O Partido dos Trabalhadores do Brasil realiza a sua convenção para oficializar a candidatura de Lula da Silva às eleições de outubro. Aos 80 anos, o veterano de esquerda enfrenta o candidato da direita liberal, Flávio Bolsonaro, numas eleições polarizadas entre lulismo e bolsonarismo: Déjà vu.
Aos 80 anos, o presidente Lula da Silva volta a concorrer à Presidência do Brasil, apresentando-se como defensor da “soberania” do país, numa altura em que a pressão externa exercida pela administração Trump, com a imposição de tarifas aduaneiras, lança uma sombra sobre a campanha.
Lula é um dos mais influentes líderes de esquerda ainda no poder na América Latina, onde a direita e a extrema-direita vão ganhando terreno nos sucessivos ciclos eleitorais.
Os exemplos mais recentes deste auge da direita na América Latina encontram-se na Colômbia e no Peru. Na semana passada, o Peru voltou à direita com a eleição de Keiko Fujimori, que marca o regresso do fujimorismo ao poder 26 anos depois da saída do seu pai, Alberto Fujimori. Um mês antes, em junho, Abelardo de La Espriella venceu as eleições pela ultradireita na Colômbia. Ainda antes de tomar posse (7 de agosto), o presidente eleito prometeu cortar relações com Cuba e Nicarágua e prevê o encerramento de 15 consulados e 14 embaixadas e a abertura de um novo consulado colombiano em Jerusalém.
Até ao momento, o subcontinente conta com sete governos de direita (Argentina, Paraguai, Equador, Bolívia, Chile, Colômbia e Peru) e cinco de esquerda (Brasil, Venezuela, Guiana, Suriname e Uruguai). Quando Lula foi eleito em 2023, a América Latina tinha oito governos de esquerda e quatro de direita.
Amado e odiado quase em igual medida no Brasil, Lula da Silva concorre a um quarto mandato numa corrida eleitoral que transmite uma sensação de déjà vu num país polarizado em que as últimas eleições opuseram o candidato de esquerda ao da ultradireita, Jair Bolsonaro.
Nesta eleição de outubro, porém, Lula da Silva tem como principal oponente o filho mais velho de Bolsonaro, Flávio. O senador, de 45 anos, assumiu esse papel após o seu pai ter sido condenado por um golpe de Estado que visava impedir que Lula assumisse o poder em 2023.
Embora centrado na figura de Lula da Silva, o seu partido, o PT, segue coligado com seis forças políticas: PSB, PCdoB, PV, PDT, PSOL e Rede, e repete a dupla vencedora de 2022 com Geraldo Alckmin, do PSB, como vice-presidente.
Enquanto o Partido Liberal de Flávio Bolsonaro ainda não anunciou qualquer coligação exceto o apoio externo vindo do presidente argentino, Javier Milei, e do primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu.
A "sombra" de Trump
A família Bolsonaro, centrada na figura do ex-presidente Jair Bolsonaro, tem recebido apoio do presidente dos EUA, Donald Trump, que prossegue com a sua política de influência externa, conhecida como "doutrina Donroe", levando Lula a criticar a influência vinda de fora, dizendo que “no Brasil, não aceitamos que ninguém se intrometa onde não é chamado”.
Em julho, os Estados Unidos impuseram tarifas sobre produtos brasileiros, alegando práticas comerciais desleais que Brasília nega. Em 2025, incentivada por outro dos filhos de Jair Bolsonaro, a Casa Branca aumentou os direitos aduaneiros em retaliação ao julgamento que condenou o ex-presidente a 27 anos de prisão. Essas tarifas acabaram por ser revogadas pelos EUA, após os esforços diplomáticos de Brasília.
Perante a ameaça de uma nova guerra comercial, Lula tem gerido a sua presidência em torno da defesa da soberania brasileira e vai utilizar a sua campanha para relembrar aos eleitores as suas quatro décadas como a figura política mais influente do país.
Contudo, espera-se uma corrida presidencial renhida.
A última sondagem realizada pelo instituto Datafolha mostra Lula da Silva com 48% das intenções de voto e Flávio Bolsonaro com 43%.
Em 2022, Lula derrotou Jair Bolsonaro por uma margem mínima. O antigo metalúrgico e sindicalista fez um regresso estrondoso ao poder há quatro anos, após uma passagem pela prisão por acusações de corrupção que foram posteriormente arquivadas e dois mandatos anteriores, entre 2003 e 2010.
Embora a sua administração apresente um crescimento económico sólido e níveis de emprego recorde. As famílias queixam-se do custo de vida e o défice orçamental está a agravar-se. O atual presidente também está em desvantagem em relação à principal preocupação dos brasileiros: a segurança. Dezenas de milhões de pessoas vivem em bairros pobres controlados pelo crime organizado.
E, depois, pairam no ar alegações de corrupção sobre ambos os candidatos.
Flávio Bolsonaro está a ser investigado por ter solicitado dinheiro a um banqueiro, acusado de uma grave fraude financeira, para financiar um filme sobre o seu pai. E esta semana foi aberto um inquérito sobre um dos filhos de Lula, apelidado de “Lulinha”, suspeito de corrupção e de tráfico de influência.
Fundado em 1980 por Luiz Inácio Lula da Silva, o Partido dos Trabalhadores (PT) realiza este domingo, em São Paulo, a sua convenção nacional, tendo como ponto alto o lançamento da candidatura de Lula à presidência, que busca a reeleição.