Muitos médicos na Alemanha criticam sobretudo a obrigação de apresentar declaração de incapacidade laboral desde o primeiro dia de doença, mas o chanceler Friedrich Merz defende os planos de reforma da sua coligação.
Os presidentes da associação de médicos de família, Nicola Buhlinger-Göpfarth e Markus Blumenthal-Beier, classificam como "uma catástrofe absoluta" os planos da coligação para as baixas médicas.
"Sem qualquer evidência, a coligação aceita conscientemente a sobrecarga total dos nossos consultórios", disse.
Segundo o Deutsches Ärzteblatt, os médicos de família antecipam uma vaga de burocracia que dificilmente conseguirão gerir, se for abolida a baixa médica por telefone e se passar a exigir um atestado de incapacidade para o trabalho (AU) desde o primeiro dia de doença. Até agora, o AU só é obrigatório a partir do quarto dia.
"A ideia de que isso vai reduzir o número de dias de baixa é uma ilusão", consideram Buhlinger-Göpfarth e Blumenthal-Beier.
Muitos médicos preveem que, se tiverem de ir ao médico de qualquer forma, os trabalhadores passem a pedir baixas de pelo menos três dias, em vez de, eventualmente, apenas um.
Consultórios sobrelotados e recuo na desburocratização
Sobre o fim da baixa por telefone, Blumenthal-Beier afirma: "inúmeras estatísticas e estudos das seguradoras de saúde mostram de forma inequívoca que a baixa por telefone não levou a mais baixas médicas."
Uma das pouquíssimas medidas de desburocratização com verdadeiro sentido no sistema de saúde será "eliminada de um dia para o outro", critica Blumenthal-Beier.
"Os nossos consultórios ficariam, em consequência, inundados de doentes que não precisam de cuidados presenciais e que estariam melhor na cama", explica.
O pneumologista Cihan Celik, de Darmstadt, conhecido em toda a Alemanha desde a pandemia de covid-19, comenta a reforma da saúde prevista: "a coligação refletiu sobre o elevado absentismo por doença no país e apresentou a pior solução possível: uma que sobrecarrega todas as partes (doentes, consultórios, colegas) sem resolver um único problema."
Merz diz que trabalhadores podem acordar outras regras com os empregadores
Em entrevista a Maybrit Illner, o chanceler lembra que, no futuro, em matéria de baixas médicas deverá voltar a aplicar-se a mesma regra que vigorava antes da pandemia de covid-19.
Nessa altura, afirma, também "não houve qualquer alarme". Desde a nova regulamentação após a covid, as baixas médicas "aumentaram de forma clara", segundo Merz.
Na conferência de imprensa de quinta-feira, o chefe do governo já tinha falado de uma "decisão difícil", sinal de que Merz contava com críticas.
O chanceler acrescentou ainda na ZDF que "os trabalhadores podem acordar outras regras com os seus empregadores."
Nova função dos médicos de família
Perante o envelhecimento da população na Alemanha, muitos receiam que em breve deixem de existir médicos de família suficientes. Já hoje, não apenas em zonas rurais, é muitas vezes difícil encontrar um médico de família.
Nos planos de reforma da ministra da Saúde Nina Warken (CDU), está previsto o chamado sistema de médico de família de referência, que atribui aos médicos de família um papel central.
À semelhança do que acontece, por exemplo, em França, caber-lhes-ia coordenar todas as consultas de especialidade. Para as vozes críticas, as baixas médicas podem transformar os clínicos gerais num verdadeiro estrangulamento, praticamente intransponível para os doentes.
De acordo com um inquérito (fonte em alemão) divulgado no final de maio de 2026 para a associação de médicos de família, 77% dos inquiridos na Alemanha receavam efeitos negativos das medidas de poupança previstas nos cuidados prestados pelos médicos de família.
Quase 60% dos participantes temiam que os médicos passassem a ter menos tempo para cada doente. Também cerca de 60% já antecipavam, mesmo antes dos novos planos de reforma, tempos de espera mais longos no futuro.