Em 90 minutos, Vozinha passou de desconhecido a fenómeno viral na Internet. Com sete defesas, impôs um empate à megafavorita Espanha e pôs as redes a falar do guarda-redes de 40 anos, criado pelos avós, que fez carreira a muito custo até brilhar no maior palco do futebol mundial.
Diz-se que o universo arranja sempre maneira de premiar quem se mantém firme perante os reveses da vida e a história de Vozinha, longe de ser um privilegiado de nascença, dá força aos que acreditam no trabalho... e na justiça poética.
Quem pensaria que um veterano de 40 anos, oriundo de uma nação pobre de África, com cerca de 530 mil habitantes, seria capaz de travar a seleção que a maioria aponta como favorita à conquista do título? Parece mesmo obra do destino. Talvez tenha sido, em parte, mas houve também muito mérito de carne e osso.
O futebol, indústria de milhões, tem o condão de esbater as desigualdades e produzir feitos que são tão improváveis quanto fascinantes. O último deles foi protagonizado por Josimar José Évora Dias, guarda-redes de Cabo Verde.
No primeiro encontro de sempre em Campeonatos do Mundo, os Tubarões Azuis agigantaram-se e, graças à elasticidade de Vozinha, bateram o pé à poderosa Espanha, segurando um empate a zero e o seu primeiro ponto de sempre na competição.
O guardião cabo-verdiano teve resposta para todo o tipo de investidas. Foram sete defesas no total. Não foi a Espanha que fez pouco. Foi o dono das redes cabo-verdianas que fez muito mais do que o mais idealista dos adeptos poderia conceber.
"Sonhei toda a minha vida com este momento. Trabalhei toda a minha vida por estes palcos. Hoje consegui estar aqui e contribuir para a equipa com a minha experiência. Estou muito feliz com isto", afirmou, no final da partida, em declarações à LiveMode.
Do Mindelo para a ribalta
Vozinhanasceu a 3 de junho de 1986 no Mindelo, ilha de São Vicente. Era ano de Mundial, que decorria no México, e o pai, amante do desporto-rei, foi buscar inspiração aos craques da bola para dar o nome ao seu rebento.
A primeira escolha terá sido Valdano, em homenagem ao ponta de lança argentino das décadas de 1970 e 1980, mas as autoridades de Cabo Verde não autorizaram esse registo. Como a família simpatizava com o Brasil, ficou Josimar, uma referência ao lateral-direito do Botafogo, que disputava o Campeonato do Mundo desse ano ao serviço da canarinha.
Numa entrevista anterior à FIFA, o guarda-redes explicou que o pai estava no serviço militar e a mãe totalmente ocupada com o trabalho para garantir o sustento da família, pelo que coube aos avós criá-lo.
Na mesma entrevista, contou que, na infância, costumava jogar futebol na rua com rapazes mais velhos e que estes lhe davam "muita pancada". Quando regressava a casa, enraivecido, fazia queixa aos avós, daí a alcunha.
Vozinha apenas se tornou futebolista profissional em 2012, aos 25 anos, altura em que foi contratado pelos angolanos do Progresso de Sambizanga, depois de ter atuado por clubes cabo-verdianos.
Ainda regressou ao Mindelense, em 2015, antes da primeira experiência na Europa, no FC Zimbru da Moldova, a que se seguiu uma temporada no Gil Vicente, na segunda divisão de Portugal. Após cinco épocas no AEL Limassol, em Chipre, assinou, em 2022, pelo Trencin, da Eslováquia, e regressou, posteriormente, a Portugal, onde defendeu a baliza do GD Chaves, do segundo escalão, nas duas últimas temporadas.
O contrato com os flavienses está terminado e Vozinha, mesmo sem clube, é agora um dos futebolistas mais conhecidos e comentados do planeta.
Fenómeno na Internet
Com uma exibição de luxo, o guardião de Cabo Verde foi eleito, sem surpresa, o melhor em campo. Em 90 minutos, passou de anónimo a estrela mundial: antes do encontro, tinha menos de 50 mil seguidores no Instagram, sendo que, após o apito final, eram já mais de um milhão os que o acompanhavam nas redes sociais.
Para tal, muito contribuiu o apelo da jornalista brasileira, que, encantada com o desempenho histórico de Vozinha, pediu aos telespectadores da Cazé TV para seguirem o goleiro.
"Espero que o meu Instagram não fique bloqueado", reagiu, com humor, o futebolista.
A popularidade continua a disparar e, ao início da tarde, a conta já caminhava para os oito milhões, ou seja, 14 vezes a população do seu país. É agora o cabo-verdiano com mais seguidores no Instagram.
As lágrimas que lhe escorriam pelo rosto, assim que o jogo chegou ao fim, não se deviam apenas ao feito que acabara de alcançar.
“Chorei porque eu cresci com os meus avós e eles não estão aqui, já faleceram”, explicou, acrescentando que também não podia abraçar a mãe, ausente do estádio "por causa de problemas com o visto e do dinheiro que era preciso pagar” para obtê-lo.
Seguramente que a mãe ficou a par dos acontecimentos, tendo em conta que Vozinha, o nono jogador mais velho de sempre em Campeonatos do Mundo, é tema de destaque nas redes sociais.
Quanto aos avós, quem sabe se eles não foram as estrelas que guiaram Vozinha à glória. Onde quer que se encontrem, devem estar inundados de orgulho.