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Queda de Orbán deixa partido Vox sem ponto de referência europeu

Marine LePen, Santiago Abascal e Viktor Orban na reunião dos Patriotas pela Europa.
Marine LePen, Santiago Abascal e Viktor Orban na reunião dos Patriotas pela Europa. Direitos de autor  AP Photo
Direitos de autor AP Photo
De Cristian Caraballo
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A derrota eleitoral de Viktor Orbán, após mais de uma década no poder, deixa o Vox sem um dos seus principais aliados políticos, ideológicos e financeiros na Europa.

A derrota eleitoral de Viktor Orbán na Hungria, que põe fim a mais de uma década e meia no poder, abre um novo cenário político na Europa e afeta diretamente o Vox, um dos partidos que tinha construído a mais estreita relação política, ideológica e financeira com o líder húngaro.

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Durante anos, Orbán consolidou a sua posição como um dos principais expoentes da direita ultra-conservadora europeia. O seu modelo político, baseado no controlo das migrações, no reforço do poder executivo, no discurso soberanista e no confronto com as instituições da UE, foi adotado por vários partidos do continente, incluindo o Vox.

No entanto, a derrota do líder húngaro insere-se também num contexto mais vasto. Para o especialista em liderança internacional Euprepio Padula, o resultado das eleições húngaras reflete uma tendência mais geral. "A derrota absolutamente estrondosa de Orbán é um reflexo da deflação da extrema-direita no mundo", defende. Na sua opinião, o 'boom' que estas formações conheceram após a reeleição de Donald Trump, em 2025, já atingiu o seu pico. "A curva ascendente parou e começou a descer", diz.

Santiago Abascal, durante um discurso no encontro dos Patriotas pela Europa.
Santiago Abascal, durante um discurso no encontro dos Patriotas pela Europa. AP Photo

Um modelo de poder, não apenas ideológico

A relação entre o Vox e o governo de Orbán foi para além de uma coincidência ideológica. O líder do Vox, Santiago Abascal, participou em vários encontros organizados em Budapeste e elogiou publicamente o modelo político húngaro em diversas ocasiões. A Hungria tornou-se um dos principais pontos de encontro da direita ultra-conservadora europeia, com eventos políticos, conferências internacionais e redes de colaboração entre partidos.

Para Pablo Simón, professor de Ciência Política na Universidade Carlos III de Madrid e doutorado em Ciência Política, Orbán não era apenas uma referência ideológica para o Vox, mas também um modelo de poder. "Representa a ideia de que é possível governar no seio da União Europeia, corroendo os contrapesos liberais sem sair formalmente do quadro europeu.

A sua derrota, acrescenta Simón, não deixa o Vox "órfão", porque o espaço ideológico continua a existir, mas retira-lhe um caso de sucesso governativo. "Não é a mesma coisa reivindicar uma agenda da oposição do que fazê-lo apontando para alguém que a está a aplicar com continuidade e resultados eleitorais", defende o cientista político.

Padula concorda com a relevância do impacto político e simbólico. "O facto do mais importante bastião da extrema-direita na União Europeia ter caído de forma retumbante é um golpe monumental para todas estas forças", explica. Na sua opinião, a derrota do líder húngaro pode ter consequências mais vastas: "Em todos os países onde a extrema-direita estava a crescer, é claro que tem um impacto muito importante".

Peso europeu: Patriotas pela Europa e a perda de um nó central

Em 2023, o Vox juntou-se ao grupo europeu promovido por Orbán, juntamente com outras formações como o Rally Nacional e a Liga, abandonando o seu anterior grupo parlamentar para se alinhar com o bloco promovido a partir de Budapeste.

Simón sublinha que o Vox foi fundamental para a preponderância do grupo Patriotas pela Europa no Parlamento Europeu, atrás apenas do Fidesz, com o qual mantém laços ideológicos e económicos. Em termos de projeção, o partido perde o que o politólogo descreve como "um nó central de legitimação".

"Orbán funcionava como ponto de encontro de diferentes direitas radicais europeias e como ponte entre elas, sendo o único com poder institucional efetivo, face a um RN na oposição, um Vox também na oposição ou uma Liga como parceiro de coligação júnior", explica.

Para além do Parlamento Europeu, Orbán tinha poder de bloqueio e de negociação no Conselho Europeu, onde a Hungria bloqueava frequentemente as decisões da UE em matéria de política externa e de migração. "Sem este aliado, o Vox perde um ponto de referência que mostrava que estas posições se podiam traduzir em poder institucional efetivo, e não apenas no discurso", salienta Simón. "Isto reduz a sua capacidade de sinalizar que a sua agenda tem uma tradução direta na governação europeia", conclui.

Padula acrescenta que o impacto é também em termos estratégicos. "O facto de Orbán ter sido um parceiro de Putin e Trump dentro da União Europeia e ter agido como uma espécie de cavalo de Troia reforça a magnitude da derrota", explica. Na sua opinião, a queda do líder húngaro reduz a legitimação internacional destas posições na política da UE.

Financiamento húngaro: uma ligação que deixa pontos de interrogação

Um dos elementos mais relevantes da relação entre os dois partidos era o financiamento. O partido espanhol reconheceu ter recebido empréstimos de mais de nove milhões de euros de um banco húngaro ligado ao círculo económico próximo de Orbán para financiar campanhas eleitorais em Espanha. Posteriormente, o Vox acedeu a novos empréstimos para as eleições europeias de 2024. Embora estes empréstimos tenham sido comunicados às autoridades e reembolsados, o episódio revelou a existência de ligações financeiras com o ambiente político húngaro.

Simón considera que "este precedente é delicado porque se relaciona com a ideia de redes de apoio transnacionais no seio da direita radical europeia".A saída de Orbán deixa o Vox, na sua opinião, com "uma maior necessidade de autonomia organizativa e financeira e com mais exposição a críticas sobre as suas ligações internacionais passadas".

Padula, no entanto, qualifica o impacto económico. "Não creio que seja um golpe decisivo", diz. Segundo o analista, o Vox já dispõe de um financiamento institucional suficiente, graças à sua representação eleitoral. "Penso que, neste momento, não depende tanto do financiamento húngaro ou de bancos ligados ao governo", acrescenta, embora reconheça que a perda de apoio político é mais relevante.

Abascal posa em frente à bandeira espanhola.
Abascal posa em frente à bandeira espanhola. AP Photo

Reorganização da direita europeia

A derrota do líder húngaro não afeta apenas o Vox. Orbán tinha ajudado a tecer uma rede de alianças entre partidos de diferentes países com uma agenda comum centrada na soberania nacional, numa política migratória restritiva e na crítica às instituições da UE. Sem ele, este espaço político está a entrar numa fase de reconfiguração.

Segundo Simón, "o espaço já estava fragmentado e em competição interna, e a saída de Orbán elimina um pólo de liderança relativamente claro". O politólogo não exclui a possibilidade de outros atores tentarem preencher a lacuna, embora saliente que provavelmente o fariam "a partir de fora da Europa".

Padula concorda que a liderança não será fácil de substituir. "Não creio que outras formações sejam capazes de assumir o controlo da mesma forma", afirma. Na sua análise, Giorgia Meloni poderá reforçar a sua posição no seio do bloco conservador europeu, enquanto os outros partidos enfrentam um cenário mais incerto. "Meloni vai provavelmente reforçar a sua posição e é, desde há algum tempo, a líder de direita mais apreciada na Europa", afirma.

Um novo cenário para o Vox

A derrota de Viktor Orbán marca o fim de uma era para a direita ultra-conservadora da Europa. Para o Vox, significa a perda de um aliado estratégico com verdadeiro peso institucional e a necessidade de redefinir a sua posição num bloco que está a enfrentar um período de reajustamento sem uma liderança clara.

Para Padula, esta mudança responde também a um desgaste mais alargado. "As pessoas estão um pouco fartas de experiências e perceberam que a perda de direitos não é acompanhada de melhorias económicas", conclui. Neste contexto, a derrota de Orbán abre uma nova fase política na Europa, que obriga o Vox e outros partidos do mesmo género a adaptarem-se a um cenário diferente do da última década.

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