Desde que Lula da Silva fez a promessa de “picanha no prato” para todos os brasileiros, em 2022, o preço da carne bovina tem vindo a subir. A expressão, utilizada na altura pelo presidente brasileiro, está agora a ser aproveitada pela oposição para demonstrar o falhanço da economia.
Em 2022, durante a campanha eleitoral, Lula da Silva prometeu que todos os brasileiros poderiam comer picanha, independentemente do extrato social. Quatro anos mais tarde, o preço daquele que é um dos cortes da carne de vaca mais simbólicos do Brasil, tornou-se numa arma política contra Lula da Silva. A oposição começou a utilizar a picanha como símbolo do fracasso das políticas económicas de Lula da Silva nos últimos quatro anos de mandato.
Em algumas das suas intervenções públicas, Flávio Bolsonaro tem utilizado simbolicamente a picanha precisamente para vincar a promessa falhada de Lula.
O principal rival de Lula nas eleições de outubro, o senador Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente de extrema-direita Jair Bolsonaro, que se encontra preso, diverte-se a lembrar a Lula que este não conseguiu garantir bife para todos.
“Como Lula não trouxe picanha, eu trouxe alguma aqui hoje”, anunciou o candidato de extrema-direita, de 45 anos, num recente comício de campanha, onde distribuiu churrasco para todos, incluindo os jornalistas.
O Brasil é o maior exportador mundial de carne bovina, onde os fins de semana são frequentemente passados a fazer churrascos com a família e os amigos. O preço atual da picanha varia entre 80 e 110 reais (cerca de 13 a 18 euros) por quilo, segundo a AFP. “Quando se come picanha, está-se a comer como os ricos”, afirmou Mirne Franco, proprietária de um talho nos arredores da capital, Brasília, a esta agência de notícias.
De acordo com a pesquisa nacional do Departamento de Estudos Socioeconómicos (DIEESE) e da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), o preço da carne bovina de primeira caiu em algumas cidades em julho de 2026, em comparação com junho do mesmo ano. O preço do cabaz alimentar no Brasil é medido mensalmente. Contudo, em termos anuais, o custo da carne está mais elevado do que há um ano nas 27 capitais estaduais, segundo dados recolhidos.
“Entre julho de 2025 e julho de 2026, a subida do preço da carne de primeira variou entre 1,42% em Brasília e 19,09% em Rio Branco”, lê-se no último relatório.
Os dados oficiais do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) apontam na mesma direção para a picanha, um corte diferente da carne de primeira medida pelo DIEESE. Entre janeiro e julho, o produto encareceu 7,41%, mais do dobro da inflação geral acumulada no Brasil no período, de 3,44%. Nos 12 meses até julho, a picanha acumulava uma subida de 7,40%, face a uma inflação global de 4,44%.
“O povo vai voltar a comer picanha”, prometeu Lula em 2022
Lula, que exerceu dois mandatos entre 2003 e 2010, conseguiu um regresso espetacular após um escândalo de corrupção que o levou a cumprir pena, conquistando assim um terceiro mandato como o candidato de sempre das classes trabalhadoras em 2022.
“O povo vai voltar a comer picanha!”, declarou num típico discurso de campanha em tom de comício. No entanto, quase quatro anos depois, este pedaço de carne custa quase 10 por cento a mais, revelam os dados da agência de estatísticas do Brasil.
Na véspera de uma eleição que se prevê tão renhida como a disputa entre Lula e Jair Bolsonaro há quatro anos, a questão do aumento dos preços está a alimentar a indignação dos eleitores.
Desaceleração da inflação dos preços dos alimentos
Lula tentou defender as suas contas com uma série de dados que mostram que a economia está em melhor forma do que se pensa, em geral.
Os preços dos alimentos subiram, em média, 4% ao ano desde 2022, uma descida em relação aos mais de 11% de média registados durante os últimos três anos da presidência de Bolsonaro, que coincidiram, em parte, com a pandemia da covid.
“Um adversário mostrou uma picanha na televisão porque é cara. Seria bom que estes adversários, em vez de irem ao supermercado para darem espetáculo, olhassem para os factos e soubessem que as coisas melhoraram muito neste país", retorquiu Lula recentemente.
O atual presidente gabou-se de ter mantido a inflação dentro da meta do Banco Central de 3%, mais ou menos 1,5 pontos, e de ter reduzido o desemprego a níveis históricos mínimos.
No entanto, o crescimento económico abrandou e o consumo privado diminuiu.