O tema esteve em destaque na ASD Convention 2026, evento promovido pela ASD - Aerospace and Defence Industries Association of Europe em parceria com o AED Cluster Portugal, que decorreu na terça-feira, em Cascais.
A coordenação entre as autoridades e a indústria é atualmente indispensável para a construção de exércitos resilientes e capazes de enfrentar os desafios, cada vez mais diversos, que se colocam às Forças Armadas dos Estados-membros da União Europeia, numa altura em que estes prosseguem com a sua missão de garantir uma maior soberania no campo tecnológico.
O tema esteve em destaque na ASD Convention 2026, evento promovido pela ASD - Aerospace and Defence Industries Association of Europe em parceria com o AED Cluster Portugal, que decorreu na terça-feira, em Cascais.
Foi um encontro que, segundo a organização, reuniu "mais de 300 diretores-executivos, decisores políticos e especialistas do setor" da Segurança, Defesa e Aeroespacial, com vista a estimular um "diálogo estratégico de alto nível" sobre os obstáculos que dificultam o seu crescimento, mas também as oportunidades que se vislumbram no horizonte.
Aos momentos de debate pretendeu-se acrescentar ocasiões de "networking específico para impulsionar decisões, e não apenas discussões", de acordo com o programa da conferência. E para promover "a integração de novos players, ou seja, das pequenas e médias empresas, neste processo", explicou à Euronews José Neves, presidente do AED Cluster Portugal, à margem da convenção.
As quais detêm uma importância muito significativa no âmbito dos conflitos em curso, elaborou o responsável. "Por que é que é tão importante falarmos das pequenas e médias empresas? Porque, tipicamente, elas são mais ágeis, mais dinâmicas, mais rápidas a reagir a novas necessidades de mercado. E o que tem acontecido no cenário operacional, tanto na Ucrânia como no Médio Oriente, é que as grandes plataformas existem, vão continuar a existir, mas as pequenas plataformas são, muitas vezes, a resposta naquele dia."
No evento esteve ainda presente uma delegação ucraniana, da qual fazia parte Oleksander Kamishin, antigo ministro das Indústrias Estratégicas da Ucrânia e atual conselheiro estratégico do presidente Volodymyr Zelenskyy. Com José Neves a relatar que esses representantes explicaram que, "no cenário operacional de guerra existem necessidades de modernização do software dos sistemas, drones ou outro tipo de veículos", a uma base diária.
Num momento em que as Forças Armadas da Ucrânia "têm garantidamente de ser muito ágeis na resposta" que dão aos constantes ataques conduzidos pela Rússia, no contexto da invasão em curso, a "experiência" do AED Cluster Portugal, acrescentou José Neves, é a de que as pequenas e médias empresas "são mais rápidas", quer "na capacidade de prototipagem", quer no "desenvolvimento de novos conceitos".
É, por isso, "muito importante chamar as pequenas e médias empresas para o cenário da defesa, que era tipicamente dominado por grandes empresas", concluiu o presidente do AED Cluster Portugal.
Maior coordenação é aposta em Portugal
Questionado sobre se esse tipo de diálogo entre as Forças Armadas, o governo e a indústria é já uma prática recorrente no modo como são encarados, em Portugal, os desafios derivados de um contexto geopolítico que obrigou os Estados-membros da União Europeia a repensar as suas políticas defensivas, mas também de alianças, José Neves confirmou que essa maior coordenação "tem acontecido, existe cada vez mais e tem que ser reforçado, porque esse é o caminho para o sucesso".
Algo que passa por "a indústria perceber as necessidades operacionais das Forças Armadas" e trabalhar em conjunto com as mesmas, "acima de tudo, na validação de novos conceitos [...] e no desenvolvimento de produtos". Já as próprias empresas devem conseguir comunicar às Forças Armadas quais são "as suas capacidades", bem como ao Governo "as preocupações que existem".
Uma posição partilhada pelo contra-almirante António Mateus, vice-diretor nacional de Armamento do Ministério da Defesa: "Tem existido um trabalho muito intenso e coordenado, integrado mesmo [...], não apenas entre o Ministério da Defesa, mas também os ramos das Forças Armadas, e a indústria, seja no cluster nacional, seja no cluster internacional."
Já depois de, no verão passado, os membros da NATO terem confirmado o compromisso de gastar 5% do PIB em defesa até 2035, mais do dobro do objetivo anterior de 2%, o contra-almirante António Mateus salientou que, de facto, "por via da aceleração que tem sido posta a público", existe "uma necessidade de que essa integração seja cada vez mais efetiva e conduzindo a resultados que, no final do dia, sejam benéficos para ambos os lados".
Por sua vez, apesar dos esforços que têm sido feitos pelo bloco europeu "para a obtenção de soluções dentro do espectro da União Europeia" nesta área, sendo exemplo disso o SAFE, um instrumento de empréstimo no valor máximo de 150 mil milhões de euros para impulsionar a produção de defesa em todo o bloco, salientou que as "necessidades são sempre supridas num contexto global".
Pelo que, no âmbito da Lei de Programação Militar, enquanto legislação que estabelece o investimento público em meios e equipamentos para as Forças Armadas portuguesas e que se encontra atualmente em processo de revisão, "existem determinados níveis de capacidades em que as opções podem vir a recorrer a outras fontes, que não sejam estritamente europeias". Mas isso, lembrou, "será um processo natural, que será alvo de avaliação técnica, operacional e, em última instância, decisão política".
Ainda assim, para concluir, o vice-diretor nacional de Armamento detalhou que o Ministério da Defesa vê com "muito bons olhos" os avanços da indústria portuguesa, a par da europeia, neste setor. "Naturalmente, a indústria está a reagir da forma expectável e correta para convergir, exatamente, para esta procura por suprir necessidades."
"Defesa é uma prioridade", mas objetivo deve ser "sustentável"
E apesar de os países europeus caminharem aceleradamente para conseguirem capacitar as suas Forças Armadas, numa altura em que a "defesa é uma prioridade" assumida, o presidente do AED Cluster Portugal, José Neves, considerou que "não podemos esquecer toda a mochila de investimento que houve na área da sustentabilidade, a nível europeu, e que a Europa lidera a nível global".
Nessa perspetiva, acrescentou que "mais do que o valor que vamos investir em defesa", importa debater "como é que o vamos investir galvanizando a indústria portuguesa, galvanizando o nosso sistema científico e tecnológico, para que em Portugal não exista só o investimento da despesa, mas o investimento em capacidade produtiva". E garantindo, desse modo, a produção de tecnologia em território nacional "com empregos desenvolvidos em Portugal" e "com o potencial de exportação que outros países já têm", como Espanha, Itália e França, exemplificou.
Num momento em que já existem em Portugal "a capacidade de produção" necessária para dar resposta a esse objetivo e a "visão" necessária para concretizá-lo, o "grande desafio" passa por "entregar rápido", elaborou José Neves. E, para isso, é preciso "mobilizar toda uma indústria que não estava mobilizada", já que "a Europa, durante décadas, subcontratou a defesa aos Estados Unidos".
A solução deverá também passar, defendeu o presidente do AED Cluster Portugal, por "investimentos a médio e longo prazo". E explicou o motivo: "Nenhuma empresa poderá fazer grandes investimentos em defesa se não houver realmente um compromisso dos Estados para esse investimento a longo prazo."