O mercado de drogas na Europa está a tornar-se cada vez mais complexo, com opiáceos potentes, cannabis mais forte e novas substâncias que aumentam os riscos para a saúde, alerta a agência da UE.
Novos riscos para a saúde e mercados de drogas em rápida evolução e cada vez mais complexos: este é o alerta lançado na terça-feira pela Agência da União Europeia sobre Drogas (EUDA).
O relatório anual, baseado em dados de 27 Estados-membros da União Europeia, bem como da Turquia e da Noruega, destaca não só a preocupação com a disponibilidade das substâncias, mas também com a sua crescente variedade, imprevisibilidade e potência.
É o caso, em particular, dos novos opioides sintéticos.
"Os novos opioides sintéticos são substâncias de potência muito elevada", afirmou à Euronews Lorraine Nolan, diretora executiva da EUDA.
"Um grama é suficiente para produzir várias milhares de doses letais. Há, portanto, uma margem muito estreita entre o consumo e a sobredosagem nesta situação", acrescentou, sublinhando que estas substâncias podem surgir rapidamente no mercado, muitas vezes sem os consumidores saberem o que estão a consumir.
Pelo menos 7600 pessoas morreram de sobredosagem na UE em 2024, segundo estimativas da EUDA, sendo os opioides, muitas vezes em combinação com outras substâncias, a principal causa de mortes relacionadas com drogas.
O relatório assinala também a presença crescente de novas substâncias psicoativas (NSP), sendo detetada uma nova substância todas as semanas. Só em 2025, foram notificadas pela primeira vez 50 destas substâncias na Europa. Atualmente, a EUDA está a acompanhar cerca de 1050 substâncias.
24,9 milhões de consumidores de canábis
A cannabis continua a ser a droga ilícita mais consumida na Europa, com 24,9 milhões de adultos a declararem tê-la consumido no último ano.
Apesar de se tratar de um mercado "bem estabelecido", continua em evolução. As rotas de tráfico estão a mudar, com volumes crescentes de produtos de cannabis de alta potência a entrarem na Europa, incluindo importações da América do Norte.
Lorraine Nolan afirmou que uma das preocupações é o desvio a partir dos novos mercados regulamentados e o aparecimento de produtos mais fortes.
"Em algumas formas de resina, por exemplo, verificamos teores de THC que podem atingir os 33%. E, naturalmente, quanto maior for a concentração de THC na droga, maior é a probabilidade de o consumo prolongado desencadear uma psicose", referiu Nolan.
A maior disponibilidade de produtos de alta potência, extratos e comestíveis está a aumentar os riscos para a saúde, tendo-se registado alguns casos associados a idas aos serviços de urgência. As autoridades alertam também para a presença de canábis adulterada com canabinoides sintéticos e contaminada com pesticidas potencialmente perigosos.
A agência europeia registou uma diminuição das apreensões de cocaína, tendo sido intercetadas 330 toneladas em 2024, face às 419 toneladas do ano anterior. No entanto, o número de apreensões aumentou, o que sugere que os traficantes poderão estar a recorrer a carregamentos mais pequenos e fragmentados para evitar a deteção.
Apesar desta diminuição, a cocaína continua a ser uma grande preocupação, representando cerca de um terço das pessoas que iniciam tratamento para a toxicodependência na Europa, contribuindo para uma fatia crescente dos danos à saúde.
Face ao aumento dos riscos para a saúde e a segurança, a agência apela aos Estados-membros para que invistam em sistemas de monitorização e preparação, ao mesmo tempo que adotam uma abordagem equilibrada que atue tanto sobre a oferta como sobre a procura, com base na saúde pública e nos direitos humanos.