Guerra da Rússia na Ucrânia, concorrência desleal chinesa e próximo orçamento plurianual dominam agenda da cimeira da UE.
Os 27 líderes da União Europeia reúnem-se em Bruxelas para uma cimeira de dois dias centrada na invasão russa da Ucrânia, nos abalos provocados pela economia chinesa e no próximo orçamento plurianual do bloco.
Em cima da mesa estarão também a situação no Médio Oriente, a competitividade, o tráfico de droga e as migrações.
A cimeira desta quinta-feira realiza-se na sequência de uma muito aguardada reunião do G7 em Évian, em França, que conseguiu convencer o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, a assinar uma declaração conjunta comprometendo-se a reforçar o apoio militar a Kiev e as sanções contra a Rússia.
Para os europeus, garantir o aval de Trump representa uma importante vitória diplomática que permite disfarçar as múltiplas fraturas na aliança transatlântica.
A decisão unilateral da Casa Branca de conceder três derrogações consecutivas ao petróleo russo tem sido uma forte fonte de tensão. Mas, em Évian, Trump afirmou que a reabertura do estreito de Ormuz, na sequência do acordo-quadro entre os EUA e o Irão, permitirá "em breve" ao seu governo repor as restrições.
A União Europeia prepara um novo pacote de sanções para tirar partido da pressão crescente sobre a máquina de guerra russa, intensiva em recursos.
"É altura de continuar a pressionar a Rússia e é nisso que estamos a trabalhar", afirmou um porta-voz da Comissão Europeia.
Vindo diretamente do G7, o presidente ucraniano, Volodymyr Zelenskyy, deverá juntar-se na quinta-feira aos 27 líderes para a primeira parte da cimeira, que irá discutir formas de relançar as negociações de paz e levar o presidente russo, Vladimir Putin, a sentar-se seriamente à mesa.
António Costa, presidente do Conselho Europeu, manteve "breves contactos" com a Rússia "a nível diplomático para abrir canais de comunicação, mas nada foi discutido em termos de conteúdo", confirmou um responsável da UE antes da cimeira.
Os Estados-membros continuam profundamente divididos quanto à ideia de conversações diretas.
Espera-se também que Zelenskyy aborde a questão da adesão à UE, depois de o seu país e a Moldova, informalmente associados, terem aberto na segunda-feira o primeiro conjunto de capítulos de negociação. Em Évian, o presidente ucraniano voltou a insistir no pedido de uma adesão acelerada.
"A Rússia encontrará uma forma de bloquear o caminho da Ucrânia para a UE. Não querem ver-nos bem-sucedidos", afirmou. "É por isso que precisamos de uma via rápida".
No entanto, a perspetiva de um processo acelerado não foi bem recebida pelos líderes europeus, que insistem em preservar a integridade e a credibilidade da complexa metodologia. Os diplomatas receiam que a opinião pública ainda não esteja convencida da ampliação e que seja necessário muito mais trabalho para garantir a aceitação pelos eleitores de uma decisão com tamanha importância.
"Só há uma via, que é a via do mérito, e sabemos o que é o mérito", afirmou um alto diplomata. "Quando se torna membro da UE, senta-se à mesa e decide cerca de 30% da legislação nacional. Por isso, quero à volta dessa mesa apenas países que partilhem os mesmos valores de Estado de direito dos outros, para decidir sobre legislação que afeta as pessoas".
O chanceler alemão, Friedrich Merz, tenciona defender um cenário alternativo (e não testado): um "estatuto de membro associado", que incluiria, entre outros elementos, o estatuto de observador nas reuniões da UE e assistência mútua em caso de ataque armado.
A proposta de Merz, porém, teve uma receção mitigada em Kiev e noutras capitais e dificilmente terá grande impacto esta quinta-feira.
Da China ao orçamento
Depois da discussão com Zelenskyy, os líderes da UE terão um jantar de trabalho carregado, com um debate muito aguardado sobre a China.
Bruxelas concluiu que o comércio UE-China é insustentável e que algo tem de mudar na relação para evitar uma confrontação aberta. O ano passado foi o primeiro de que há registo em que os 27 Estados-membros, sem exceção, registaram um défice comercial com Pequim. Os receios de desindustrialização deixaram de ser abstratos para se tornarem bem concretos.
"Já não somos ingénuos. O plano quinquenal da China é um ataque ao nosso mercado", afirmou um segundo alto diplomata. "O custo da ação será inferior ao custo da inação. Isso já não é contestado e é algo que não se ouviria há alguns anos".
Embora o diagnóstico seja amplamente partilhado, o remédio ainda está a ser ponderado com cuidado. Alguns Estados-membros, como França, Polónia, Bélgica, Países Baixos, Suécia, Dinamarca e Lituânia, defendem uma postura mais firme para corrigir os profundos desequilíbrios nas relações comerciais e travar os subsídios de Pequim.
Mas outros, como a Alemanha, Espanha e Grécia, hesitam em partir para o confronto direto com a China, com receio de represálias devastadoras e da perda de oportunidades de negócio.
As divisões deverão ficar à vista durante o jantar de quinta-feira, concebido como um debate aberto para permitir que os líderes falem livremente.
A acompanhar de perto estará Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, que há muito alerta para um "novo choque chinês".
Von der Leyen e a sua equipa querem usar esse feedback político para orientar o rumo de ação, que poderá incluir novos instrumentos comerciais para agir mais rapidamente. A Comissão tem tido dificuldades em obter o apoio necessário para acionar o Instrumento Anti-Coerção contra a China, apesar das acusações generalizadas de chantagem e instrumentalização.
"Queremos diálogo, mas o diálogo tem de produzir resultados. Gostamos de concorrência, mas a concorrência tem de ser leal. E queremos um acesso ao mercado chinês que mostre reciprocidade", afirmou von der Leyen no início do mês. "É todo um conceito em que estamos a trabalhar".
Na sexta-feira, os líderes vão passar a outro tema sensível: o próximo orçamento da UE para sete anos, que a Comissão estimou em 2 biliões de euros, um valor sem precedentes.
Chipre, o país que detém a presidência do Conselho da UE, propôs um corte "moderado" de 2%, no valor de 32,8 mil milhões de euros, em relação à proposta inicial. Para os países que querem preservar os fundos agrícolas e de coesão, isso é mais do que suficiente. Mas, para os "frugais", agora rebaptizados de "modernizadores", uma redução de 2% fica muito aquém do desejável.
Espera-se que o debate de sexta-feira leve os líderes a reiterar linhas vermelhas, exigências e condições, todas elas ainda profundamente enraizadas.
Resta saber se os 27 conseguirão fechar o acordo final em dezembro, para evitar que as negociações orçamentais se arrastem para 2027, ano em que eleições em França, Espanha, Itália e Polónia poderão complicar ainda mais o processo.
A cimeira de dois dias em Bruxelas vai reunir quatro novos líderes: Péter Magyar (Hungria), Andris Kulbergs (Letónia), Rumen Radev (Bulgária) e o regressado Janez Janša (Eslovénia).