África é um continente fundamental para a Igreja Católica, com mais de 288 milhões de fiéis. Mas a viagem do Papa também tem valor político, atuando como um contrapeso à política agressiva de Donald Trump.
Prossegue a viagem apostólica em África do Papa Leão XIV, que, depois da Argélia, se deslocou na quarta-feira aos Camarões, na capital Yaoundé.
Esta é a segunda paragem da viagem de dez dias do Papa a África, que o levará também a Angola e à Guiné Equatorial, até 23 de abril.
"Envolver os líderes religiosos na mediação política"
Ao chegar à capital Yaoundé, o líder da Igreja Católica encontrou-se com o presidente, Paul Biya, com o primeiro-ministro dos Camarões, Joseph Dion Ngute, e com o corpo diplomático.
No palácio presidencial da capital, ao lado de Biya, o líder do país, de 92 anos, o Papa Leão repetiu os seus apelos contra a guerra e a radicalização.
"O mundo tem sede de paz [...]. Chega de guerras, com os seus dolorosos montes de morte, de destruição, de exílios!", disse o Pontífice. "A paz não se decreta: é acolhida e vivida. É um dom de Deus, que se desenvolve num trabalho paciente e coletivo. É da responsabilidade de todos, antes das autoridades civis".
Prevost apelou também ao envolvimento dos líderes religiosos na diplomacia e na mediação política, uma vez que "as tradições religiosas, quando não distorcidas pelo veneno do fundamentalismo, inspiram profetas da paz, da justiça, do perdão e da solidariedade".
"Ao promover o diálogo inter-religioso e ao envolver os líderes religiosos em iniciativas de mediação e reconciliação, a política e a diplomacia podem recorrer a forças morais capazes de acalmar as tensões, prevenir a radicalização e promover uma cultura de estima e respeito mútuos".
Já durante o voo da Argélia para Yaoundé,o Pontífice tinha sublinhado a importância do diálogo inter-religioso como fonte de inspiração para a estabilidade internacional. Referindo-se à visita à Grande Mesquita de Argel, disse: "Embora tenhamos crenças diferentes, modos de rezar e de viver diferentes, podemos, no entanto, viver juntos em paz".
"Promover esta imagem é algo que o mundo precisa, hoje em dia, e algo que podemos continuar a oferecer com o nosso testemunho ao continuarmos esta viagem apostólica", indicou.
O Papa lançou, também, um alerta para a defesa dos direitos humanos num mundo cada vez mais centrado na segurança. "A segurança é uma prioridade, mas deve ser sempre exercida no respeito pelos direitos humanos, combinando rigor e magnanimidade, com particular atenção aos mais vulneráveis".
Leão XIV visita Bamenda
Na quinta-feira, o Papa Leão visitou Bamenda, no noroeste dos Camarões. Na fronteira com a Nigéria, a área tem sido afetada pelo conflito entre o governo central e os separatistas "Amba Boys" durante anos. Em 2017, grupos paramilitares independentistas anunciaram o nascimento do "Estado Federal da Ambazónia". Desde então, a região mergulhou no caos, com milhares de mortos, deslocados e raptos.
A violência tem afetado a comunidade católica, com vários padres raptados pelos Amba Boys, enquanto o Vaticano tem tentado promover o diálogo, mas com poucos resultados.
Na sexta-feira, o Papa deverá celebrar uma missa no Estádio Japoma, em Douala, a capital económica do país, perante 50.000 pessoas.
África tem 288 milhões de católicos
A Igreja Católica é uma potência demográfica em África.O continente alberga um quinto da população católica mundial, cerca de 288 milhões de pessoas. Em 2013, eram 185 milhões. O número está a aumentar, não só devido ao "boom" demográfico na região, mas também devido às atividades humanitárias e de mediação promovidas pelo Vaticano.
Não é por acaso que o Pontífice tem dado grande prioridade à região, visitando-a antes mesmo da América do Sul, onde passou 20 anos.
Com paragens em onze cidades, quatro países e 18.000 quilómetros, Leão XIV investe num dos teatros mais estratégicos para o catolicismo no mundo.
Para além do seu valor estratégico, o périplo em África confirma a política do Papa Leão de diálogo inter-religioso e de atenção às periferias. A visita à Argélia, um país de maioria muçulmana, coloca o Papa como um contrapeso moderado à diplomacia agressiva dos Estados Unidos.
Esta abordagem já tinha sido confirmada pela primeira viagem apostólica do Pontífice, quando visitou a Turquia e o Líbano em 2025.
Após os ataques de Donald Trump, que apelidou o Papa de "fraco" e "mau em política externa", a viagem a África pretende reforçar a centralidade do continente para a política do Vaticano, mas sobretudo sublinhar uma forma diferente de conduzir a diplomacia internacional.