Donald Tusk, numa entrevista ao Financial Times, questionou se os Estados Unidos continuariam a ser "leais" aos compromissos da NATO de defender a Europa em caso de um ataque russo e exortou a União Europeia a transformar-se numa "verdadeira aliança" capaz de proteger o continente.
Donald Tusk afirmou, numa entrevista ao Financial Times, que "a questão mais importante para a Europa é saber se os Estados Unidos estão dispostos a ser tão leais como está previsto nos nossos tratados [da NATO]", alertando simultaneamente que a Rússia poderá atacar um Estado-membro "dentro de alguns meses".
Aumenta a incerteza na Europa
Esta declaração do primeiro-ministro polaco foi considerada "insólita" pelo jornal britânico, que salientou que "reflete a crescente incerteza na Europa, na sequência das ameaças do presidente Donald Trump e da sua mudança de abordagem em relação à defesa do continente".
"Para todo o flanco oriental, para os meus vizinhos, a questão fundamental é saber se a NATO continua a ser uma organização pronta — tanto politicamente como logisticamente — para reagir, por exemplo, a um eventual ataque da Rússia", disse Tusk.
Tusk salientou que alguns dos países da aliança "fingiram que nada tinha acontecido" quando cerca de 20 drones russos violaram o espaço aéreo polaco no ano passado.
Tusk sublinhou que as suas palavras não devem ser entendidas como ceticismo em relação ao artigo 5.º da NATO (a cláusula de defesa mútua), mas sim como uma expressão de esperança de que "as garantias escritas no papel se tornem algo muito concreto na prática".
"Esta é uma questão muito séria. Estou a falar de curto prazo, de meses e não de anos", afirmou Tusk, relativamente a um potencial ataque russo. "Para nós, é extremamente importante saber que todos levam os compromissos da NATO tão a sério como a Polónia", acrescentou o chefe do governo polaco.
A Polónia é o país da NATO que mais gasta em defesa em relação ao PIB – já atingiu o nível de 5% – e é um dos países mais pró-atlânticos da Europa.
Tusk referiu que não existem "complexos" nas relações polaco-americanas: "Washington trata a Polónia como o melhor e mais próximo aliado na Europa. Mas, para mim, o verdadeiro problema é como isso se traduz na prática, caso algo aconteça."
"Quero acreditar que [o artigo 5.º] ainda está em vigor, mas, por vezes, é claro que tenho algumas dúvidas. Não quero ser pessimista... no entanto, atualmente também precisamos de uma dimensão prática dessas garantias", acrescentou.
No ano passado, drones russos violaram o espaço aéreo polaco e alguns aliados recusaram-se a reconhecer o ataque. Por fim, a NATO enviou caças que abateram alguns dos drones – foi o primeiro contacto direto entre as forças da NATO e os meios russos desde 2022.
"Tive alguns problemas naquela noite de setembro, quando ocorreu essa provocação bastante grave por parte da Rússia com os drones", recordou Tusk. "Não foi fácil convencer os parceiros da NATO de que não se tratava de um incidente acidental, mas sim de uma provocação bem planeada contra a Polónia", acrescentou numa entrevista ao FT.
Cimeira em Chipre
As declarações de Tusk coincidiram com a cimeira da UE em Chipre, onde está a ser discutida, entre outras coisas, a cláusula de defesa mútua da UE (artigo 42.º, n.º 7, do Tratado), no contexto das ameaças de Trump de uma possível saída da NATO e das suas declarações ambíguas relativas ao artigo 5.º.
Em resposta à crescente ameaça da Rússia após 2022, a UE está a intensificar as suas ações no domínio da defesa, nomeadamente através do financiamento de aquisições de armamento, do desenvolvimento da indústria de armas e da criação de sistemas de resposta conjunta, tais como tecnologias anti-drones.
A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, tinha anteriormente salientado a necessidade de reforçar os mecanismos de defesa mútua no âmbito da UE.
Ao mesmo tempo, muitos Estados-membros receiam, no entanto, que uma integração de defesa demasiado ambiciosa possa ser interpretada como um enfraquecimento do papel da NATO ou como um questionamento da importância crucial dos Estados Unidos para a segurança da Europa, que há décadas constituem o alicerce da arquitetura de defesa do continente.