Os líderes do G7 aguardam a chegada de Donald Trump à cimeira de Évian-les-Bains, com uma agenda dominada por temas como geopolítica, IA e um possível avanço na guerra no Irão.
A tecnologia e a geopolítica vão dominar a cimeira do G7 em Évian, onde o anfitrião Emmanuel Macron tentará atenuar as divisões entre o grupo e os Estados Unidos.
Os líderes reúnem-se durante três dias em Évian-les-Bains, estância termal nas margens do Lago Leman, com o objetivo de definir posições comuns sobre como pôr fim à guerra na Ucrânia, ao conflito no Médio Oriente e de desenvolver tecnologias mais seguras.
Muitos, à margem da cimeira, esperavam que o encontro de três dias ajudasse a abrir caminho para o fim da guerra com o Irão, mas essas expetativas foram abaladas no final de domingo, quando o presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou que tinha sido alcançado um acordo para terminar o conflito, que dura há 15 semanas.
“Ships of the World, start your engines", escreveu Trump numa publicação nas redes sociais a celebrar o acordo, que, segundo disse, abriria caminho para que os EUA levantassem o bloqueio ao estreito de Ormuz, um importante corredor energético por onde anteriormente passava 20% do petróleo mundial.
A Alemanha, França, o Reino Unido e Itália divulgaram um comunicado a saudar o memorando de entendimento entre os EUA e o Irão, e o claro “avanço diplomático”.
“A retoma do tráfego marítimo, sem restrições nem portagens, é uma condição indispensável para a estabilidade regional e para a economia mundial”, escreveu Macron na plataforma de redes sociais X.
“Este acordo também abre caminho a negociações abrangentes ao serviço da paz e da segurança de todos no Médio Oriente. Estas têm de abordar as preocupações relacionadas com os programas nuclear e balístico do Irão, bem como a sua política de desestabilização regional".
Geopolítica domina o G7
Antes da cimeira, um alto responsável da UE, que falou sob anonimato, afirmou que os líderes do G7 esperavam de Trump um ponto de situação sobre o conflito no Médio Oriente e sobre a invasão da Ucrânia pela Rússia.
O presidente norte-americano desempenhou um papel central em ambas as crises, ao prometer, sem conseguir, pôr fim à invasão russa da Ucrânia em 24 horas após tomar posse no início do segundo mandato, e ao iniciar depois outra guerra com o Irão.
O primeiro encontro presencial de Trump será com Macron, na noite de segunda-feira, poucas horas depois de aterrar na Europa, estando previsto que os dois abordem ambos os dossiers.
Um responsável francês afirmou que a posição europeia tem sido clara e que se centra na reabertura do Estreito de Ormuz. “Esta guerra tem de acabar, e isso inclui toda a região, incluindo o Líbano”, referiu outro responsável da UE.
Desde fevereiro, os ataques dos Estados Unidos e de Israel contra o Irão e o Líbano danificaram infraestruturas energéticas e perturbaram o tráfego no estreito, provocando uma forte subida dos preços do petróleo e obrigando a Europa a procurar fontes alternativas de energia.
Mas as divisões podem reacender-se, com os aliados da NATO também a serem criticados por Trump pelo envolvimento limitado no conflito.
Um alto responsável da UE afirmou que o formato do G7 favorece conversas francas, e que o foco estará no que “une” os líderes das maiores economias industriais do mundo, e não no que os divide.
Uma voz da região deverá ser a do presidente sírio, Ahmed al-Sharaa, que, caso aceite o convite de Macron, se tornará no primeiro líder sírio a participar numa cimeira do G7.
Zelenskyy marca presença
Vários responsáveis indicaram que a presença do presidente ucraniano, Volodymyr Zelenskyy, tem como objetivo avaliar a possibilidade de avançar com negociações entre Kiev e Moscovo para pôr fim ao derramamento de sangue, numa altura em que a invasão russa da Ucrânia entra no quinto ano.
Isto acontece após semanas de discussões em Bruxelas sobre se existe vontade de nomear um enviado europeu para representar o continente em eventuais conversações de paz.
Esse debate tem sido repetidamente travado pela chefe da diplomacia europeia, Kaja Kallas, que defende que cabe à Europa garantir que a Ucrânia está na melhor posição possível quando, e se, o Kremlin quiser negociar.
Outra grande questão será saber o que é necessário para a Europa ajudar a Ucrânia a encontrar um fim para a guerra, nomeadamente se o apoio dos aliados pode passar de algo temporário para garantias de segurança concretas.
“É necessária uma paz justa, sustentável e duradoura”, disse um responsável da UE.
Inteligência artificial sob escrutínio
Diplomatas franceses indicam que a inteligência artificial estará no topo da agenda, com importantes dirigentes de empresas de Silicon Valley convidados para um almoço de trabalho centrado naquilo que os organizadores descrevem como “a implementação segura, rápida e eficaz da inteligência artificial”.
Sam Altman, da OpenAI, Dario Amodei, da Anthropic, e Arthur Mensch, da Mistral, participam juntamente com outros oito representantes da indústria tecnológica.
O encontro realiza-se depois do governo dos EUA ter emitido, na semana passada, uma diretiva que ordena à Anthropic que limite o acesso de cidadãos estrangeiros aos seus modelos de IA mais avançados, invocando motivos de segurança nacional. As restrições aplicam-se ao Fable 5 e ao Mythos 5.
A Anthropic afirmou que terá de “desativar” a tecnologia para cumprir a regulamentação norte-americana. Alguns comentadores descrevem a medida como um “botão de emergência” para a tecnologia.
Um porta-voz da Comissão Europeia afirmou que os controlos de exportação dos EUA não devem ser “discriminatórios” em relação aos parceiros, acrescentando que é provável que o tema surja no G7.
China no centro das preocupações
Espera-se que a primeira-ministra japonesa, Sanae Takaichi, seja consultada pelo G7 pelos seus conhecimentos sobre como contrariar as táticas de pressão comercial da China. O conjunto de líderes, que inclui Alemanha, França, Itália, Canadá, Estados Unidos, Reino Unido e Japão, representa 45% do PIB mundial a preços de mercado.
Responsáveis da UE sublinharam a necessidade de discutir “microeconomia”, a forma de enfrentar o crescente défice comercial do bloco com Pequim, mas também como Tóquio conseguiu afastar disputas comerciais semelhantes.
O momento é oportuno, já que chefes de Estado europeus se reúnem na quinta-feira em Bruxelas para discussões de alto nível sobre a forma de dialogar com o gigante asiático, abordando ao mesmo tempo questões de excesso de capacidade e de subsídios desleais.
No entanto, a cimeira do G7 não se concentrará apenas neste tema sensível. “Um resultado importante é trazer a China para o diálogo”, afirmou um responsável da UE.
Espera-se que o líder chinês, Xi Jinping, participe na próxima cimeira do G20, onde o tema será novamente discutido.