulbahor Ismailova - a irmã do oligarca russo Alisher Usmanov - da lista de sanções da UE.
"Estou a telefonar a pedido de Alisher e ele pediu-me para lhe lembrar que está a fazer alguma coisa em relação à irmã dele", disse Lavrov a Szijjártó. O ministro húngaro responde dizendo que "juntamente com os eslovacos, estamos a apresentar uma proposta à União Europeia para a retirar da lista".
A gravação surge no momento em que Szijjártó enfrenta uma controvérsia, na sequência de uma notícia publicada pelo Washington Post, segundo a qual tem partilhado informações sensíveis com a Rússia durante as reuniões do Conselho dos Negócios Estrangeiros em Bruxelas.
O escândalo surgiu numa altura em que a Hungria se prepara para as eleições legislativas de 12 de abril, em que a interferência estrangeira e os laços estreitos do Governo com Moscovo são alguns dos principais temas da campanha.
Szijjártó defendeu as suas acções, argumentando que falar com funcionários russos antes e depois dessas reuniões faz parte da prática diplomática de rotina.
A conversa entre Szijjártó e Lavrov foi gravada em 30 de agosto de 2024 por desconhecidos, depois de Szijjártó ter regressado de São Petersburgo a Budapeste.
Szijjártó disse a Lavrov que iria apresentar uma proposta para retirar o nome de Ismailova da lista de sanções da UE "na próxima semana" e "quando o novo período de revisão começar, será colocado na agenda - faremos o nosso melhor para a retirar", disse Szijjártó.
De acordo com as regras da UE, as sanções devem ser renovadas de seis em seis meses por unanimidade. Ismailova, juntamente com o empresário russo Viacheslav Moshe Kantor e o ministro dos desportos Mikhail Degtyaryov, foi retirada da lista de sanções da UE em março de 2025.
A União Europeia cortou os laços políticos com a Rússia após a invasão em grande escala da Ucrânia em 2022 e instou os Estados-Membros a eliminarem gradualmente os combustíveis fósseis russos.
A Hungria e a Eslováquia têm mantido contactos regulares de alto nível com funcionários russos e continuam a importar volumes significativos de energia russa.
Após a publicação da gravação, Szijjártó minimizou o incidente e acusou os serviços secretos estrangeiros de terem colocado o seu telefone sob escuta.
"Há já algum tempo que se sabe que os serviços secretos estrangeiros - com a participação ativa de jornalistas húngaros - têm estado a intercetar as minhas conversas telefónicas. Hoje, os espiões fizeram outra grande 'descoberta': provaram que digo a mesma coisa em público e ao telefone. Bom trabalho!", escreveu.
O ministro acrescentou que o seu governo nunca concordou em sancionar entidades críticas para a segurança energética da Hungria e opôs-se à inclusão de indivíduos na lista quando as sanções não tinham um objetivo claro. "Continuaremos a adotar esta abordagem no futuro", afirmou.
A Comissão Europeia afirmou anteriormente que as alegações relativas à conduta de Szijjártó durante as reuniões do Conselho dos Negócios Estrangeiros são motivo de preocupação e exigem esclarecimentos por parte de Budapeste.
Na gravação, Lavrov diz também a Szijjártó que o ministro húngaro tem sido objeto de uma ampla cobertura por parte dos meios de comunicação social russos.
"Eu disse alguma coisa errada?", perguntou Szijjártó.
"Estavam apenas a dizer que está a lutar pragmaticamente pelos interesses do seu país", respondeu Lavrov.